Walcyr Carrasco

Anjo de quatro patas

A verdadeira amizade
entre um homem e seu cachorro



Este  o Uno, o cachorro que mudou a vida de Walcyr Carrasco. Os
acontecimentos aqui relatados so verdadeiros e tambm so fico.
O autor filtrou a realidade atravs de sua emoo e maneira de ver o
mundo criando uma histria que une fico e vida real. Mas o que
importa  que Uno existiu e os anos de convivncia entre eles
construram uma relao de companheirismo e amizade
absolutamente autntica.

Minha ligao com Uno estava alm de qualquer explicao, como costuma
ser a de algum com seu cachorro. Durante milnios os ces vivem ao lado
dos humanos. Tornaram-se parentes prximos, com relacionamentos
carregados de afeto e comunicao. (...)
Sua presena impediu que o deserto tomasse conta de mim, que me tornasse
um ser estril. Seus uivos, suas lambidas, suas corridas, caadas, ternuras,
tudo que desfrutamos juntos me manteve vivo.

Watcyr Carrasco  autor de livros, peas teatrais, roteiros e novelas
de televiso. Foi jornalista durante boa parte de sua vida.  cronista

#
da revista Veja So Paulo h cerca de quinze anos. Entre seus livros
destacam-se A senhora das velas, Pequenos delitos, para adultos, Em
busca de um sonho (autobiogrfico), A palavra no dita e Vida de droga,
para jovens. J recebeu trs vezes a meno de Altamente
Recomendvel da Fundao Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o
prmio Shell de Teatro por xtase e o prmio Contigo pela autoria
da novela Alma Gmea. Apaixonado por bichos, vive atualmente
com sis, a vira-lata Morgana, o shitzu Kau, e dois gatos, Merlin e
Shiva. No consegue ver um cachorro na rua sem querer levar para
casa e, se pudesse, convenceria todo mundo a ter um. Em maio de
2008 foi eleito membro da Academia Paulista de Letras.


DEDICATRIA

A todos vocs que, como eu,
amam os ces.

#
MEUS LATIDOS

Quando o pessoal da Editora Gente me convidou para escrever um
livro, props uma srie de contos sobre animais. Topei. Garanti que
escreveria contos sobre ces e outros bichos de estimao. Mas no
consegui. Sentava no computador e lembrava do meu cachorro
husky siberiano, Uno. Dos bons momentos. Da vida a seu lado. Era
como se ele latisse no meu corao: -Conta nossa histria, conta!
Decidi falar sobre a amizade e o companheirismo que ele me
ofereceu. Sobre como  bom ter um cachorro. Uma vez escrevi um
livro infantil do qual Uno foi personagem: Mordidas que podem ser
beijos (Moderna, 2001). Mas nele suas aventuras foram pura
imaginao. Agora  bem diferente. Se algum perguntar se os
acontecimentos deste livro so verdadeiros, responderei que sim.
Mas que tambm so fico.
O autor filtra a realidade atravs de sua emoo e maneira de ver o
mundo. Escolhe os fatos a serem narrados, a maneira como so
encadeados, o tempo e o espao em que ocorrem. Nem mesmo em
uma biografia algum  exatamente como foi. Posso ler vrias
biografias sobre um mesmo personagem e em todas me
surpreenderei com aspectos novos.
Mudei nomes, caractersticas e identidades de algumas pessoas para
preservar a privacidade delas e tambm a minha. Em outros casos,
mantive nomes e acontecimentos.
O que importa saber  que Uno existiu, e que minha emoo 
absolutamente verdadeira. Foi meu husky. Meu cachorro.

Fico feliz por termos convivido tantos anos.

#
1

Meu irmo Cludio resolveu ficar milionrio criando cachorros. Ele
e minha cunhada Bia fizeram as contas:
-Comeamos com um casal. Na primeira ninhada a cadela ter uns
dez filhotes. Vendemos oito e ficamos com mais um casal. Na outra
teremos vinte cezinhos. Adotamos mais dois e...
Pelas contas, estariam ricos dali a dois natais. Negociar com ces
parecia melhor que jogar na loteria!
-Vamos fazer fortuna com os peludinhos! -entusiasmou-se meu
irmo.
Optaram por um par de huskies siberianos. Huskies estavam na
moda, aps um filhote aparecer com destaque em uma novela de
televiso. So lindssimos. Se no conviveu com algum
pessoalmente, voc j deve t-los visto em algum filme de esquims.
Matilhas de huskies puxam trens na neve. Podem ter plo cinza,
negro, branco ou cor de mel. Olhos azuis ou castanho-claros. So
muito parecidos com lobos. No latem, uivam! Possuem um charme
indescritvel. Qualquer pessoa se apaixona por um husky  primeira
vista.
Inicialmente, os dois futuros milionrios no possuam amor
especial pela raa. Parecia um bom investimento. Huskies eram
vendidos a peso de ouro. Esse fenmeno ocorre com freqncia no
circuito dos canis e pet shops. Raas viram moda, tal como um novo
comprimento das saias ou a cor da estao. Quando eu era menino,

o mximo era ostentar um pequins bem peludinho. Em certa poca
se tornou chique raspar os plos dos poodles, deixando um topete na
cabea, um no rabo e um cinturo no corpo. At hoje so conhecidos
#
como cachorros de madame. Dlmatas transformaram-se em
coqueluche. Depois foi a vez dos huskies. Os filhotes eram
disputadssimos. Havia filas para adquiri-los.
Cludio quase saiu no tapa para conseguir uma fmea e um macho
de bom pedigree, ainda filhotes. Foi vitorioso. Adquiriu o mximo
em aristocracia canina. O pai de Luna, a fmea, veio do Canad e foi
capa de uma revista canina. O macho, Thor, tambm ostentava um
impressionante pedigree. Casal mais chique no poderia haver. Os
filhotinhos eram adorveis, mas exigiam cuidados. Bia, minha
cunhada, passou semanas preparando mamadeiras e ajeitando
cobertores. Se ventava ou chovia de noite, ela e meu irmo saam da
cama e enfrentavam as intempries para abrigar melhor os
pequenos huskies. Os ces sempre foram saudveis, mas os humanos
viviam espirrando. Finalmente minha cunhada, pintora, desfez o
ateli que havia em um quartinho dos fundos da casa em que vive
no interior de So Paulo e montou uma sute para huskies.
-Quando vender os filhotes, construo um ateli com parede de
vidro no quintal -planejou ela, pupilas transformadas em cifres.
Ocorreu o inevitvel. Diante de um filhotinho, ondas de amor
brotam at do corao mais endurecido. Meu irmo e minha
cunhada j so bem sensveis. No conseguiram nem tentaram
resistir. Apaixonaram-se perdidamente pelos ces. Viviam com os
dois no colo. Ainda no tinham filhos. Cantavam para os huskies,
beijavam na testa, coavam a barriga e comentavam, felizes como
papais:
-Viu s o que a Luna fez? Pegou um osso e escondeu no quintal!
-Ai, que gracinha, o Thor nas duas patas para pedir comida. Ah,
que guloso! Malandrinho! Malandrinho!
Registraram o canil com um derivado de seu sobrenome: Karras.
Quando ia visit-los, passava a tarde ouvindo comentrios
entusiasmados:
-Eu falo e parece que ela me entende!
-Cachorro  muito melhor que gente. 

#
Meses depois, Luna no havia engravidado. Gastaram uma grana 
no veterinrio em exames. O resultado: 
-A cadela est bem, mas o macho  estril. 
Pode haver investimento pior do que comear um canil com um 
cachorro estril? Pode sim, como vieram a demonstrar os fatos: 
negociar cachorro  negcio de cachorro. 
Os dois no se conformavam. 
-A gente tinha que escolher justo um filhote estril? 


Thor abanava o rabo. Imediatamente era perdoado. 
-No  sua culpa, querido, mas voc nos deu um baita prejuzo! explicava 
Bia. 
-Uauuuauuuuuuuuuu -uivava Thor. 
E os sonhos de riqueza rpida? No desistiram. 
-S vai demorar um pouco mais para dar lucro -concluiu Cludio. 
Foram at outro canil e explicaram a situao. Pegaram emprestado 
um macho para uma gravidez em consrcio: a ninhada seria 
dividida meio a meio. 
-Este  seu marido, Luna! -apresentou minha cunhada. 
-Luna vai casar, Luna vai casar! -cantarolou meu irmo. 
O noivo se aproximou. A noiva ergueu o rabo e arreganhou os 
dentes. O feliz consorte farejou seu traseiro. 
Digamos que foi amor  primeira vista. 
Semanas depois, Luna estava grvida. 
Mais contas com o veterinrio e remdios morderam a poupana 
dos futuros milionrios. Os planos continuaram a todo vapor: 
-Se ela tiver dez filhotes, damos cinco para o canil que emprestou o 
macho e ficamos com cinco. 
-Vendemos todos. Quero pintar a casa e trocar a pia -lembrou 
minha cunhada. 
-Melhor ficarmos com uma cadela e vendermos nove. Depois, 
emprestamos outros dois machos e se cada uma tiver dez... 
Mais contas! Os sonhos de riqueza continuaram de vento em popa, 
mas era preciso investir. Os ces continuavam dando despesas. E 


#
haveria muitas mais pela frente. Seria preciso dinheiro para as 
vacinas, rao e veterinrio dos filhotes at que fossem vendidos. 
Meu irmo aumentou o nmero de aulas que dava na universidade. 
Minha cunhada diminuiu os dias da faxineira e aumentou suas 
horas de trabalho domstico. 
Em uma noite fria, Luna foi para um canto, quieta. Estranha. 
-Os filhotes devem nascer hoje -avisou o veterinrio ao atender a 
ligao preocupada. 
Os olhos de ambos brilharam de ternura misturada com ambio. 
(So assim os sentimentos humanos, um tanto contraditrios.) 
-Se tivermos sorte, nascem uns doze -comentou Cludio, 
esperanoso. 
-J ouvi falar de at quinze -concordou Bia, olhos faiscando. 
Passaram a noite em claro. A cada cinco minutos minha cunhada ia 
verificar. 
-No nasceram ainda. 
Deitava. Dali a pouco, saa da cama. Observava Luna. Adoava a 
voz: 
-Tudo bem, querida? Vai virar mame cachorra? 
Ao amanhecer, iniciaram-se os sinais de parto. Emocionados, meu 
irmo e minha cunhada ficaram esperando o nascimento dos 
filhotinhos. Seus sentimentos oscilavam entre o amor desmedido 
pelos ces e as perspectivas financeiras. Nasceu o primeiro filhote, 
cor de mel. 
-Ai, que coisa mais linda! -exclamou Bia. 
-J, j vem mais um. -anunciou meu irmo. 


Ficaram olhando. Um minuto. Cinco. Dez. Vinte. Seus pescoos 
doam com a expectativa. Bia encostou-se em um lado da parede, 
ele no outro. 
-Que demora! 
Luna acomodou-se amorosamente com a cria. Mais meia hora. 


#
Indiferente a suas preocupaes, Luna descansava com o 
cachorrinho, um macho. As angstias do parto pareciam deixadas 
para trs. 
Meu irmo e minha cunhada se olharam, surpresos. 
-S um? 
-Ih... s um! 
Mais tarde, o veterinrio explicou: 
- rarssimo, mas pode acontecer ninhada de um s. Nunca um 
projeto de riqueza desabou to depressa! 
Meu irmo abriu uma cerveja e declarou: 
-Acabou essa histria de criar cachorros pra vender. Vamos ficar 
com o filhote. 
Como no era possvel dividir o cozinho ao meio para entregar ao 
outro canil, ainda tiveram de desembolsar algum dinheiro por ele! 
-O nome dele ser Uno, porque foi nico -declarou minha 
cunhada, com o cachorrinho no colo. 
-Tambm podia ser Prejuzo -rosnou meu irmo. Era s conversa. 
Ambos j estavam irremediavelmente 
apaixonados pelo pequeno husky. 
H males que vm para o bem. Como disse antes, negociar 
cachorros pode ser um empreendimento de alto risco. No basta 
querer dinheiro,  preciso ter muito amor porque as ciladas so 
inmeras. Os fatos provaram que o prejuzo poderia ter sido muito 
maior. Bia e Cludio tinham uma amiga que conseguiu concretizar 
planos exatamente iguais aos que eles possuam no incio da 
empreitada. Comprou dois casais, investiu em novos procriadores, 
encheu-se de filhotes e chegou a ganhar uma grana, que usou para 
ampliar os negcios. Tarde demais, descobriu que criar ces no  o 
mesmo que possuir uma mina de diamantes. Muitos compradores 
de huskies se decepcionaram. Eu, que amo a raa, posso contar com 
imparcialidade. 
Apesar de grandes, da aparncia de lobo e do uivo assustador, 
huskies no servem como ces de guarda. So dceis. Adoram 

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crianas. E no se consegue adestr-los. Alguns treinadores 
cometem o erro de dizer que so burros. Coisa nenhuma. Possuem 
uma inteligncia peculiar, uma personalidade forte. Francamente, 
no esto nem a para ficar guardando os pertences dos humanos. 
No fundo, no nos pertencem. Eles, sim, so nossos legtimos 
donos! 
Fogem e no sabem voltar para casa. Vieram das plancies geladas, 
onde no existiam fronteiras ou propriedades individuais. So 
oriundos da vastido da neve. Sabem ir, ir, ir. Dificilmente 
conseguem voltar. Embora, como contarei mais tarde, Uno fosse 
uma exceo, pois sabia voltar pra casa. Portanto fogem e no 
voltam! Muitos proprietrios de huskies se surpreenderam ao 
descobrir que eles so capazes de escalar muros como gatos (sim, 
so) e desaparecer para sempre, provavelmente adotados por uma 
nova famlia. s vezes uivam longamente. E so teimosos! 

A raa saiu de moda. O golden retriever tornou-se a nova coqueluche. 
Em todos os canis, os huskies deixaram de atrair compradores. 
De repente a futura milionria, amiga de meu irmo, se viu com 300 
filhotinhos encalhados! Sem comprador  vista! Gastou todas as 
economias vacinando e alimentando os trezentinhos. Com a 
poupana arrasada, implorava pela caridade alheia. 
-Pode contribuir com um pacote de rao? -pedia aos amigos. 
Pior. A maior parte dos filhotes costuma ser vendida at completar 
trs meses. Depois disso o cachorro j est grande. A pessoa prefere 
um filhotinho para se acostumar na casa desde pequeno. A pobre 
ex-quase-milionria levava caixas de ces a todas as feiras de 
animais. Ficou com calos nos dedos fazendo lacinhos para enfeitar o 
cocoruto das fmeas. Teve cibras na boca de tanto sorrir para eventuais 
clientes. Cansou os braos de tanto botar filhotes no colo de 
criancinhas e murmurar: 
-Olha s, ele gostou de voc. 
Fez liquidao no canil, oferecendo os huskies a preo de custo. S se 
livrou de alguns. Ficou com 293 encalhados. Quem ama os ces no 

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 capaz de solues radicais. Gastou tudo o que tinha para alimentlos, 
tentava mant-los, mas alguns comearam a se reproduzir e... 
Segundo a ltima notcia, os ces continuavam crescendo fortes e 
saudveis, devorando toneladas de rao. J a grana... 
Meu irmo e minha cunhada livraram-se desse destino. Ficaram 
com os trs: Luna, Thor e Uno. Seria uma famlia feliz, se no fosse a 
eterna competio entre machos, que costumam se estranhar. No 
comeo, Uno e Thor rosnavam um para o outro. Logo passaram a se 
atacar. Minha cunhada os separava com gritos e gua fria. Uma 
loucura. 
Chegou a minha vez de entrar na histria. 
Passei por uma fase difcil e dolorosa. Perdi uma pessoa querida 
aps uma doena devastadora. Eu a acompanhei durante todo o 
desenrolar. Fui seu enfermeiro, seu amigo e seu amor. A experincia 
ainda no parecia terminada. Eu continuava abrindo sua parte do 
armrio, pegava suas roupas e botava no nariz, tentando sentir seu 
cheiro, captar seus ltimos sinais sobre a Terra. Olhava suas 
gavetas, seus papis, as lembranas, bilhetes, postais que guardava. 
Se saa para um cinema, um papo com amigos, compras, o que 
fosse, me dava uma vontade enorme de voltar para o apartamento, 
como se ela ainda estivesse l, me esperando. Ao entrar, voltava  
realidade e dava um n na garganta. Ia at suas coisas para 
novamente pegar, cheirar, ver e chorar, chorar e chorar... 
-Nunca mais vou amar de novo! -dizia para mim mesmo, com 
plena convico. 
Era uma perda to sofrida que no queria correr o risco de amar 
mais uma vez e novamente perder. 
Eu me sentia no buraco. E no pretendia sair dele. 
Muita gente me aconselhava a dar a volta por cima, a esquecer. 
Tinha horror de ouvir esses conselhos. Nada  pior do que perder 
algum e ouvir: 
-No se desespere. 

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S se eu no tivesse amado para no sofrer. Somente um amigo, 

Andr, me deu razo. 
-Se voc tem que chorar, chore. Se quer se esconder, se esconda. 
Respeite seu momento. 
Tinha que desocupar o apartamento repleto de recordaes, onde 
cada mvel, cada parede me lembrava de uma passagem triste. 
Alm do mais, era alugado. H anos construa uma casa em um 
condomnio distante, de chcaras, em uma cidade prxima. Estava 
prestes a ser terminada. Sempre havia sonhado com a casa prpria, 
mas a construo se arrastava havia anos. Tive pouca grana a maior 
parte da minha vida. Os financiamentos impunham juros e 
correes monetrias. Eram difceis de obter. A maior parte dos 
imveis, inacessvel para meu bolso. Minha companheira fazia 
trabalhos eventuais na rea de moda, mas nunca recebeu salrio 
fixo. Era um tanto descabeada. Quando recebia, comprava roupas 
novas, presentes para mim, comidas extravagantes. Eu segurava a 
estrutura: aluguel, comida, empregada, luz, gua, impostos. A casa 
era fruto de um longo projeto. Economizei muito, durante anos. 
Com dificuldade comprei um terreno em um bairro distante. O pas 
passava por sucessivos planos econmicos, um diferente do outro. 
Em um desses, meu terreno valorizou-se muito, porque em razo da 
baixa renda da poupana, todo mundo estava tirando dinheiro do 
banco e aplicando em imveis. Era minha oportunidade. Resolvi 
vend-lo. Fui at o dono da imobiliria: 
-Quero vender o terreno para comprar um pequeno apartamento. 
-No prefere uma casa? 
Meus olhos brilharam. Resumindo: havia uma casa em construo 
muito, mas muito mais distante ainda que o terreno, em um 
condomnio quase rural. A obra estava parada havia dois anos, mas 
j tinha as paredes e a laje. Maravilha das maravilhas, o terreno do 
fundo dava para uma reserva florestal onde corria um riacho com 
uma pequena cascata. O dono da imobiliria fez uma transao na 
qual entrou como parte principal o tal terreno, minha pequena 

#
poupana e at meu carro, com uns seis anos de uso. Sa da 
imobiliria a p para pegar nibus na estrada, mas proprietrio de 
uma casa. Ou quase. 
Casa? Eu nunca construra coisa nenhuma. Imaginava que seria fcil 
termin-la. Que fantasia! Nos dois anos seguintes, fui comprando o 
material pouco a pouco e concluindo a obra por partes. Comecei 
pelo telhado. Um amigo indicou um especialista, que foi at l e 
perguntou: 
-Como ser o telhado? 
-Assim -respondi desenhando no ar com os dedos. Ele fez 
exatamente como mostrei e o telhado est l at 
hoje. Talvez por milagre. Quando consegui, botei as janelas. Depois 

o piso, de tijolo. O terreno era enorme, com mais de 2 mil metros. S 
tive dinheiro para plantar grama na metade. A outra continuou 
cheia de mato. Durante todo esse tempo fomos construindo a casa. 
Com a doena, tudo parou. Trabalhei em dobro e guardei dinheiro 
para emergncias. Meu maior terror era ser obrigado a intern-la 
em um hospital pblico, onde eu no pudesse estar a seu lado e 
segurar sua mo quando partisse. No tnhamos plano de sade, 
pois na poca no era algo to comum quanto hoje. Juntava cada 
centavo para, quando chegasse a hora, pagar um hospital, mesmo 
simples, e acompanh-la em seus ltimos momentos. Mrbido? 
Quem amou e perdeu sabe do que estou falando. Minha 
necessidade de estar a seu lado e transmitir minha ternura era at 
fsica. Mas ela faleceu em casa. O dinheiro ficou no banco. 
A melhor homenagem seria terminar a casa e mudar. A pedido de 
sua me, seu corpo fora cremado. As cinzas, espalhadas no prprio 
jardim do crematrio. No havia tmulo para visitar, um lugar para 
honrar sua memria. No jardim da casa em construo, porm, 
havia uma lembrana viva de seu amor. Vou explicar. Durante toda 
minha infncia, os natais foram tristes. Minha me era dona de uma 
lojinha e passava a vspera de Natal trabalhando. No dia seguinte, 
exausta, fazia um almoo comum e botava algumas frutas secas na 
#
mesa. Hoje entendo que fazia o melhor possvel. Devia estar exausta 
aps dias de trabalho intenso. Quando menino era difcil ver meus 
amigos correndo para a ceia, para festas familiares, com parentes 
vestidos de Papai Noel ou comemorando de alguma outra maneira, 
enquanto eu ficava sozinho na porta do pequeno comrcio de 
mame, admirando as luzes acesas em outras casas e os rudos de 
festa. Sentia uma enorme necessidade de ter um Natal como o dos 
outros. Essa alegria, s tive como adulto. Estvamos sem dinheiro. 
Mesmo assim, ela resolveu que no podamos passar sem uma 
rvore de Natal. Quase na vspera, saiu  luta. Encontrou um vendedor 
com alguns pinheirinhos sobrando. Pechinchou. Voltou com 
um pinheiro torto, que decoramos com algumas bolas vermelhas. 
Foi a primeira rvore de Natal de minha vida adulta, e eu nunca 
esquecerei seu carinho ao me oferecer a rvore. Depois do Dia de 
Reis, plantei o pinheiro em frente  casa em construo. Foi 
crescendo, ainda torto. Nossa rvore de Natal, que estaria sempre 
naquele lugar para me lembrar daquele gesto de carinho. 
Gastei o dinheiro guardado para a doena deixando a casa em 
condies habitveis. Estava exausto e precisava me mudar. A casa 
era a melhor opo: novo lugar, novos ares. Durante a doena, 
havia atingido o limite das minhas foras. Aprendi a dar remdios, 
ouvir instrues mdicas, fazer curativos, passar horas do lado 
segurando sua mo, simplesmente para ela saber que eu estava l. 
Nunca fui um tipo atltico. Mas a carregava no colo para ir ao banheiro 
e esperava a seu lado, enquanto fazia suas necessidades. 
Arrumava sua roupa e a levava de volta. Percebia seu corpo se 
tornar cada vez mais leve, consumido pelo cncer. Como meus 
sentimentos eram contraditrios! Dias e noites eu torcia pelo fim, 
porque era horrvel contemplar seu sofrimento, mas ao mesmo 
tempo tinha esperanas de que ela no partisse nunca. Quando ela 
se foi, no consegui entender por que pedi a Deus que a levasse, 
pois me sentia rasgado por dentro, alucinado de dor. Como pude 
desejar o que no queria? 

#
Eu a amava, amava tanto que nunca mais queria amar ningum. 
Minha vida afetiva acabara. Estava fechado para o mundo e para o 
amor. 
Mudar para longe parecia a soluo ideal. Queria ficar solitrio, no 
meu canto. No tinha foras e muito menos vontade para 
reconstruir a vida afetiva, me apaixonar novamente, ir adiante. 
Sorria, triste, e pensava: "Parem o mundo que eu quero descer!". 
Nem todo mundo achava bom que eu fosse para to longe. Minha 
me foi visitar a casa e chorou. 


-Mas voc vai morar neste fim de mundo? Vai ser assaltado! 
Assumi uma atitude corajosa. 
-Assaltado posso ser em qualquer lugar. 
-E o mato atrs da casa? Os ladres podem se esconder atrs das 
rvores. 
-Mame, no estamos num filme de faroeste com os apaches 
escondidos para atacar. A mata at me protege. Nenhum ladro vai 
atravessar o rio, o mato e pular a cerca, pegar a televiso, pular de 
volta e atravessar o rio de novo com a televiso na cabea, vai? 
Reuni meus mveis e mudei. A casa ficou bem vazia, mas no 
importava. Com o tempo compraria mais moblia, se tudo corresse 
bem. A famlia morria de preocupao. 
-Voc devia sair, se divertir! -aconselhou meu pai. Me divertir de 
que jeito, se minha garganta doa como 
se apertada por um torniquete de ferro? 
Em conversas privadas, meus irmos, cunhadas e pais resolveram 
fazer alguma coisa. Meu irmo Cludio props: 
-Quem sabe se ele arrumasse um cachorro? 
Todos concordaram. Desde menino, eu gostava de ces. Ele se 
prontificou a resolver o problema e me telefonou: 
-Voc precisa de um cachorro! 
Concordei. O terreno era grande. Queria um co. Pensava em um 
pastor alemo bem bravo para latir e atacar ladres a dentadas. 
Seria mais seguro na casa. 


#
-Tenho um para voc! -trinou Cludio do outro lado da linha. 


- grande, pode me proteger? -perguntei. 
O silncio do outro lado poderia ter me alertado. Meu irmo 
disfarou: 
- bem forte, tem presena. 
-Ah, bom. 
-Nunca esteve na situao de precisar defender algum. Mas acho 
que se algum for agressivo, ele defende. 
Eu acho! Vivo dizendo para quem me cerca jamais dizer "eu acho". 
Quem acha no sabe. No prestei ateno no detalhe do "eu acho". 
Aceitei. 
-Ah, que bom, eu estava mesmo pensando... 
-timo! Ele tem dois anos e... 
-No  grande? No vai me atacar? 
-Ele  muito dcil, no se preocupe. Voc vai gostar dele, tenho 
certeza. Seu nome  Uno! 
Combinamos que o co, j grande, seria entregue no fim de semana 
seguinte, pois Cludio mora em uma cidade prxima. No sbado, 
fiz um almoo para trs e esperei. No incio da tarde, meu irmo 
ligou para avisar que ia se atrasar. Em tom de voz misterioso, 
explicou que seria melhor ir  noite. 
-Por qu?  s uma hora de estrada! 
-Por causa da polcia. 
Estranhei. O que tinha a polcia a ver com um cachorro? 
Chegaram quase de madrugada. Na poca, Cludio possua um 
utilitrio com caamba. No escuro -no condomnio no havia 
iluminao de rua -, vi a silhueta da minha cunhada agachada com 
um cachorro de porte mdio na caamba. Com uma das mos 
agarrava a coleira. Com a outra, segurava-se para no voar para 
fora. 
-Desculpe o atraso, tive que vir a cinqenta por hora no mximo. A 
Bia veio na caamba. 
-Por qu? -perguntei ingenuamente. 


#
-Ah,  que pusemos o Uno acorrentado na parte de cima, mas ele 
se revoltou. A Bia teve que viajar na caamba, o que  proibido. 
-Mas na viagem eu fiquei ajoelhada com a cabea entre as pernas 
do cachorro e a polcia rodoviria no me viu! -confessou ela, 
vitoriosa. 
Estranhei. "Que maneira esquisita de transportar um simples co", 
pensei inocentemente. Ela pegou o cachorro, que parecia muito 
assustado. Com a ajuda de meu irmo, desceu, sem soltar o 
cachorro da corrente. 
E, pela primeira vez, eu e Uno nos olhamos. 
Seu plo era cor de mel. Tinha um olho azul e outro castanho. Quis 
me aproximar para acarici-lo, mas ele puxou a corrente e saiu 
correndo com minha cunhada atrs. 
-Pare, Uno, pare! 
-Eu pensava em dar um nome mais significativo, tipo Merlin expliquei. 
-Pode tentar -respondeu meu irmo enquanto desembarcava meio 
pacote de rao, um pote para comida e gua e uma manta rasgada. 
-Mas o nome completo  Uno of Karras.  um nome aristocrtico. 
Karras  o nome do canil que eu fundei, registrei e que j estou 
fechando. 
Minha cunhada entrou no jardim e conseguiu prender a corrente 
num pilar da varanda. 


-O husky odeia ficar preso, enlouquece com a coleira -ela explicou -, 
mas  preciso para ele se acostumar aqui. 
Fomos comer. Ouvi os primeiros uivos. Altos, cortantes. 
-Vai acordar toda a vizinhana! -assustei-me. 
- impossvel cal-lo quando uiva -explicou meu irmo. 
Comemos espaguete ouvindo o barulho. Na casa do vizinho, um 
pouco distante, algum acendeu as luzes. Um vulto saiu pela janela 
para descobrir o motivo do escndalo. Senti um olhar enfurecido na 
nossa direo. Abaixei um pouco para que ele no me visse atravs 
do vitr da cozinha. 


#
Felizmente os uivos cessaram. 
-Viu s? Foi s um pouquinho -sorriu meu irmo. 
-Ele deve estar estranhando a casa -concordei -Vou at l um 
pouco, fazer presena para ele se acostumar comigo. 
Uno mordera a coleira e fugira. Era esse o motivo do fim dos uivos. 
-Ah, no se preocupem -sorri. -Deve estar no quintal. 
-Talvez sim, talvez no. Ele  bem capaz de ter escalado a cerca. 
Pode ter fugido para a mata -suspirou minha cunhada. 


Demos uma batida rpida no quintal. 
- melhor esperar at de manh -propus. -L na reserva florestal 
tem cobra. 
-Temos que achar o Uno seno ele se enfia na mata e no volta 
mais! -argumentou Bia. 

Achei duas lanternas. Os trs samos pelo portozinho do fundo. 
-Uno, Uno! -gritei mata adentro. 
-Ai, socorro! -gritou minha cunhada ao tropear em uma pedra. 
Caiu sentada dentro do riacho. Eu e meu irmo conseguimos i-la 
com dificuldade. Com o p torcido e toda suja de barro, Bia 
arrastou-se para casa. 
Eu e Cludio andamos pela mata durante umas duas horas,
chamando pelo cachorro. Nem sinal. Eu me sentia muito mal,
sozinho. Ia perder um cachorro que mal havia chegado? O que o
destino tinha contra mim?
Com mos e rostos arranhados por espinhos, teias de aranha presas
nas roupas, tnis imundos de lama e folhas secas nos cabelos,
finalmente desistimos da busca:
-Ele sumiu. O jeito  voltar -concluiu Cludio. Fomos capengando
at a casa. S queria um chuveiro
quente e me atirar na cama.
Bia nos esperava sentada na varanda, cochilando, de banho tomado,
com Uno deitado a seus ps. Era a prpria imagem da paz familiar.
-Onde ele estava? -rugiu meu irmo.


#
-Quando voltei, apareceu e me seguiu. Ficamos aqui esperando.
Por que demoraram tanto?
-Ainda pergunta? Por que no foi avisar que ele tinha voltado?
-Torci o p, esqueceu?
Enquanto o casal discutia, Uno os observava com ar de
desaprovao. Como se no tivesse nada a ver com o assunto.


-O importante  que ele apareceu. Eu preciso  de banho e cama! disse
eu.
Os dois concordaram, exaustos.
-Mas que baile esse cachorro nos deu! -exclamei. Minha cunhada
me encarou, sorriu e disse com a mais
absoluta sinceridade:
-Bem-vindo ao mundo dos huskiesl
S ento tive um lampejo do que me esperava. Por pouco no
amarrei minha cunhada e o cachorro de volta na caamba. Mas era 
tarde. Eu olhei mais uma vez para o co, e ele me encarou com os 
olhos cintilando de ternura. Que sedutor! Sentei-me no cho e o 
abracei longamente, sentindo seus plos macios, seu cheiro, e uma 
imensa vontade de t-lo perto de mim. 



2 

Uno passou dias estranho. J tinha 2 anos e estranhou a ausncia de 
meu irmo e minha cunhada. s vezes, de noite, uivava solitrio 
para a Lua. Eu ia abra-lo, mas ele fugia. Nossos breves contatos 

#
ocorriam quando eu punha rao na sua vasilha. Ficava me 
observando de longe. Assim que eu me afastava, aproximava-se 
para comer. Sempre com um olhar selvagem que aos poucos 
descobri ser pura angstia. Lembro-me de certo fim de semana em 
que um amigo foi me visitar. Samos para almoar fora, mas esqueci 
uma janela aberta. Ao voltar Uno estava dentro de casa e havia 
destrudo vrios travesseiros e espalhado a espuma pela casa toda. 
Meu primeiro impulso foi castig-lo. Depois pensei em minha 
prpria dor. No acordava de noite com dor de garganta, de tanto 
pensar no meu amor perdido? No sentia dor fsica de tanta falta de 
algum que no voltaria mais? 
O mesmo devia acontecer com Uno. Tambm sentia falta de amor. 
Perdera os abraos de Bia, que o alimentara desde filhote. Adeus s 
brincadeiras de meu irmo! No convivia mais com outros dois 
ces. Passava a maior parte do dia sozinho em casa, quando eu saa 
para trabalhar. Na poca, trabalhava como redator de uma revista.
Minhas finanas no eram suficientes para pagar uma empregada
diria. Tinha uma faxineira duas vezes por semana. Eu mesmo
cuidava de Uno. Ao sair, deixava sua comida. Ao voltar, enchia
novamente seu pote de rao. Meu cachorro passava os dias
solitrio, numa casa estranha, distante do carinho a que estava
acostumado. Compreendi seu sofrimento. Assim, apesar dos
travesseiros destroados, no briguei. Preferi me aproximar. Ele me
olhou estranhamente, com medo talvez. Para que no fugisse, eu o
abracei em um gesto rpido. Coloquei sua cabea em meu colo.
Conversei:
-Agora somos s ns dois, Uno. Meu cachorro!
No iria brigar por causa de uns travesseiros. Era mais importante
que nos tornssemos amigos. Ele ficou algum tempo com a cabea
debruada na minha perna, sentindo meu cheiro. Em seguida
recuou. Pela primeira vez, deitou-se pertinho de mim. Desde aquele
dia, passou a ficar por perto sempre que eu estava em casa.

#
Nem tudo foi exatamente como eu pensava. Logo descobri que Uno 
era uma nulidade como co de guarda. Pior ainda: a revelao 
ocorreu justamente quando apareceu um leo nas imediaes da 
minha casa. 
Exatamente, um leo!  a mais absoluta verdade. Segundo soube, na 
regio havia um criador ilegal de lees. No  to incomum quanto 
parece. Quando reprter, cheguei a entrevistar pessoas que criavam 
animais selvagens como bichos de estimao. Nunca vou esquecer 
de um casal que tinha um leo. Foi um filhote lindinho. Cresceu 
cheio de amor pelos donos. Parecia um gatinho, ou melhor, um 
gato. At que, certa noite, a famlia (o casal e o leo) assistia  
televiso na sala. L pelas 11 horas o casal decidiu dormir. O marido 
levantou do sof e foi desligar a televiso. Imediatamente o leo 
rugiu.
Ameaador, fitou marido e mulher. A televiso continuou ligada,
com os dois refugiados no sof. E o leo assistindo.
Acabou a programao. Na tela s chuvisco. O marido tentou
desligar novamente. O leo rugiu de novo, ainda mais forte.
O casal continuou sentado. O leo assistindo. A noite passou com os
trs diante do chuvisco da TV. S foram resgatados quando ele no
apareceu para trabalhar e ningum atendeu ao telefone na casa.
Preocupados, os amigos chamaram a polcia. O leo foi capturado e
entregue a um zoolgico. Tiveram sorte: foram salvos antes do
horrio do almoo!
A mulher de um amigo, quando criana, criou uma ona. Morava
numa casa de esquina e passava os dias brincando com a bichana no
jardim. Eram ntimas, ela e a ona. O veterinrio aconselhou:
-S no durma junto. A ona pode sonhar que est caando.
A menina no obedecia. De noite, abria a porta e colocava a ona em
sua cama. Nunca aconteceu nada de mau. A garota cresceu, casou e
levou a ona junto. At o dia em que a felina morreu porque, para
nossa grande tristeza, certos bichos vivem menos que a gente.

#
No fiquei surpreso ao saber da existncia de um criador de lees,
ainda mais numa regio campestre. Pelo que soube, vivia a alguns
quilmetros de mim. Tinha vrios lees, em jaulas, e gastava
fortunas em carne para aliment-los. Era ilegal, claro. Mas morava
longe e nenhuma autoridade sabia dos lees. At que um deles
fugiu.
E para onde foi?
Refugiou-se na reserva florestal atrs da minha casa. Um morador
de um condomnio prximo deu de cara com o leo durante sua
corrida matinal em torno de um lago. Dispararam os dois. Ele aos
gritos para um lado e o leo rugindo para o outro. Os jornais
noticiavam as andanas do bicho. Todos os dias eu lia uma notcia
semelhante  do dia anterior: "Ainda no foi encontrado o leo
desaparecido nas imediaes da Granja Viana".
 noite, quando eu chegava do trabalho, na portaria do
condomnio, o rapaz da guarita avisava:
-Cuidado com o leo!
Como tomar cuidado com um leo? Minha casa no tinha porto
automtico. Para botar o carro na garagem, eu precisava descer,
abrir o cadeado, o porto de ferro e entrar. Descer novamente,
fechar, e abrir a porta da cozinha. Para me proteger, s havia um
alambrado bem fajuto em torno do quintal. Cumprir todas essas
tarefas cotidianas com um leo  solta atrs da cerca de casa foi uma
sensao e tanto! E por semanas inteiras! Haja adrenalina!
E quem disse que dentro de casa eu estaria seguro? Bastava uma
patada para o leo abrir uma das portas-balco! Todas as noites eu
entrava em casa, trancava as portas, verificava as janelas e pensava:
-Se pelo menos eu emagrecesse, no seria to apetitoso!
No dia seguinte, procurava avidamente novas notcias no jornal.
Mais uma vez me certificava de que o tal leo ainda no havia sido
encontrado, mas que fora visto de novo pertinho de casa!

#
Na primeira noite tive a iluso de que Uno me salvaria. Imaginei
meu bravo husky atirando-se sobre o leo. Quase chorei ao imaginlo
dando a vida por mim. Chamei:
-Uno, Uno... vem c.
Veio com o rabo entre as pernas. Mesmo assim, eu o encarei
esperanoso.
-Se o leo aparecer, voc me salva?
Uivou timidamente. Aps anos lendo livros e vendo filmes sobre
ces hericos, eu imaginava que todos eles possussem uma vocao
inata para oferecer a vida pelos donos. Meu husky parecia bem
longe de ter esse talento.
Enquanto tentava encaixar a chave na porta da cozinha, ouvi um
rudo suspeito no gramado. Podia ser o leo! Tentei fazer com que
Uno refletisse sobre seu dever como co de guarda.
-Uno, seja um cachorro corajoso e fiel. Se for o leo, me salve.
Enfiou o rabo ainda mais profundamente entre as pernas. Nervoso,
eu no conseguia abrir a porta. Deixei a chave cair. Tive que
procurar no escuro. Achei. Tentei abrir de novo. Uma coruja voou
sobre o telhado e quase morri do corao ao ouvir o pio. Finalmente
consegui. Entrei na cozinha. No umbral, Uno me encarava com a luz
da lmpada cintilando nas pupilas.
-Uno, seja um bom cachorro e verifique se o leo est a.
Mais rudos no quintal. Podia ser um rato ou um leo; eu estava
apavorado. Precisava fechar a casa. Uno continuava imvel. Refleti:
"Se for um leo, vai palitar os dentes com meu cachorro".
Escancarei a porta.
-Venha, intil!
Ergueu o rabo e entrou na cozinha. Bati a porta e passei a chave.
Respirei fundo. Uno me encarou com jeito de "estou faminto". A
vasilha de rao havia ficado fora. Peguei um prato fundo, botei
arroz, feijo e carne. Devorou tudo alegremente. Olhei pelo vitr.
Um vulto corria pelo mato, mas no parecia um leo. Era bem


#
menor. Uno eriou os plos, olhou ferozmente para a porta e
rosnou.
-Ah, safado, agora que voc est aqui dentro d uma de valente?
Fiz um sanduche e comi. Ele ainda tentou filar um bocado. Para
ficar em paz, ofereci-lhe um pedao de po -meu cachorro adorava
po. Reclamei:
-Voc no vale a rao que come! Continuou mastigando, sem me
dar importncia.
Fui para o quarto. Ele me acompanhou. Fiquei lendo na cama, com
Uno deitado no cho. "Estou bem-arrumado se depender desse co
de guarda", pensei .
A caada ao leo durou mais alguns dias. Nunca soube exatamente
como terminou, pois a notcia sumiu dos jornais. Alguns seguranas
do condomnio garantiram que foi capturado. Outros, que se
embrenhou na mata. No devorou ningum, pelo que soube. Ns,
os moradores, fomos nos acalmando. Descobri tambm que a mata
produzia seus prprios sons: pssaros noturnos, coaxar de rs, o
vento nos ramos das rvores. Se pulasse da cama com o corao na
boca a cada rudo, no dormiria mais. Acostumei-me a sentar na
varanda todas as noites e a passar algum tempo admirando a Lua e
as estrelas. Em So Paulo, eu no tinha essa relao profunda com o
cu. Mal levantava a cabea para olhar as estrelas. Descobri que 
uma coisa mgica. Passei a contemplar a noite horas inteiras, a
perder a noo do tempo. Reencontrei um hbito de minha infncia,
quando morava no interior e conversava com as estrelas. s vezes
conversava com elas como se fossem minhas amigas. Ou deixava o
dia passar pela minha cabea, os pensamentos flutuarem, sem me
fixar em nenhum, at sentir uma grande paz. Era minha meditao.
Quando tive certeza de que nenhum leo saltaria na varanda para
me devorar, sentei numa poltrona de palha e voltei a conversar com
as estrelas. Embora tivesse optado por isso, eu me sentia muito
solitrio. Morava longe dos meus amigos, em uma casa isolada, com
a mata ao fundo. Ao mudar, pensava que minhas cicatrizes se

#
fechariam, que a dor deixaria de vir em ondas. Como em um passe
de mgica. No foi o que aconteceu. Descobri que um amigo mais
velho tinha razo. Quando falei em mudar, ele me avisou:
-No importa para onde for, vai carregar voc mesmo.
A frase parece bvia. No entanto possui uma grande sabedoria.
Pensei em mudar de ambiente, de local, em ficar longe do agito, das
pessoas que haviam me acompanhado durante aqueles meses to
difceis, porque ao v-las eu revivia meu sofrimento. Mas levei a dor
dentro de mim. Meu sentimento no era como um pacote que se
pode esquecer em algum lugar para continuar o caminho mais leve.
A ferida ainda estava aberta. Sangrava.
Diante das estrelas, lembrei de cada etapa da doena. A descoberta
do cncer j instalado. A primeira consulta com um mdico amigo,
que pediu os primeiros exames e certamente desconfiou do pior,
pois nos aconselhou um especialista. A ida a um mdico
importante, cujos honorrios eu paguei com dificuldade. Tive sorte.
Foi um mdico generoso que chegou a arrumar amostras grtis para
nos ajudar com os remdios mais caros.
O aluguel levava parte de meus ganhos. Abandonei a construo da
casa. Mesmo que estivesse pronta, no teria mudado para to longe.
Era preciso viver em um local de fcil acesso, onde o auxlio
pudesse ser rpido, mesmo porque em algumas fases o tratamento
provocava enjo e dores.
A situao era grave. S eu podia trabalhar, e ganhava menos do
que precisvamos. Pegava trabalhos extras para fazer em casa:
pequenas tradues e artigos, sempre apavorado com a
possibilidade de faltar dinheiro para algum tratamento essencial.
Amigos maravilhosos ajudaram, conseguindo transfuses em
hospitais pblicos e remdios doados por familiares de pessoas
falecidas da mesma doena. Na frente dela eu sorria, contava como
tinha sido meu dia, fazia fofoca. Sozinho, todos os dias eu rezava:
"Deus, por favor, no a deixe sofrer".

#
Falei com o especialista. Expus minha situao: no havia dinheiro
para uma longa internao em um hospital particular, como eu
desejava. As filas para os hospitais pblicos eram interminveis.
Mas e se fosse preciso? Falei tambm sobre meus sentimentos:
-Mesmo que fosse fcil coloc-la em um hospital gratuito, no
quero abandon-la em uma enfermaria durante semanas, talvez
meses. Quero permanecer junto dela.
-Eu vou ser franco, s sero possveis tratamentos paliativos respondeu
o mdico. -J vi casos assim. S aconselho internao se
a dor for insuportvel e for preciso sed-la no hospital.
-Eu quero que ela fique em casa, perto das coisas de que gosta,
ouvindo minha voz, recebendo amigos.
Talvez minha atitude parea estranha, porque a maioria das pessoas
quer internar seus doentes, como se a estada no hospital fosse a
garantia de um tratamento mais eficiente e desse uma esperana
extra. Mas eu lera os livros de uma psiquiatra norte-americana,
Elizabeth Kubler Ross, conhecida por seu trabalho com pacientes
terminais. Depois de conviver com inmeros doentes, a doutora Elizabeth
escreveu livros para preparar o paciente para a passagem.
Neles, ensina a famlia e os amigos a tornar esse momento o mais
lindo possvel, dizendo que a morte  a ltima grande experincia
de vida. Segundo ela, o doente deve ficar em casa, talvez at com a
cama no meio da sala, cercado de afeto, flores, ouvindo as vozes das
pessoas, sentindo o cheiro da comida, vendo quem entra e quem sai.
O especialista concordou.

-O melhor ser ela ficar com voc enquanto for possvel.
Para isso, seria preciso gastar mais. Meu dinheiro no dava sequer
para pagar uma enfermeira, mas tnhamos uma empregada
dedicada, que se tornou uma irm. Cuidava de tudo durante o dia,
e eu  noite. O computador ficava no quarto ao lado, transformado
em escritrio, onde eu trabalhava. Ficava atento ao som da voz de
minha companheira, e me levantava vrias vezes para falar com ela,
servir gua, dar os remdios, pegar na mo. Dormia em um sof ao

#
lado da cama, atento ao menor rudo, a qualquer suspiro, e talvez
por isso at hoje tenho um sono estranho, porque durmo
profundamente mesmo em um terremoto, mas desperto ao menor
murmrio.
Contei tudo isso para as estrelas, repisando fatos e sentimentos.
Chorei. Seu rosto plido, magro, a cabea com raros tufos de
cabelos, tudo isso ia e vinha em minha mente. A dor explodiu.
Solucei e mais uma vez minha garganta parecia estar sendo
espremida por um colar de ferro que se apertava cada vez mais.
Olhei para as estrelas. Perguntei:
-Por que tudo isso aconteceu comigo, justamente comigo?  to
difcil amar, amar to profundamente!  horrvel estar aqui, sem
ningum!
Meu cachorro saltou para a poltrona a meu lado. Ergueu-se. Apoiou
as duas patas dianteiras em meu ombro e lambeu minha orelha
direita. Continuei chorando, porm meu corao bateu comovido.
Ele mordeu delicadamente o lbulo da minha orelha. At me
assustei. Tinha dentes grandes, e eu j comprovara a fora de suas
mandbulas ao v-lo quebrar um osso a dentadas. Surpreendi-me ao
descobrir que mordia delicadamente, com carinho. Ficou algum
tempo lambendo e dando pequenas mordidas na minha orelha.
Minha tristeza foi substituda por um sentimento de alvio. Abracei-

o. Afundei a cabea nos seus plos.
-Meu amigo! -murmurei.
Descobri que no estava mais sozinho.
#
3

H um grande engano na relao entre ns, humanos, e os ces.
Gostamos de acreditar que somos donos do animal, e que ele nos
obedece de rabo abanando por reconhecer nossa superioridade.
Tudo no passa de um estratagema do cachorro para obter uma
vida confortvel. A raa superior  a canina. Provo. O homem
trabalha para o co. Enquanto eu me enervava no trnsito indo para

o meu emprego na revista, Uno descansava na grama. Se eu passava
o dia em longas reunies, ou terminando algum texto em cima do
prazo, trabalhando como um louco, meu cachorro corria atrs dos
passarinhos. Ao voltar para casa, acabado, no incio da noite, no
tinha sequer tempo para um banho. Uno uivava, e eu era obrigado a
servir a rao. Ainda sentia prazer em v-lo comer! Quem mandava,
afinal, em nossa relao? O cachorro,  claro!
No mximo, para fingir que tinha alguma serventia, rosnava para
algum que passava na rua, num arremedo de co de guarda
profissional. De vez em quando me presenteava com algum rato do
mato morto. Huskies so bons de caa, e se algum rato aparecia no
jardim, no se salvava. Generoso, Uno colocava o rato na minha
porta, como recompensa pelo meu bom comportamento.
-Outro rato, Uno! J disse pra parar de trazer ratos!
Dava fim ao cadver, morrendo de nojo. O husky encarava-me
pacientemente, talvez refletindo sobre a ingratido humana, pois eu
nem sabia agradecer um presente.
#
Existem, de fato, bravos cachorros que guardam shoppings e
empresas, ou auxiliam a polcia em aeroportos. S algumas raas se
resignam a trabalhar. A maioria dos ces contenta-se em ser
alimentada, aquecida, escovada e acariciada. Seu maior trunfo  o
olhar. Quem resiste  expresso cheia de amor de um cachorro?
Muitas vezes, a relao de posse  total, e ai do humano
desobediente! Uma amiga, moradora do mesmo condomnio que
eu, acreditava ingenuamente ser dona de uma fmea de pastor
alemo. Todos os dias ambas repetiam a mesma rotina. A humana
chegava de tarde. A cachorra a esperava no porto e delicadamente
pegava suas mos com os dentes. Depois a conduzia atravs do
jardim at a porta de entrada, quando de rabo abanando a canina
soltava a humana. Certo dia, a moa voltou cheia de sacolas de
compras. Quando a cachorra foi pegar sua mo, esquivou-se.
-Hoje no.
A cadela rosnou, atacou. Aos gritos, a humana foi socorrida pelo
marido.
O casal amava a agressora. No conseguiam entender o motivo de
tanta fria aps anos de convivncia. No tinham coragem de
descart-la. Mas... e se tivesse se tornado perigosa? Acabaram, os
trs, em um psiclogo de animais, que foi taxativo:
- muito simples. A cachorra acha que  sua dona. Todos os dias a
pega no porto do jardim e a leva com a boca at a porta. Ela se
revoltou porque voc no obedeceu!
Ficaram os trs se olhando sem palavras e sem latidos, marido,
mulher e cadela.
Foi preciso um longo treinamento at demonstrarem  canina que
no ela era realmente a dona dos humanos. A peluda sofreu um
ataque de depresso com a perda de autoridade. O casal se
preocupou. Finalmente a humana aceitou ser conduzida, todos os
dias. Submeteu-se, enfim,  autoridade indiscutvel da verdadeira
lder familiar: a cachorra!

#
H na televiso por assinatura, em um canal internacional, um
reality show com uma treinadora de ces. Sua especialidade  mudar

o comportamento do cachorro, que freqentemente dita as regras
da vida domstica. Meu amigo Vicente assistiu, faz algum tempo, 
histria de um pequins que dominava a casa. Dormia na cama do
casal com a mulher. Quando o marido ia deitar, atacava-o aos
latidos e mordidas. O homem refugiou-se no quarto das crianas.
As visitas tambm no eram bem-vindas. Amigos eram expulsos
pelo feroz pequins. Proprietrio total do territrio, o peludinho
obrigava a dona a passar o dia todo acariciando-o no quarto,
enquanto o marido e as crianas viviam pisando em ovos para no
irritar o cozinho. A treinadora diagnosticou:
-Ele  o dono de vocs.
Sem pancadas, sem violncia, tratou de mudar o comportamento da
pequena fera. Quando ele se comportava mal, virava as costas e
dizia:
-Muito feio.
E no lhe dava importncia. vido por conquistar seu afeto, o
pequins passou a fazer suas vontades. A treinadora adestrou
tambm os moradores humanos. Ensinou-os a resistir ao
autoritarismo canino. A no oferecer tanto amor em troca de maus-
tratos. Em dez dias, o pequins mudou completamente. Passou a
dormir em um cestinho. O marido voltou  cama e  vida conjugal.
As crianas perderam o medo. Os amigos voltaram a visit-los. A
famlia recuperou a harmonia.
S contei essas histrias para explicar como Uno tomou posse da
casa. Era um cachorro gentil, e ainda me lembro de seu olhar com
emoo. Mas meus horrios passaram a ser rigidamente controlados
por meu cachorro.
De manh, eu acordava um pouco mais cedo para supri-lo de gua
e rao. Se dava tempo, escovava seu plo. As despedidas eram
longas.
-Tenha um bom dia, Uno. Qualquer coisa, me telefone.

#
Eu o abraava vrias vezes. Quando saa, me acompanhava com o
olhar atravs do porto.
Mesmo morando longe, eu voltava para casa no horrio. Se havia
alguma festa, saa de novo. Era preciso cuidar da refeio noturna
de meu cachorro e, sobretudo, saber se estava bem. Ficava sem jeito
por qualquer atraso.

-Uno, querido, tive um imprevisto.  culpa da minha chefe.
Corria a botar a rao, que ele comia com expresso de mgoa.
Na maior parte das noites, via televiso. Ele se deitava ao meu lado
no sof. Passava a mo na sua cabea, brincava com seu focinho.
Puxava seu rabo. Ele rosnava e fingia me morder. Mas sempre de
brincadeira. Ficvamos brincando durante muito tempo.
S se abatia em dia de trovoadas. Tinha horror. Botava o rabo entre
as pernas e se escondia em um canto. Eu ia at l abra-lo,
confortava.
-Eu estou aqui, Uno. Aqui. Eu tomo conta de voc.
Ele botava a cabea no meu colo e eu o acariciava.
H algo incrvel a respeito da perda. Seja por falecimento, seja o fim
de um amor. Achava que o sofrimento no ia passar nunca. s
vezes as lgrimas vinham aos meus olhos. Abraava meu cachorro,
sentia que ele era meu alicerce, meu nico ponto de apoio nesse
mundo. Mas a dor se aplaca. Durante muito tempo lutei comigo
mesmo como se deixar de sofrer fosse uma traio. Aos poucos,
deixei de ficar com a voz embargada cada vez que falava seu nome.
Ou de sentir o peito esmagado quando lembrava do calor de sua
mo. E de minhas palavras em seu leito de morte.
-Eu te amarei para sempre -prometi pouco antes da passagem.
Eu estava fechado para qualquer relao. A presena de Uno me
acalmava, e descobri que ainda podia sentir ternura. Contudo os
sentimentos no morrem, e a lembranca continuava viva dentro de
mim, uma cicatriz aberta e dolorosa. Quando pensava em minha
vida, via uma sucesso de perdas. Amigos do peito afastaram-se
porque a vida nos conduziu a caminhos diferentes. Na infncia tive

#
uma grande amiga, e toda a famlia acreditava que um dia nos
casaramos. Mudei de cidade e nunca mais a vi. Mais tarde vivi meu
primeiro amor, e ainda me lembro dela com emoo. Uma vez ou
outra, durante a vida, tive notcias a seu respeito, e sempre penso no
que poderia ter sido minha vida se tivssemos nos casado. Os bons
amores ficam guardados. Sabe como ? Imagino um salo com uma
estante de cristal repleta de vasos, um mais lindo que o outro, uns
pequenos, outros enormes, cada qual uma jia nica. s vezes me
detenho diante de um deles, aprecio, observo, e digo para mim
mesmo: "Que lindo!  to bom de olhar!"
Cada sentimento que vivi, cada relacionamento rompido ou
terminado  como se fosse um vaso guardado na estante. No meu
corao, acendo uma luz sobre o vaso e contemplo sua beleza.
Penso:
-Como foi bom! Onde estar agora? Como ter sido sua vida?
E desejo do mais fundo de mim mesmo que os anos tenham sido
legais para aquela pessoa, com experincias positivas, benficas.
Cada vaso merece seu destaque, e tem seu lugar no meu corao.
Quando uma amizade termina, um amor chega ao fim ou um amor
se vai, deixa tristeza e mgoa. Mas, com o tempo, fica a impresso
da pessoa legal que passou por minha vida, a beleza da relao. Um
vaso, uma jia nica, um amor.


Fico horrorizado quando encontro pessoas que, aps um casamento
ou uma grande paixo, entram em batalha. Torturam-se. Atingem
extremos de mesquinharia. Maridos que se recusam a dar penso
aos filhos. Mulheres que exigem mais do que o ex pode oferecer.
Pessoas que do um espetculo de egosmo. Eu me pergunto:
-O que foi feito daquele amor? Como duas pessoas que foram to
apaixonadas, to ntimas, so capazes agora de fazer tanto mal uma
 outra?
Na estante do meu corao, o vaso ficaria rachado, ou em cacos.
Por que eu falei tudo isso?


#
No me sentia pronto para me apaixonar. Mas tambm no
suportava continuar sozinho. Vivendo to solitrio, o mais difcil
era ouvir os vizinhos. Os sons de um jantar, o rudo de uma risada,
uma voz de criana. Se estava prximo de alguma casa, o tinir dos
talheres. Pode haver algo mais domstico do que o tinir de garfos e
facas? Famlia. Tinha amigos, sem dvida. Mas cada um levava sua
vida, com seus relacionamentos, seus amores. Muitos estariam
dispostos a vir se eu pedisse socorro. Entretanto no se pede socorro
todos os dias. A solido  como uma doena crnica. Atormenta.
Di. S no vem a crise aguda, aquela que faz gritar por ajuda. Era
terrvel a sensao de ir a um restaurante, sentar sozinho em uma
mesa. Olhava em torno, via casais e grupos de amigos rindo,
conversando. Eu me sentia excludo. Lia uma reportagem sobre um
novo local, vinha a vontade de conhecer o cardpio. Depois me
imaginava entrando, sozinho, sendo recebido pelo maitre sem jeito,
olhar de dvida:

-Quantos so?
-Um s.
Ele me levava, invariavelmente, a uma mesa de fundo. Em muitas
ocasies, era obrigado a chamar o garom vrias vezes, pois passava
por mim como se eu fosse invisvel. Preferia atender duplas que
chegavam depois de mim. No cinema, sentava-me sozinho em uma
sala cheia e ouvia as pessoas rirem, comerem pipoca, enquanto eu,
isolado, esperava o incio. No final, os outros iam para uma pizza,
uma cerveja, sei l. Eu caminhava at o carro, dirigia at minha casa.
No mximo, parava no caminho para um hambrguer rpido, em
um fast-food, onde estar sozinho no era visto como um estigma.
O sinal de alerta foi dado no meu aniversrio, quando descobri que
estava a um passo de nem sei o qu. Acordei, recebi os parabns por
telefone de meus irmos e minha me, que vivia em outra cidade.
Minha famlia nunca foi particularmente unida, e nunca tivemos o
hbito de realizar muitas comemoraes. Alm disso, cada um de
ns vivia em uma cidade diferente. No trabalho, onde eu estava

#
havia poucos meses, ainda no havia formado laos. Ou talvez no
fosse um sujeito to simptico como gostaria, porque s fiz
amizades efmeras. Mesmo no aniversrio recebi somente
cumprimentos corteses, de praxe. Para evitar festas constantes que
perturbavam o desempenho profissional, a empresa decidira que as
comemoraes deveriam se limitar a uma por ms, para
homenagear todos os aniversariantes de uma vez s.
Assim, naquele aniversrio, terminei o expediente, ias no queria
voltar para casa. Resolvi me dar um presente, j que no ganhara
nenhum. Fui a um shopping. Comprei um livro que queria fazia
tempo e uma camisa plo. Devorei um bife grelhado com fritas, at
um pouco gorduroso. E resolvi comemorar com um doce -uma extravagncia,
pois queria perder a barriga. Tenho predileo por
pudim, porque minha av paterna, grande cozinheira, fazia um
delicioso, receita antiga, tradicional. Era muito afetiva, minha av.
Mesmo no sendo a mesma receita, todo pudim tem aparncia
semelhante aos dela, e me sinto imediatamente atrado. Tambm
sou doido por bombas de creme. Parado diante da vitrine, hesitei.
Qual comeria? Em seguida, resolvi: "Hoje  meu aniversrio. Vou
querer os dois".
Fui at a caixa e pedi a ficha. Uma senhora simptica imprimiu o
tquete, sorrindo:
-J vi que gosta de doces.
-Esto com um jeito delicioso, e perdi a vergonha de ser guloso.
-A gente tem que aproveitar! -ela concluiu, com mais um sorriso.
E me entregou o troco.
J com o tquete na mo, dei alguns passos em direo  vitrine.
Virei-me. Voltei e senti uma enorme vontade de contar:
-Sabe, hoje  meu aniversrio.
A mulher me olhou surpresa. Ficou constrangida. Abaixou o rosto e
comentou:
-Ah, ?

#
Rapidamente, voltou a contar o dinheiro do caixa. Afastei-me, sem
jeito. Peguei os doces e fui com-los sozinho em um banco da praa
de alimentao, mas sem sentir seu sabor. Havia um vazio no meu
estmago que alimento nenhum poderia suprir. Eu me sentia
envergonhado. Quase implorara por uma palavra de conforto. Por
um sorriso e um parabns. No esperava mais nada, a no ser um
contato gentil. Minha necessidade humana foi demais para a
mulher acostumada a palavras rpidas, eventuais, sem exigncia de
emoo. Ela se assustara.
Voltei para casa. Meu cachorro estava no porto,  espera. No
tinha nenhuma idia do significado de um aniversrio, no entanto
podia sentir minha necessidade de afeto -os ces so mestres em
desvendar a emoo do dono. Sentei-me na sala, e ele veio at mim,
encostou a cabea em meu colo mais intensamente do que fazia
todos os dias. Eu o ergui, abracei e disse, como diria a partir de
ento, muitas vezes:
-Ah, meu cachorro. Somos s ns dois!
Nos dias seguintes, cheguei  concluso de que no podia continuar
vivendo com to pouco contato humano. Thomas Morton foi um
monge trapista -ordem religiosa na qual os membros no podem
falar entre si, pois fazem o voto do silncio -que escreveu vrios
livros sobre sua experincia. O mais famoso tem o sugestivo ttulo
de Nenhum homem  uma ilha. De fato eu no era uma ilha, e talvez
no suportasse os abismos de tristeza a que a solido poderia me
levar. Qual seria o prximo passo, depois de implorar por uma
palavra amiga da mulher da doceria? Abraar o segurana do
condomnio e chorar no seu ombro? Fazer confidncias para o
carteiro?

Resolvi me esforar na outra direo. Conhecer gente. Roberta, uma
antiga companheira de trabalho, morava com o marido e os filhos
em um condomnio prximo. Telefonei no fim de semana seguinte
para dizer que morava por perto e gostaria de visit-la. Ela me
convidou para um churrasco. Passei uma tarde rindo, falando dos

#
antigos tempos de trabalho, da vida profissional -ela estava em
uma fase de reavaliao, aps deixar um emprego de muitos anos.
Tambm gosto de cozinhar, e de repente vrias pessoas se
convidaram para comer em casa no sbado seguinte.
-No vou dar conta sozinho -respondi.
-Eu ajudo -ofereceu-se uma voz feminina.
Era Tati, uma amiga da minha amiga. J ouvira falar dela, mas s
fui apresentado naquela tarde. Sabia que fora casada e tivera um
filho no final da adolescncia. Para minha surpresa, morava no meu
condomnio. Tinha 30 e tantos anos, estava um pouco fora de peso,
com o rosto redondo e simptico, e parecia cheia de energia.
-A Tati cozinha muito bem -disse Roberta.
Em alguns minutos, combinamos tudo. Tati me ajudaria com a
comida. No sbado, chegaria antes dos outros. Trocamos endereo e
telefone.
-Vou levar uma sobremesa -completou ela.
Quase suspirei de alvio. O sbado seguinte estava garantido.
No era s isso. Bem, um homem reconhece sinais. A mulher
tambm. Ningum precisa ser explcito, porque nos pequenos
detalhes tudo  sinalizado. No almoo, Tati foi acompanhada
apenas pelo filho, Guel. Portanto estava sem ningum. O rpido
oferecimento de ajuda parecia tambm um sinal de "podemos nos
conhecer". Era uma situao comum. Homem sozinho,
aproximando-se da maturidade, conhece mulher na mesma
situao, e se aproximam.
Tati no era bonita, mas muito simptica. Gestos geis, sua voz s
vezes se tornava aguda. Ao conhec-la, fiz um esforo enorme para
no comparar seu jeito com as maneiras delicadas, o tom de voz
suave, os olhos profundos de quem eu perdi. Precisava tocar a vida
para a frente. Nem todo relacionamento tem que desembocar em
casamento. Pode ser um companheirismo, um envolvimento.  bom
ter algum para sair, para estar junto, para curtir os bons momentos.
Tati dera o sinal verde.

#
Fiz a barba para esper-la no sbado seguinte. Botei bermuda e
camisa plo, mas me preocupei em combinar as cores e assumir
uma aparncia mais apresentvel. Curioso, Uno observou meus
preparativos:
-Vou receber uma amiga, Uno, e acho que vai ser muito bom.
Sua expresso era de dvida. Expliquei.
-Voc  um bom companheiro, Uno, mas preciso de algum
relacionamento humano. Aposto que voc tambm vai gostar dela.
Ele ergueu o rabo e retirou-se com dignidade para o jardim. Deitou-
se embaixo de uma rvore, decidido a no participar de coisa
alguma.
Tati chegou pouco depois. Da porta senti seu perfume. Trazia uma
torta de ma.
-Fiz pra gente.


-Entra, entra.
De longe, ela e meu cachorro se observaram algum tempo.
-Tati, este  o Uno. Uno, esta  a Tati.
-Adoro ces. Tenho cinco! -ela ciciou cheia de ternura.
-Viu s, Uno, ela gosta de cachorro!
-Vem c, vem, vem! Pst, pst, pst!
Tati foi at ele. Agachou-se bem perto, sorrindo.
-Ah, que coisa mais linda.
Uno ergueu-se e virou de costas. Ergueu o rabo e colocou o traseiro
no nariz de Tati. Em seguida, afastou-se. O sorriso dela desabou.
-Ih, ele  arisco. Amenizei:
-S no comeo. Depois pega amizade.  um cachorro muito afetivo.
Tati observou duvidosa o focinho de Uno, que aparecia no meio da
folhagem onde se escondera. Ela decidiu no radicalizar, j
percebendo a importncia de Uno na minha vida:
-Adoro ces! -frisou mais uma vez.
-Vamos fazer a salada? -perguntei.
Enquanto fomos para a cozinha, tive a inesperada sensao de que
meus namoros dependiam da aprovao de meu cachorro!


#
4

Durante todo o almoo, Uno permaneceu arredio, enquanto eu e
meus convidados ramos na varanda. Tati ainda tentou aproximar-
se de novo, mas ele afastou-se orgulhosamente de rabo em p.
-Sabia que os huskies foram uma das ltimas raas domesticadas?
Ainda so muito prximos dos lobos. -comentou Alusio, marido
de Roberta.
-O Uno tem um jeito selvagem. Uiva e no late. -concordei.
Falamos sobre ces, j que todos tnhamos algum. Roberta havia
ganho um filhote de so-bernardo. Estava apaixonada por ele, mas

o marido no.
-Quando crescer no vai caber no quintal -resmungava.
-A gente d um jeito.
-Voc no estava falando em mudar pra um apartamento?
Minha macarronada foi aplaudida. A sobremesa de Tati, mais
ainda.
-Minha irm sempre cozinhou muito bem! -afirmou Roberta.
Mais tarde, Tati deu mais uma dica:
-Agora voc precisa retribuir a visita -murmurou docemente.
Respondi  altura:
-Basta voc me convidar para jantar.
-Quarta-feira?
Na noite marcada, aps comer a rao, Uno preparou-se para
assistir  televiso.
-Hoje tenho um compromisso! -expliquei.


#
Ele me encarou como se eu tivesse dito algo inacreditvel. Suspirei.
Sentei-me na varanda e botei sua cabea nos joelhos. Cocei-lhe as
orelhas.
-Uno, voc precisa entender que humanos e cachorros so muito
diferentes. Para voc que  co, tudo  mais simples. Se quer
carinho, voc deita de patas para cima. D leves ganidos pedindo 
ateno e algum vem coar sua barriga. Eu gostaria de ser assim. 
De ter coragem de me aproximar de qualquer pessoa, at numa 
festa, e me oferecer de patas para cima. Mas no posso. Ns somos 
complicados.  preciso conhecer algum, fazer charme, perguntar o 
signo, de qual filme gostou, que prato prefere... E a quem sabe ela 
me deixe ficar de patas para o ar. Voc tem que compreender, Uno... 
Eu sinto... sinto uma enorme necessidade de carinho, para no falar 
de outras coisas. 
Ele me ouviu atentamente, porm continuou com o mesmo olhar de 
dvida. No tiro sua razo. s vezes eu tambm tenho dificuldade 
de entender o comportamento humano, principalmente no que se 
refere  vida amorosa. 
Botei uma camisa branca, um jeans novo. Traje muito estudado, mas 
cuidadosamente casual, planejado centmetro por centmetro para 
causar boa impresso. Ao passar perfume, observei meu rosto no 
espelho, sem expresso, sem alegria. Como se eu fosse ao mdico e 
no a um encontro amoroso. "A vida tem que continuar", decidi. 
Com os tnis na mo, caminhei at a sala. Sentei. Meu maior desejo 
era telefonar dando uma desculpa, ficar em casa. Mas no podia. 
"Tenho que lutar contra mim mesmo! Reunir foras!" 
Ouvi os passos leves de Uno, que entrara na casa. Agarrei-o pelas 
orelhas. 
-S vou jantar, ter uma noite agradvel. Posso? No seu olhar se 
acentuava a reprovao. 
-Bem, goste ou no, Uno, eu vou. Voc j teve sua rao, eu ainda 
no comi a minha.  s isso que vou fazer, receber minha rao. E 
talvez abanar o rabo. Alguma coisa contra? 

#
Suspirei: 
- uma estratgia para sair do poo, meu cachorro. Conhecer 
algum, sair, cortar bolo no aniversrio, botar bola em rvore de 
Natal e abrir presente no Dia dos Namorados. O.k., voc tem sido 
um grande amigo, e t-lo aqui tem sido muito bom. Mas eu preciso 
de companhia humana. Ter algum para dividir uma pizza. 
 fato. Cachorro entende tudo o que a gente fala. No simplesmente 
as palavras, mas os sentimentos e as emoes. Sua expresso me 
dizia: "Uauuuuhhhaaa... voc  mesmo um humano complicado. Ela 
 como um osso que voc quer morder". 
-O.k., Uno, pense voc o que quiser. Eu vou. Voc no  meu 
pai, no  minha me, no  meu irmo.  um cachorro e pouco 
sabe dos humanos. 
"V, v! Mas depois no venha ganindo procurar consolo." 
Ergui-me. Abri a porta. Uno saiu para o jardim atrado pelo grito de 
uma coruja. Peguei uma garrafa de vinho e caminhei at a casa de 
Tati. Todas as vantagens desse novo relacionamento gritavam 
dentro de mim. 
-Ela mora perto, o que j facilita as coisas.  separada, 
independente. No vou ter que assumir compromisso, pelo menos 
de cara. E cozinha bem. 
Eu sou um sujeito facilmente seduzido pelo estmago. 
Era uma casa pequena e confortvel, com um jardim cheio de flores. 
Procurei a campainha. Imediatamente, iniciou-se uma sinfonia de 
latidos estridentes. Acompanhada por gritos de Tati. 
-Parem! Parem! 
Os latidos s aumentaram. Senti uma onda de perfume. Era Tati, 
que veio abrir o porto, seguida por cinco bolas de plo que 
saltitavam em torno, ainda latindo. 
-Entre, entre! Eles no mordem. 
Um cozinho atirou-se na barra da minha cala. Seus dentinhos no 
rasgaram o jeans, mas todos ficaram ainda mais nervosos.. 


#
-Desculpe, este aqui tem mania de morder as visitas, mas  exceo. 


Pare, Xico, pare! 
Agarrou o selvagem no colo. Os outros corriam em torno de mim, 
latindo sem parar. 
-Entre, entre, eles latem assim s no comeo. Depois se acostumam. 
Na sala, duas velas quadradas estavam acesas sobre a mesa de 
jantar. Sofs estampados com flores, cortinas idem, almofadas... 
-E o Guel, seu filho? -perguntei cautelosamente. 
-Foi estudar na casa de um amigo. 
Outro bom sinal de que o terreno estava livre. Da cozinha emanava 
um cheiro delicioso. 
-Vou servir lasanha, gosta? 
-Adoro... Ah, o vinho! Entreguei a 
garrafa. 
-Bote em cima da mesa, vou prender o Xico. Fiquei sozinho na sala, 
cercado pelos outros quatro que 
agora me observavam silenciosamente. Dei um passo cauteloso em 
direo  mesa. No mesmo instante, histricos, os peludinhos 
saltaram latindo em torno. 
-Silncio! -ordenei. 
Latiram ainda mais. Dei dois passos e botei a garrafa na superfcie 
de madeira. Os quatro enlouqueceram. Se eu fugisse levando as 
cadeiras no latiriam tanto. Tati voltou, aos gritos. 
-Parem! Quietos! Parem! 
Voltei para o sof. Os cezinhos latiram mais um pouco, depois se 
acalmaram. 
-Como se chamam? 


-O que est preso  o Xico, voc j sabe. Estes so o Xax, o Man, a 
Olvia e a Estrela, porque tem essa man-chinha branca no alto da 
testa. 
-Fmeas? 
-Castradas. Os machos tambm. 


#
Explicou a histria. Tinha uma nica cachorrinha, a Olvia. Quando 
ela cruzou, nasceram cinco. 
-Ia vend-los, pretendia ficar com s mais um. Tinha acabado de 
construir a casa e planejei botar armrios na cozinha. Quando vi as 
coisinhas lindas, peludinhas, no tive coragem de me desfazer. 
Fiquei com todos, menos uma cachorrinha que dei para minha 
prima. 
Lembrei-me de meu irmo e minha cunhada. Mais uma que no 
resistira ao poder de seduo canino! 
-Ainda bem que voc castrou. Seno j seriam uns trinta. 
Rimos. Ela um tanto nervosamente. 
-... e o pacote de rao anda caro. Estou desempregada, sabia? 
-No, a gente no falou sobre isso. 
-Nem vale a pena, j faz mais de um ano! Abro o vinho? 
Acomodei-me no sof. Um a um, os peludinhos deitaram-se em 
torno de mim, Xax com a cabea sobre meu colo. 
-Viu s? J so seus amigos! -disse ela voltando com duas taas 
cheias. 
Peguei a minha, brindamos. 
-Sade -ela disse. 
-A ns! -respondi. 


Trocamos olhares simpticos. 
-Ento, voc tambm adora ces. 
-J nasci cachorreira. Prefiro os pequeninhos. Observei-a com 
desconfiana. Seria capaz de no gostar 
do meu Uno? 
-Eu adoro o meu husky. 
-Ah, sim, huskies so lindos. Mas muito desobedientes. S fazem o 
que tm vontade. 
Quase comentei sobre as pequenas feras que ela criava. Eram algum 
exemplo de obedincia? Achei melhor perguntar: 
-Eu no conheo bem as raas. Qual  a deles? 
-Schnauzer. To peludinhos! 


#
Tremi. Se nosso relacionamento se estreitasse, eu teria que adotar os 
peludinhos? Abdicar de Uno? Serviu salada, depois veio a lasanha. 
-S vou beber um pouquinho, comigo sobe depressa! 
-Mas voc falou que est desempregada... Conte mais. Deu um 
rpido currculo. Fora diretora de uma grande 
fbrica de relgios de parede. Vendiam para supermercados, lojas 
de departamentos. Ganhava participao nas vendas. 
-Fiz a casa com essa grana. 
-E seu ex-marido no ajuda? 
-Qual deles, o primeiro ou o segundo? 
-O pai do seu filho. 
-Ah, o primeiro! No d um centavo, nem pra ajudar nos estudos. 
-Voc no brigou? 
-Ele tambm anda matando cachorro a grito. Que expresso 
engraada, no? Matar cachorro a grito... 


Sua saga era parecida com a de muitos executivos. A fbrica fora 
vendida para um grupo internacional. Na passagem, Tati no fora 
absorvida. 
-Nem liguei quando sa. Achei que seria muito fcil arrumar outro 
emprego porque minha experincia na rea  muito boa. Coisa 
nenhuma. Cansei de distribuir currculos. Esgotei todos os amigos, 
parentes e conhecidos que poderiam me apresentar algum. O 
problema  que j tenho 40 anos. 
-No parece -menti. 
-Hoje em dia o mercado est cheio de jovens executivos com muito 
gs. Depois de um ano fora, no estou mais otimista. Fica cada vez 
mais difcil arrumar colocao. 
Conversamos sobre as dificuldades do mercado. Ela sofria muito 
com a situao, pois a irm ajudava nas despesas. Sempre fora 
independente. Mesmo durante o segundo casamento, com o dono 
de uma empresa, muito rico, continuara a trabalhar. 
-Que pretende fazer? 


#
-Comecei a fabricar velas decorativas. Terminamos a lasanha. Ela 
recolheu os pratos e botou 
sorvete em duas taas. 
-Estas aqui, voc que fez? So lindas -elogiei para me fazer de 
simptico. 
-Gostou? Tenho muitas. 
Levou-me at uma espcie de ateli repleto de velas coloridas e 
aromatizadas, realmente bonitas. Pegou uma das maiores e botou 
na minha frente. 
-Esta aqui tem tudo a ver com sua casa. Escolheu outra. 


-Esta tambm. 
Foi uma situao difcil, pois eu no sabia o que dizer. Era presente? 
Devia agradecer com um "obrigado"? Ou ela estava me oferecendo 
as velas para comprar? Perguntava o preo? Ou seria deselegante? 
Fiquei constrangido. 
- mesmo. So lindas. Tambm gosto desta aqui. Mostrei uma 
redonda. Tati reuniu as trs diante de 
mim. Sorriu,  espera das minhas prximas palavras. Ainda hesitei. 
-Voc... ahn... s vende para empresas... lojas? 
-Ah, no. O pessoal daqui do condomnio tambm compra muito. 
-Eu acho... bem... fico com as trs, so mesmo muito bonitas. 
Ela sorriu docemente. Embrulhou-as. 
-Tambm adoro estas velas, so as mais lindas que fiz. Vou buscar 
uma sacola para voc levar. 
Com um fio de esperana de que fossem presente, perguntei. 
-Quanto ? Assumiu ar pensativo. 
-Deixe eu calcular! 
Oh, cus! Para saber o valor de trs velas, apenas trs, era preciso 
uma calculadora? Anotou a soma em um pa-pelzinho e me 
entregou. Perdi o ar. Custavam o mesmo que um casaco que eu 
pretendia comprar! Mas era tarde para voltar atrs. 
-Voc acha que  muito? 
-No, no, so to lindas. Legal. E assim me deixei ser tosquiado. 


#
-Um caf? -perguntou ela enquanto eu preenchia o cheque. 
Sentamos no sof com xcaras nas mos, os cezinhos acomodados 
em torno. 
-O Xax gostou de voc. Ele no  assim com todo mundo. Prova 
que  uma boa pessoa. 
"E no sou um anjo, depois de pagar tanta grana por velas que nem 
queria?", pensei. Apenas sorri: 
- que eu gosto muito de cachorro e os seus perceberam. Talvez 
tenham sentido o cheiro do meu. 
Passei a mo nos plos de Xax.  to bom acariciar um cachorro! 
Ele acomodou-se melhor no meu colo. Uma lufada de vento trouxe 


o aroma das damas-da-noite. 
-Adoro essa flor -comentei. 
-Eu tambm. 
-Voc pensa em montar uma fbrica de velas? 
-No sei se vale a pena. A margem de lucro  pequena, porque a 
parafina  muito cara. 
"Ah, ? Nesse caso, quanto deveria custar uma vela? O preo de um 
terno Armani?" 
-Comprando parafina em quantidade no barateia? 
-A concorrncia  grande. Tem gente com preo muito baixo no 
mercado porque compra de cemitrio. 
Eu pensara j ter ouvido de tudo nessa vida. Mas essa no! A mfia 
da parafina? 
-De cemitrio? 
-, existem gangues que roubam a cera derretida das velas dos 
tmulos, derretem e revendem a um preo muito baixo. 
Olhei meu pacote com as velas, preocupado. 

-Mas voc... 
-No, sempre comprei parafina em representante comercial. 
-Ah, bom. 
-Agora arrumei um fornecedor independente. Tem um preo muito 
bom. 


#
-Estas velas so de cera de cemitrio? 
-Essas no. Imagine. Fique tranqilo. Nem sei se o meu fornecedor 
est nesse esquema de parafina raspada de tmulo.  melhor nem 
fazer perguntas! 
Oh, cus! "Nunca vou acender essas velas. Imagino a energia que 
elas tm!" 
-Um licor? 
-S o fundinho do copo. 
Acomodei-me ainda mais enquanto ela me servia uma bebida 
horrivelmente adocicada. Nossas mos se tocaram. 
-Que dedos pequenos voc tem! -comentei. 
Nada melhor que um elogio para iniciar um contato fsico. Peguei 
sua mo. Ela sorriu, meio sem jeito. Mesmo depois de vrios 
casamentos, envolvimentos, namoros e rolos de todas as formas, 
pessoas de 40 anos conseguem ficar to constrangidas quanto 
adolescentes. 
-A sua tambm  pequena -ela comentou. 
-Tenho mo e p pequenos. Olha.  pouco maior que a sua. 
Medimos. Fechei a minha sobre a dela. 
-S p e mo -alertei. Ela riu maliciosamente. 
-Voc fica bonita quando ri assim. 


Seu sorriso abriu-se ainda mais. Um homem sabe quando uma 
mulher quer beijar. Curvei-me, um tanto lentamente. Ela manteve o 
sorriso fixo, os olhos  espera. Senti um frio na perna. Um frio? 
Um dos cezinhos fizera xixi na minha cala. 
Gritei surpreso. 
-Ih, olha! 
-Xax, vai ficar de castigo -ela gritou. O peludinho 
fugiu para o jardim. 
-Ele sempre faz isso, vivo lavando a capa desse sof. Desculpe. 
Olhei meu jeans pingando. Tentei lembrar se tinha outra cala limpa 
para ir trabalhar no dia seguinte. Agora que minha situao 


#
melhorara, era urgente achar uma empregada que viesse em casa 
todos os dias. Disfarcei: 
-Ah, no  nada. S vou passar um pano molhado. Mas eu estava,  
claro, cheio de nojo. 
-Tire a cala, eu lavo onde molhou. 
-Mas... 
-Se eu tivesse roupa emprestava pra voc voltar pra casa. Mas aqui 
somos s eu e meu filho, que  bem menor que voc. Do seu 
tamanho, s saia. Quer? 
-No, mas... tirar a roupa? 
-J cansei de ver homem de cueca. 
Torci que minhas meias estivessem limpas. Tirei tnis e jeans. Fiquei 
de sunga na frente dela, constrangidssimo. Ela fingiu naturalidade. 
-J volto. 
Foi para a rea de servio. Fiquei na sala, de p, observando com 
precauo os trs peludos restantes. Com um jeans eu me sentia 
seguro. Seria muito pior se algum se dependurasse com os dentes 
em minha cueca. Ouvi a torneira aberta. Tati limpava o jeans. Em 
seguida, um rudo na porta. Guel, filho de Tati, parou estarrecido na 
sala: 
-Que negcio  esse? Fui para 
trs da mesa. 
-Ah,  que... 
Impossvel que me ouvisse. Os cezinhos quicavam em torno dele, 
expressando sua alegria com latidos estridentes. Durante algum 
tempo tentamos conversar aos berros, mas no nos ouvamos. Tati 
voltou com a cala na mo. 
-Me, pode me explicar que histria  essa? -gritou Guel, mais 
estridente que os cezinhos. 
Tati gritou de volta. 
-Voc no ia ficar na casa do seu amigo? 
-E voc ia cair na farra, me? 


#
Mais latidos. Gritos. Latidos. Era enlouquecedor. Arranquei as 
calas das mos de Tati. 
-Ainda est molhada! -gritou. 
-Tudo bem! -bradei. 
Vesti-me apressadamente. Um cachorrinho mastigava a ponta de 
um dos meus tnis novos. Quando tentei puxar, ele cravou os 
dentes ainda mais profundamente. 
-No force! Ser que voc no sabe lidar com um cozinho? -gritou 
Guel. 
-Ele vai acabar com meu tnis! -gritei de volta. Guel acariciou sua 
cabea. Ergueu dente por dente. 
-Viu s?  s tratar com jeito que ele obedece! -latiu, ao me 
entregar o calado. 


Observei a marca dos dentinhos pontiagudos na ponta. Sairiam? 
Senti o tecido molhado na perna. 
-Lavei bem o xixi -disse Tati. Guel, surpreso: 
-Voc mijou na cala? 
-No, o cachorrinho. 
-Ah, bom. Vou comer alguma coisa. A ss com Tati, 
tentei ser gentil. 
-Vou indo. A lasanha estava o mximo. Foi uma noite tima. 
-Desculpe pela mijada. 
-Que  isso? Quem tem cachorro sabe que s vezes... Guel voltou da 
cozinha com um prato cheio de lasanha 
fria. 
-Se ele fez isso  porque ficou nervoso. Deve ter sido alguma coisa 
que voc fez. 
-Eu? 
-Filhote, vai comer lasanha fria? Deixa que eu esquento! 
-No, tudo bem, j  tarde -respondeu Guel com raiva. 
Mais um segundo e me botava pra fora. Disfarcei mais um pouco. 
De tanto sorrir j sentia cimbra na boca. 
-Bem, eu... ... eu vou... -J? 


#
Quanta falsidade! Ficar naquele clima? 
-Acordo cedo, vou trabalhar. E... ah... Se voc souber de alguma 
empregada... S estou com faxineira. 
-Claro... Vou com voc at o porto. 


Caminhamos em silncio. 
-Adorei sua casa -comentei. 
-Ento precisa voltar. 
-Claro. Eu ligo. 
-Vou esperar. 
Quando fui beijar seu rosto, ela virou de leve e toquei seus lbios. 
Sa. Na esquina, virei o rosto e ela ainda estava no porto. 
-Foi bom, apesar de ter sido obrigado a comprar as velas -conclu 
para mim mesmo. 
Em casa, respirei fundo. O ar da noite era maravilhoso. Quem mora 
longe do centro sabe do que estou falando. A casa toda exalava paz. 
Para minha surpresa, durante todo o encontro, eu no pensara no 
meu amor perdido. Senti-me at culpado, mas em seguida refleti: 
"Esteja onde estiver, ela quer me ver feliz, seguindo minha vida!". 
Olhei o cu, vi uma estrela. 
-Talvez seja voc, cuidando de mim a de cima! 
O silncio era espantoso. A solido total. Nem os pequenos rudos... 
Percebi que faltava algum. 
-Uno, Uno! 
Dentro de casa no estava, pois deixara a porta trancada. Procurei 
no jardim. Acendi as luzes. Procurei. Tudo vazio. Os portes da 
frente e do fundo continuavam fechados. 
Mas meu cachorro no estava mais l. Uno havia 
desaparecido. 


#
5 

Abri o porto do fundo, que dava para a reserva florestal. Chamei: 
-Uno, Uno! 
Nem sinal. Logo alm havia um pntano. Mato cerrado. Rio e 
cachoeira. No negrume da noite seria impossvel encontr-lo. Refiz 


o caminho at a casa de Tati. Luzes acesas. Bati. Ela saiu de roupo, 
e percebi que estava muito mais gordinha do que parecia quando 
bem-arrumada. Muito menos charmosa do que meia hora antes. 
-Esqueceu alguma coisa? 
-O Uno sumiu. Achei que podia ter me seguido at aqui, no sei, 
entrado no seu jardim. 
-Meus cezinhos teriam dado o alarme. Mas venha. Palmilhamos 
seu jardim, de maneira impessoal, quase 
como estranhos. O encontro no programado nos distanciava. Uno 
no estava l. Confessei, angustiado: 
-Tenho medo de que ele desaparea para sempre. Huskies no 
sabem voltar para casa. 
Tati sorriu docemente. 
-Se ele sumir eu arrumo um cachorrinho bem peludo pra voc! 
Quase respondi: "E quem disse que eu quero?". Mas tentei ser 
simptico: 
- que sou doido pelo Uno. Bem, vou indo. 
-At. 
Trocamos um rpido beijo no rosto, sem o toque sedutor do 
primeiro. 
-Vou falar com o pessoal da segurana do condomnio. 


#
Fugas de ces no eram incomuns. Eu e o segurana samos no 
carrinho de patrulha. Percorremos todas as ruas. Nenhuma pista. 
-Deve ter se embrenhado na mata -refletiu o rapaz. 
- o que me preocupa -respondi tristonho. 
Voltei para casa quase de madrugada. Sentei-me na varanda, 
arrasado. Encarei a noite. 
Amo os ces desde menino. Sou cachorreiro, como dizem. Joli era 
um vira-latinha branco. Minha famlia vivia no interior, em um 
sobradinho comprado com dificuldade. Alugvamos a parte de 
baixo para um bar, uma lavanderia e uma livraria evanglica tocada 
por duas missionrias, uma inglesa e outra sueca. Joli dormia no 
meu quarto, era meu querido companheiro. Eu o amava. Mame o 
soltava todos os dias para passear na rua. Depois voltava sozinho 
para casa. Isso era comum na cidade onde eu morava. Joli era 
conhecido no quarteiro, nunca atacava ningum. Mas um dia 
voltou da rua muito estranho. Quieto. Amuado. Na manh seguinte 
no estava no meu quarto. Fomos encontr-lo no quintal, entre 
poas de vmito. Fraco. Gania e soltava um lquido esverdeado pela 
boca. Mame concluiu: - veneno. 
Havia gente que dava "bolinha" a cachorros. Ou seja, veneno 
envolto em carne moda. Algumas faziam isso simplesmente porque 
se irritavam com os latidos. Ou temiam mordidas. Foi terrvel 
assistir  agonia de Joli. Faltei na escola. Fiquei ao seu lado. Mame 
levava gua, que ele bebia com avidez. Ainda no finzinho da vida, 
Joli lambeu sua mo, como se dissesse. 
-Eu gosto de voc! 
E morreu. Foi colocado em um saco de estopa, e a ltima lembrana 
que tenho  de seu pequeno corpo delineado pelo tecido grosseiro, 
antes de ser levado embora. 
Dali em diante mame resistiu a vrias das minhas tentativas de 
adotar um novo cachorro. Cheguei a trazer uma vira-latinha 
castanha e magricela, chamada Patativa. Foi rapidamente doada a 
uma amiga da famlia. Finalmente aceitamos ficar com uma 

#
cadelinha j crescida: Julieta, de remota origem pequinesa. Nossa 
empregada da poca, dona Irene, se irritava muito com o nome. 
-Cachorro no pode ter nome de gente! -dizia. 
-Gente  que no pode ter nome de cachorro! -eu respondia. 
Metido a intelectual, eu batizara a cachorra com o nome da herona 
de Shakespeare. Julieta era alegre. Certa vez foi capturada pela 
carrocinha. Quando cheguei em casa, mame havia desistido de 
procur-la. 
-Agora no adianta mais -disse. 


-So trs dias de carncia -insisti. 
Eu no podia faltar na aula, e tinha trabalho em grupo no dia 
seguinte. No podia faltar. Mame resgatou Julieta, que voltou de 
rabo abanando. Mais tarde, comentou: 
-Nem sei como pude pensar em no ir. O que me deu? 
A cadelinha me acompanhou por vrios anos. ramos muito 
ligados. Logo no incio de minha vida adulta, fui viver nos Estados 
Unidos. Passei dois anos fora. Quando voltei, Julieta me recebeu na 
porta, com latidos de felicidade. S de ouvi-la me senti em casa. 
Mas trs ou quatro dias depois, ao chegar de noite, aps um dia 
procurando emprego, mame me recebeu na porta arrasada. 
-A Julieta foi atropelada. Saiu de casa como todos os dias para 
passear. Um carro vinha a toda na curva, ela foi pega em cheio. 
O pequeno corpo j fora levado. Eu me senti despedaado. 
-Ela sentia saudade de voc -disse mame. -s vezes, quando voc 
estava fora, ficava parada diante da porta esperando voc chegar. 
Dias antes da sua volta, ficou agitada, alegre, como se soubesse que 
voc estava vindo. D a impresso de que aguardou voc voltar 
para morrer. 
Mais uma vez, prometi nunca mais ter cachorro. Cumpri a 
promessa por um bom tempo. Quando fui viver sozinho, tive 
Brigite, uma fmea de pastor alemo capa preta, de origem 
duvidosa. Nunca cresceu o suficiente, talvez por falta de comida 
quando filhote. Quando chegou era to pequena que parecia um 


#
rato. A casa onde eu vivia na poca tinha um quarto de empregada 
vazio. Antes de sair, forrava o cho com jornais, botava gua e 
rao, e a deixava trancada enquanto trabalhava. Ao voltar, limpava 
tudo -quanta sujeira! -e passava algum tempo com ela no colo, 
conversando. Tambm cozinhava para minha cachorrinha. O 
veterinrio havia exigido uma dieta especial, com arroz e cenoura. 
At crescer um pouco, seu nico contato com o mundo fui eu. 
Talvez por isso me adorasse. Se eu estava dentro de casa, ficava na 
porta ganindo, e eu entendia: 
-Querido! Querido! 
Se eu sentava, pulava no meu colo. Brava, atacava quem se 
aproximasse de mim. s vezes me irritava. 
-Pare de latir, Brigite! 
Uma noite estava mais doce, mais calma. Imaginei: 
-Essa pequena fera est melhorando. 
No dia seguinte, amanheceu morta. Chorei sem parar. Depois, levei-
a ao veterinrio. 
-Quero descobrir a causa. 
De tarde, o resultado: envenenamento. 
Suspeito do vizinho, mas ele tambm tinha ces. Quem mais podia 
ter jogado veneno no meu quintal para matar a pequena Brigite, que 
nunca mordeu ningum? At hoje no sei. Mas no consigo 
entender tanta crueldade. 
Veio Tieta. Minha vida amorosa sempre teve muitos altos e baixos. 
Na poca, eu vivia um novo relacionamento. Um dia, uma cachorra 
desgrenhada me seguiu na rua. Parei em casa, abri o porto e ela 
entrou. Descobri pelas pessoas do bairro ser uma cadela muito 
popular, que morava nas ruas. Ningum sabia quem dera seu 
nome, porm era 

Tieta em homenagem no ao livro de Jorge Amado, mas  novela 
nele inspirada. Tieta no me largava, dava a impresso de que 
sempre vivera ao meu lado. Veio o Plano Collor. Para quem no 
viveu aquele momento, eu explico. Para salvar o pas da 

#
hiperinflao, o presidente Collor congelou todas as contas 
bancrias: poupana, investimento, conta corrente. Cada pessoa s 
podia dispor de uma determinada quantia. Foi uma loucura. Gente 
que havia vendido seu imvel ficou subitamente sem nada. Empresrios 
no tinham como honrar a folha de pagamento. Eu estava 
desempregado, e contava com minha poupana. Meu 
relacionamento tambm comeou a fazer gua. Sozinho eu no 
poderia manter a casa. Passei o contrato para uma conhecida e 
mudei para um apartamento pequeno e mais barato. Na ocasio, 
refleti: "A Tieta est acostumada  liberdade das ruas. No vai 
suportar um lugar to menor". Eu estava errado,  claro. Os ces 
no suportam ficar sem amor, o resto  detalhe. Deixei Tieta com a 
nova inquilina. Sempre me arrependi. Minha situao financeira 
melhorou em alguns meses. Eu teria conseguido mant-la. Ainda 
lembro do dia em que acordei morrendo de vontade de v-la. 
Peguei o carro e bati na porta de minha antiga casa. A inquilina me 
recebeu, surpresa. 
-Parece at que voc adivinhou! A Tieta est tendo filhotinhos! 
Fui at o quartinho dos fundos onde ela passava pelo parto, o 
terceiro filhotinho nascendo. Todos com aparncia de dobermanns, o 
que j era suficiente para identificar o pai. O vizinho tinha um 

dobermann. 

-Tieta virou mame! -exclamei. 
-No se aproxime, ela pode morder! -disse a inquilina. 
Estendi a mo e Tieta me lambeu. Nunca esqueci, pois ela superou o 
impulso atvico de proteger a cria por causa do amor que sentia por 
mim. 
Meu arrependimento cresceu nos meses seguintes. Encontrei 
antigos vizinhos, que comentavam: 
-A nova dona no se importa com a cachorra. Deixa solta. A Tieta 
vive suja, abandonada. 
Assim que minha situao se estabilizou, voltei a namorar, a relao 
consolidou-se rapidamente e logo dividamos o mesmo teto. 


#
-Quero trazer minha cachorra de volta -disse eu. Fomos at minha 
antiga casa. 
-Espero que voc no se importe, mas eu queria ficar com a Tieta de 
novo -expliquei. 
-A Tieta morreu. 
-Por que voc no me ligou? 
-Achei que no tinha importncia. 
Desde ento prometi nunca abandonar novamente um cachorro. 
Agora, na varanda, sofria pelo sumio de Uno. 
H algum tempo fui a Israel com um grupo escolhido pelo governo 
para conhecer o pas. Para jornalistas e escritores, esse tipo de 
convite  mais comum do que se pensa. Caminhvamos  beira da 
praia, em Tel Aviv, quando apareceu um cachorro robusto, de corpo 
quadrado e plo curto. Fiz sinal com os dedos. 
-Vem, vem. 


Aproximou-se. Essa  a vantagem dos ces. Eu no precisava falar 
hebraico para nos entendermos. Acariciei sua cabea, seu corpo, 
rindo e brincando, com o rosto a um centmetro de seu focinho. 
Ouvi uns gritos, mas no dei importncia. Dois homens nervosos 
pegaram o cachorro. Pareciam bravos. No entendi muito bem a 
reao. A guia explicou, apavorada. 
- um tipo de pitbull violento. Fugiu da coleira. Estavam gritando 
de medo de que ele o atacasse. Poderia at mat-lo. 
Tenho certeza de que a vontade de atacar nem passou pela cabea 
do co. De longe, ele reconheceu um amigo. 
Ces so capazes de sentimentos surpreendentes at mesmo para os 
cientistas. J li sobre experincias a respeito de seu comportamento. 
Alguns costumam correr para a porta quando o dono est 
chegando, mesmo antes de qualquer sinal ou rudo. Muitos 
comeam a esperar no instante em que o dono sai do escritrio. O 
curioso  que, em algumas experincias, mudou-se o horrio de 
sada do dono. Mesmo assim o co foi para a porta exatamente no 


#
instante em que o dono deixava o trabalho, como se a informao 
fosse fornecida telepticamente. 
Um amigo meu era o rei da balada. Em certa poca foi moda ir 
danar s 6 horas da manh, em lugares que ficavam abertos at o 
meio-dia, nos finais de semana, para quem no queria acabar a 
noite. Ele chegava ao extremo de ir dormir s 2 horas da manh e 
acordar s 4 horas para retornar ao barulho. Um dia, adotou um 
cozinho vira-lata. Apaixonou-se. E adotou novos ces, todos 
encontrados na rua. Outro dia me ligou. Queria saber se eu conhecia 
algum disposto a adotar um cachorro. 
-Ele foi atropelado, mas eu o levei ao veterinrio. No anda direito, 
mas est bem. Precisa encontrar um dono. 
-J encontrou -respondi. -Voc. 
-Eu no! J tenho seis, no consigo cuidar de sete. 
-Botar na rua de volta voc no vai. 
Dito e feito. Est com o cachorrinho at hoje. Faz alguns trabalhos 
extras para pagar por rao e veterinrio. Confessou: 
-No saio mais  noite. Na balada, tudo  sempre igual. A mesma 
msica, as mesmas pessoas... E eu preciso cuidar dos cachorros! 
Minha amiga Vera, casada com Flvio,  uma ativista. Salva todos 
os ces que encontra na rua. Leva a um veterinrio, vacina, castra, 
cuida. E depois trata de encontrar um dono. Dia desses catou dois 
vira-latinhas de plo curto. Nada mais plebeu. Uma amiga 
milionria ligou. 
-Soube que voc lida com cachorros. Estou querendo um. 
-S arrumo vira-latas. Tenho dois filhotes. 
-Ah, mas eu queria com pedigree, pensei que... 
-Voc precisa conhecer os bonitinhos! 
Duas carinhas de malandro. Irresistveis. Foram adotados 
imediatamente. Hoje vo semanalmente tomar banho numa clnica 
de esttica para ces a bordo de um carro com motorista particular, 
sentados no banco de trs. Elegantssimos. 


#
Certa noite, Vera conseguiu parar uma viatura e convenceu os 
policiais a resgatarem uma cadela que sofria maus-tratos em uma 
favela. Encontrou-a amarrada por uma corda, magra e machucada. 
Brigou com o dono da casa. Salvou a cadela e j lhe arrumou um 
novo dono. 
-Sou minha prpria ONG! No quero burocracia, verbas, coisa 
nenhuma. S ajudar os cachorros! 
H alguns meses encontrei seu marido em uma viagem de avio. 
Flvio contou a aventura mais recente. 
-Tnhamos trs ces em casa, agora so quatro. 
O ltimo fora adotado quando uma vizinha se mudara para o 
exterior. 
-O cachorro foi entregue para a irm da moa, mas ela no cuidava 
bem. Quando Vera soube, ficou uma fera. Fomos at a casa dela e 
exigimos levar o cachorro. 
Um ano depois, a verdadeira dona voltou e quis resgat-lo. 
-Agora j  nosso, somos doidos por ele! -respondeu Flvio Vamos 
fazer o seguinte: eu compro o cachorro! 
Pagou o preo de dois. 
-Sabe, s vezes eu acho que vou para o cu! -suspirou. 
Quem ama os ces sabe do que estou falando.  um sentimento 
profundo. Adoro agarrar suas patinhas. Abra-los. Encostar a 
orelha em seu focinho. Eu poderia contar mil histrias, mas todas 
terminariam falando do amor que se tem por um co. 
O desaparecimento de Uno me angustiava. Eu me sentia culpado. 
Ele estava acostumado com minha rotina de chegada, e  noite 
aconchegante ao lado da televiso. A quebra de rotina o abalara. 
Talvez tivesse tentado ir atrs de mim. Quem sabe? 


Naquela noite, cochilava e acordava sem parar. Despertei vrias 
vezes, sobressaltado, pensando ter ouvido uivos. De manh bem 
cedo, esquadrinhei o quintal com a esperana de v-lo. J haviam 
me dito: huskies no sabem voltar para casa. "Nunca mais vou vlo", 
pensei. 


#
Mas Uno era uma exceo. Ouvi um uivo no porto de trs. Corri. 
Ele me esperava com o plo arrepiado e mido, e uma estranha 
expresso de culpa. Entrou mancando e arranhado em vrios locais 
do corpo. 
-Voc brigou, Uno? 
Ergui os olhos. No alto do alambrado, preso no arame farpado, 
havia um tufo de plos. No vi de noite. Com a agilidade de um 
gato, Uno tinha escalado a cerca. Talvez para me seguir. Emocionei-
me: 
-Uno, que coragem! Voc quis me acompanhar! Quanta iluso! 
Notei algumas penas brancas grudadas 
em seus plos. 
-Que estranho! Onde voc arrumou essas penas? A expresso de 
culpa aumentou. Suspirei. 
-Que esquisito. 
Mal me agentava em p, mas precisava trabalhar. Ainda levei meu 
cachorro at a varanda, e tirei a sujeira grudada em seus plos. 
Notei mais penas brancas, prximas ao pescoo, presas no plo 
mido, e espinhos. A cada espinho arrancado, ele tentava fugir. Um 
husky  forte. Precisei de toda minha fora para segur-lo. 
-Quieto, Uno, quieto! 
Com uma tesourinha, cortei os plos mais embolados. Servi rao e 
gua. 
-Eu tenho que ir, mas prometa no fugir de novo. 


Observei-o novamente. Sua expresso era muito suspeita. De quem 
tinha feito alguma coisa errada. E como! 
Quando eu j me aproximava do porto, o sndico do condomnio 
desembarcou de um carro. 
-Preciso falar com voc. 
-Aconteceu alguma coisa? 
-Seu cachorro comeu um dos patos do lago. 
Caiu a ficha. Compreendi o mistrio das penas brancas. O 
condomnio tinha um lago com gansos e patos, com rvores floridas 


#
e um lindo gramado em torno. Perto de casa e tambm prximo  
cerca que separa o condomnio da reserva florestal. Uno havia 
escalado meu alambrado, ido ao lago e, segundo testemunhas, 
abocanhado um pato. Atravessou a cerca de arame farpado e 
escondeu-se na floresta para desfrutar da refeio. 
-Uno, seu safado! Voc comeu o pato? 
Ele sentou-se em um canto da varanda, onde assumiu ar filosfico, 
como se nada fosse com ele. 
-Foi ele, sim, todo mundo conhece seu cachorro. 
-Olhe, eu peo desculpas. Prometo que no vai acontecer 
novamente. 
-Tomara que no. Sabe que  proibido deixar cachorro solto no 
condomnio? 
-Ele fugiu. Vou botar mais arame farpado, duvido que atravesse 
essa cerca outra vez. 
-timo. 
-Bem, eu preciso ir trabalhar. Mas fique seguro de que... 
-Tudo bem. Tome. 


O homem me estendeu um papel. 
-Que  isso? 
-A multa. 
-Que multa? 
-Pelo pato!  regra. O dono do guloso paga o pato! Olhei o preo. 
-Por esse valor podia ter levado meu cachorro a um rodzio de 
churrasco. 
-Tem que pagar, est na conveno do condomnio. Pode pagar 
com o boleto do ms. 
O sndico se despediu. Olhei para Uno, e desta vez a fera era eu. 
-Veja s o prejuzo que voc me deu. No  um co de guarda. No 
paga pela rao que come e ainda faz um banquete com o pato?  
assim que voc trata seu dono? 
Meu cachorro continuou admirando a paisagem, com o ar mais 
inocente do mundo. Realmente, o assunto no era com ele. 


#
6 

Aconvivncia tornou-se difcil, principalmente pelo hbito que Uno 
desenvolveu, a partir de ento, de se banquetear com os patos do 
condomnio. Duas ou trs vezes por semana eu ouvia uma gritaria. 
J sabia do que se tratava. Saa e recebia os seguranas indignados: 
-Seu cachorro fugiu com outro pato na boca. 
-Impossvel. O Uno est aqui, tenho certeza. Deve ter sido outro 
cachorro. Quer ver?... Uno! Uno! Uno? Ih... ih, acho que ele fugiu, 
sim! 
Sempre o mesmo roteiro. Caava o pato, escondia-se na mata, 
enchia a pana e voltava pelo porto dos fundos com ar de 
inocncia. Argumentei. Pedi que tivesse juzo. Clamei por uma 
mudana de atitude. 
-Uno, os patos so muito caros. Alm disso, ossos de aves podem se 
quebrar, furar seu estmago. Pense na sua sade. 
Nem se deu ao trabalho de uivar em resposta. Insisti: 


-Leve minha questo financeira em considerao! Patos custam 
caro. Principalmente estes daqui, porque o condomnio enfia a faca! 
Se eu pedir um pato laqueado no restaurante chins, ser mais 
barato. As multas vo me levar  falncia, Uno! 
Ele ia se deitar um pouco mais adiante. Cruzava as patas. Uma 
sobre a outra, como um lorde. Eu ficava com as contas. 
Huskies so caadores. Vi muitas vezes Uno no gramado  espreita 
de um pssaro. Deitava-se de barriga no cho enquanto a pobre 
vtima ciscava. Arrastava-se at ela. Quando prximo, assustava o 


#
pssaro com o movimento. O incauto voava. Esse era o truque. Uno 
saltava sobre a ave em pleno ar, como se tivesse calculado o vo. 
Tambm tentei ter um gato. A faxineira trouxe um filhotinho 
branco. Uma gracinha. 
-Vamos fazer um se acostumar com o outro -props ela. 
Concordei. Colocamos Uno e o gatinho frente a frente, na esperana 
de que surgisse um rpido e amigvel relacionamento. Zapt! Ele 
saltou e abocanhou o filhotinho pela barriga. Bem esperto, o husky. 
O gatinho tentava atingi-lo com as unhas, mas era impossvel. Uno 
correu. Eu voei atrs de um lado, a empregada de outro com a 
vassoura e dois pedreiros que estavam consertando o telhado 
tambm. Tentou fugir de todas as maneiras, mas conseguimos 
cerc-lo. Ficou parado, com ar selvagem e o gatinho preso na boca. 
-Cuidado, cuidado que ele pode morder! 


Tomei coragem. Aproximei-me. Resgatei o gatinho de sua boca. 
Sem dvida, ele me amava: abri seus dentes e no me atacou! 
Felizmente o gatinho estava vivo e a faxineira o levou de volta. 
Traumatizado, mas sem ferimentos. 
Agora, o problema dos patos era mais grave. O lago com os patos 
era o maior orgulho do condomnio. 
-Prenda Uno com uma corrente -aconselhou Tati. 
-Se eu a prendesse com uma corrente, voc gostaria? Ela murchou. 
Nas ltimas semanas, havamos nos 
aproximado bastante. Imaginei sua figura gordinha presa em uma 
corrente. 
-Se voc no der um jeito, ele vai devorar todos os patos. Vai haver 
uma revolta no condomnio! 
Voltei a uma velha idia: 
-E se eu contratar uma empregada que passe o dia de olho nele? 
-Tenho algum para indicar. 
Minha situao financeira andava melhor. Entrevistei a moa: 
-Voc gosta de cachorro? 
-Lavo, passo e cozinho bem. Trivial simples. 


#
-timo. Mas preciso de uma bab de cachorro. 
-Vivo com ces desde menina. 
Foi contratada, com a condio de passar o dia de olho no 
devorador de patos. 
-Quando ele for escalar a cerca, ligue a mangueira e lhe d um 
banho. Assuste. Mas no o deixe fugir. 
Logo se tornou comum ver a moa correndo pelo quintal de 
esguicho na mo. 
-No, Uno, no! Volte! 


Era uma herona. Nas semanas seguintes meu cachorro s pegou 
dois patos. E apenas nos horrios em que eu tinha a 
responsabilidade de vigiar. Em compensao, pegou horror da 
empregada. Bastava olh-la para se lembrar de jatos de gua fria. 
Pude respirar aliviado: as brigas com o condomnio acabaram. 
O episdio dos patos estava praticamente superado quando Uno 
criou uma situao ainda pior, por envolver a moral e os bons 
costumes. 
A vizinha da frente tinha uma cachorrinha de porte mdio, plos 
dourados, muito simptica. Com os filhos j crescidos, a dona 
transferira todo seu amor materno para a vira-lata, que ela jurava 
ter pedigree. 
-No  que ela tenha raa, raa... mas tambm vira-lata no ! argumentava. 
Botava lacinho na cabea da cachorrinha. Sininho no pescoo. 
Escovava os plos. Seu maior orgulho era poder afirmar: 
-Ela  virgem! 
Boa parte dos donos no se preocupa com a vida sexual canina. A 
no ser para cruzamentos, obteno de filhotinhos etc. Nesse caso, 
acontecia o contrrio. A vizinha afirmava, orgulhosa: 
-Ela  uma dama! No facilita para esses cachorros brutos. 
-Sei -eu respondia. 
Que se pode dizer diante da loucura alheia? Ela s faltava botar a 
cadelinha num convento. 


#
Assim que o episdio dos patos se encerrou, percebi que a rotina de 
Uno mudara novamente. Agora passava o dia olhando a rua, 
aspirando o ar. Se eu abria o porto, se esgueirava para sair. Que 
corpo flexvel! Para impedi-lo, s vezes eu atirava a valise no cho e 

o agarrava pelas patas traseiras. Ele se revoltava. Virava e prendia 
minha mo com os dentes. No me mordeu, nunca. Mas demonstrava 
sua fria. Inocentemente, eu pensei que queria ir atrs dos 
gansos. 
Dias depois, descobri a verdade ao ouvir uns berros na casa da 
frente. Minha empregada chamou desesperada. 
-Corre, o Uno t l na casa da frente! Sa s pressas. 
O marido tentava expuls-lo com o rodinho. A mulher segurava a 
cachorrinha no colo, protegendo-a. Uno fugia do homem, mas 
voltava em seguida, disposto a namorar a virgem. 
-Seu cachorro entrou na nossa cozinha! 
-Por pouco no pegou a Sonata! 
Sonata era o nome da cadelinha. A vizinha quisera ser pianista 
quando jovem. 
-Uno, que histria  essa? 
Ele me encarou, como se perguntasse: "Acha que tem direito a uma 
vida sexual s porque  humano e eu no, porque sou cachorro?". 
Agarrei-o. 
-Voc vem pra casa! Agora! 
Ele soltou todo peso do corpo no solo. 
-J disse, Uno, vamos para casa. 
Tentei arrast-lo pela grama. Ele se agarrava no solo com as patas. 
Que paixo! 
- melhor levar a cachorra pra dentro -aconselhei. 

-Eu levo, mas no adianta. Ces sentem o cheiro do cio de longe. 

Antes de entrar, a vizinha avisou: 
-D um jeito de manter esse selvagem no seu quintal. Se ele entrar 
em casa outra vez, no respondo por mim. 
Uno resistia. Argumentei. 

#
-Ouviu o que ela disse? Venha comigo,  para o seu prprio bem. 
Quem disse que ele me obedecia? Finalmente, eu o ergui  fora. 
-Agora voc vem! -rugi. 
Dei dois passos e ele comeou a se contorcer.  incrvel como um 
cachorro pode ser forte. Usei todas as minhas foras para prend-lo. 
Berrava. 
-Fique quieto! Quieto! 
Mal consegui atravessar a rua. Atirei-o no quintal. 
-Agora voc vai ficar aqui! Aqui! 
Uno correu para o porto. Tranquei com o cadeado. Tati veio jantar 
comigo. Chegou com um pedao de carne assada. 
- s esquentar. E fao uma salada. 
-timo -respondi. 
Foi para a cozinha. Continuei na varanda. 
-Voc no vem? 
-No posso sair, estou tomando conta do Uno. 
-Como assim? 


-Se eu virar as costas, ele escala o alambrado, pula o muro da 
vizinha e d um trato na cachorrinha dela. 
-Ah, mas se ela est no cio isso  normal. Cachorro  assim mesmo, 
fica louco quando sente o cheiro. 


-Ele parece mais interessado que todos os outros cachorros do 
bairro. J invadiu a cozinha da vizinha. E o pior: a cachorrinha  
virgem. 
-O qu? 
-A dona faz questo que continue intocada. Tati surpreendeu-se: 
-A vizinha resolveu proteger a virgindade de uma cachorra? 
-Isso mesmo. O nome da cadelinha  Sonata, imagine. 
-Sonata? 
-Tem medo de que o meu cachorro pegue a cadelinha e transforme 
a Sonata numa sinfonia completa. 
-Ih! E voc vai ficar na varanda at acabar o cio? 
-Tem alguma idia melhor? 


#
-E aquele quartinho de tranqueira nos fundos? Arrastamos Uno at 

o quartinho. Revoltado, fugiu 
umas duas ou trs vezes. Tivemos que persegui-lo pelo quintal. 
Arrastei-me na grama. Tati tentou seduzi-lo com um pedao de 
carne. O safado aproximou-se. Abocanhou o petisco e fugiu de 
novo! Finalmente, exaustos, conseguimos tranc-lo. 
-Melhor que fique preso at o fim do cio. Dura s de dez a quinze 
dias. 
-... acho que vai dar certo. Vou tomar um banho e j volto. 
Tomei uma ducha bem quente. Fiz a barba. Passei perfume. Os 
sinais estavam l, todos bem claros: visitinha noturna, comidinha... 
Seres humanos no entram no cio. Contudo em alguns dias o 
entusiasmo  maior. Essa era a noite! 
Ela acendeu duas velas, das duzentas ou mais que me fizera 
comprar nos ltimos tempos. 
-Achei essas velas. 
Apesar da lembrana do desfalque, sorri. 
-Ficam lindas. Na mesa, um vaso com uma flor recm-colhida do 
jardim. 
-O cheiro da comida est timo -eu disse. 
-Ah, pensei em voc aqui sozinho e achei que seria gostoso... Posso 
servir seu prato? 
Botou carne e salada. Nossas mos se tocaram algumas vezes. 
-Posso colocar uma msica? O que voc prefere? 
-Escolha voc. 
Decidi por uma romntica. Comemos. Sorrimos. 
-Vou pegar a sobremesa. 
-Sobremesa? 
Voltou com uma musse de maracuj.  uma receita deliciosa, mas 
simples. 
-Hoje voc caprichou. 
-Que  isso? Deixe eu pegar os pratos. 
-Fique sentada. Eu pego. 


#
Levantamos juntos. Estendi o brao e a trouxe at mim. Ela sorriu 
com boca de quem quer mais. Beijei. Foi longo. Depois nos beijamos 
novamente. Nossos rostos se afastaram alguns centmetros. 
-Vou lavar os pratos -ela disse. 
-Deixe, eu levo pra cozinha e amanh a empregada lava. 
-Mas vai ficar essa sujeira... 


-Fique tranqila. S me ajude a guardar a travessa. 
Rapidamente botou a travessa na geladeira. Eu a beijei 
de novo. 
-Preciso ir. 
-Agora? 
-J t tarde. 
- algum problema com seu filho? 
-No; imagine que justamente hoje ele foi dormir na casa de 
uma amiga. At j deixei rao para meus cachorrinhos, mas  que... 
Adoro uma desculpa esfarrapada. Enquanto fingia no poder ficar, 
dava todos os motivos para permanecer. Peguei a deixa. 
-Voc vai ficar aqui. 
-E amanh cedo? 
-Est sem emprego. Pode ficar  vontade. 
- que.... 
Ela sorriu. Nos beijamos. Eu a puxei para o quarto. Outro beijo. 
Camos na cama, as carcias mais rpidas. 
-Eu gosto de voc -disse. 
-Tambm gosto de voc. 
Nesse instante ouvi um uivo. De fato j ouvira uns gemidos antes, 
mas disfarara, pensando: "J, j ele pra". Mas agora era um uivo 
alto, prolongado. Parei o beijo. 
-Que foi? 
-O Uno. 
-Est uivando assim porque ventou mais forte e ele sentiu o cheiro 
da cachorrinha. -explicou Tati. 
-E o que eu fao? 


#
-Reze pra parar de ventar. 
Beijamo-nos outra vez, mas j sem tanta tranqilidade. Os uivos se 
tornaram mais fortes. 
-Ele vai acordar o condomnio todo. 
-Quem sabe ele se cansa -insisti, esperanosamente. Ela se afastou 
um pouco. Ouvi um uivo ainda mais 
agudo, desesperado. 
O vento aumentava. Dava para ouvir seu som nos galhos das 
rvores. 
-Quanto mais o vento soprar nessa direo, mais alucinado ele vai 
ficar. 
-Tinha que ventar logo hoje? -reclamei. 
Mais uivos. Para variar, o vizinho acendeu as luzes. 
-Daqui a pouco vo chamar a segurana -ela insistiu, j sentada na 
cama. 
-Fique a. Vou dar um jeito. J volto. 
Botei uma camiseta, chinelo e sa. O vento congelava minhas 
orelhas. Entrei no quartinho. Uno foi para um canto e me encarou 
com expresso culpada. 
-Vamos conversar, eu e voc -expliquei. -Somos bons amigos, no 
somos? 
Silncio. Bom sinal. 
-O caso, Uno,  que  uma ocasio especial. Voc sabe, eu e a Tati 
estamos nos conhecendo. Ela trouxe um jantar -minha rao, voc 
entende -e vai dormir aqui. Voc sabe como so essas coisas. Ns, 
ces e humanos, temos alguma coisa em comum. Como a atrao 
entre os sexos. 


Mais uma lufada de vento. Uno aspirou o ar. Ergueu o focinho e 
uivou mais uma vez. 
-Pare! Vamos conversar de homem para homem. Ou de cachorro 


para cachorro, como preferir. Uno, o caso  que estou 
acompanhado. 


#
Seus olhos me fitaram atentamente. 
-Vamos encarar os fatos. H a questo do consentimento. No seu 
caso no houve esse tipo de coisa. Voc invadiu a casa. E a 
cachorrinha tem uma dona que quer preservar sua pureza. Bem, 
pureza  um conceito humano, mas acho que voc me entendeu. 
Ento, vamos fazer assim, Uno. Voc  um cachorro com pedigree. 
Seu av foi capa de revista. Muitas huskies charmosas de olhos azuis 
se sentiriam felizes em ter filhotinhos com voc. Se for paciente, eu 
tratarei disso qualquer hora dessas. Agora trate de ficar calmo. 
Deitadinho. 
Humildemente, Uno acomodou-se melhor. 
-Obrigado, meu cachorro! 
Fiz um carinho no alto de sua cabea e sa. Assim que fechei a porta, 
ouvi um uivo ainda mais longo. O vento ficou mais intenso. Abri a 
porta. Uno voltou correndo para o canto. Disparei: 
-Tudo que conversamos no valeu? Ele ganiu. 
-Seja um bom cachorro e fique quietinho. 
Dei dois passos para a porta. Uivou. Virei. Silenciou. Tentei sair. 
Mais dois uivos. 
-Uno, voc no me d paz! Trs longos 
uivos seguidos. 
Instantes depois, voltei ao quarto com Uno no colo. Tati me 
esperava j embaixo das cobertas. 
-Mas o que esse cachorro veio fazer aqui? 


Botei Uno na cama. 
-O nico jeito  traz-lo pra dentro. Comigo, ele fica quieto. 
-E eu? 
-No se preocupe. Ele no morde. S solta muito plo, mas amanh 
cedo voc toma um banho. 
-Acha que vou ficar beijando voc na frente do cachorro? 
-... Eu tambm vou ficar constrangido. 


#
Uno acomodou-se, com o corpo enrolado e a cabea entre as patas. 
Aparentemente, o meu quarto ficava fora da direo do vento. Ou a 
nossa presena inibia os uivos. 
Sorri, tentando ser caloroso. 
- uma situao especial, Tati, voc entende? 
-No, no sei se entendo. Era nossa noite especial, eu vim aqui, 
pintou um clima... Faz tempo que a gente anda se conhecendo e de 
repente comeou a rolar... E agora voc bota esse cachorro na cama? 
-Voc tambm dorme com seus cezinhos. E so cinco! 
-Mas no dormiria se voc estivesse l. Mesmo porque eles tm 
cime de mim. Iam morder o seu... Ah, deixa pra l! 
-Ai, meu Deus! Seria um risco. Bem, o importante  que voc 
entende. 
-Vou pra casa. 
-No, fique aqui! 
-Amanh a gente conversa. Vestiu-se rapidamente. 
Levantei-me. 
-Vou acompanh-la. 


-No precisa. 
Seguiram-se trs batidas furiosas: a porta da sala, o porto, a porta 
do carro. 
-Voc no tem vergonha, Uno, de me botar nessa situao? 
Intil! Formando uma curva com seu corpo, j ressonava. Bem no 
meio da cama, ainda me dificultou a entrada embaixo dos 
cobertores. 
Pior: acordei cedinho com os rudos que fazia raspando a porta, j 
toda riscada por suas unhas. A brisa, na direo do meu quarto, 
trouxera novamente o cheiro do cio. S havia uma soluo: levei-o 
para um hotelzinho. 
-Preciso deix-lo aqui at passar o cio da vizinha, digo, da cachorra 
da vizinha, quer dizer, a vizinha no  uma cachorra, ela tem uma 
e... 


#
-J entendi -comentou o veterinrio. -Casos como o seu so 
comuns. Quando o cio comeou? 
-Ontem, acho. 
-Melhor esperar nove dias. O preo da diria ... Meu oramento 
dava para sete, no mximo. Abracei-o 
e me despedi. 
- s por um tempo, querido, porque a situao est dramtica. 
Ele me respondeu com uma expresso magoada. De qualquer 
maneira, Uno no estaria em casa por alguns dias. 
-Agora  minha vez! -resolvi. 
Na sada do trabalho comprei um buqu de flores e uma torta. Bati 
na casa de Tati. Em meio  barulheira dos cezinhos, Guel abriu a 
porta. Fitou as flores, irritado. 


-No sabia que tinha combinado um encontro com minha me. 
-No marquei. Preciso falar com ela. Sentei no sof. Depois de uns 
quinze minutos, usados 
certamente para se arrumar, Tati entrou. O filho trancou-se no 
quarto. 
-Flores? 
Notei o meio sorriso. Botou o ramalhete em um vaso, sentou-se. 
Ofereci a torta. 
-Ih, hoje no fiz jantar. Estou de regime e... 
-Fica tranqila, se quiser a gente come um pedao de torta e 
conversa. 
Meio sem jeito, serviu dois pratos. 
-Adoro chocolate -ela disse. 
Era a deixa para comear a conversa. 
-Sinto muito por ontem. Mas  que... Acho que voc entende. 
-Claro que sim. Seu cachorro. 
-Pois . Meu cachorro. Sorri esperanosamente. 
-Mas voc tambm tem ces.  apaixonada por eles. 
-Os meus cachorrinhos eu controlo. Boto no canil. Eles latem, 
irritam, mas no acordam todo o condomnio. 


#
-Huskies uivam. 
-Os meus no escalam alambrados. Ou atravessam arame farpado. 
-Sim, realmente o Uno  diferente. Especial. 
-Voc j contou quantos encontros deixamos de ter porque voc 
tinha que ficar com ele? 


-Foram s duas vezes. Ele ficou doente e eu... Bem, quando eu era 
criana tive um cachorrinho que morreu envenenado, depois tive 
uma capa preta... Enfim, no quis deixar o Uno sozinho. Fiquei 
preocupado. 
-Tudo bem. Eu tambm no deixaria os meus. Mas o seu cachorro 
 uma fora da natureza.  pior que um furaco. 
-Tambm no exagere. 
-Ontem eu fiz jantar, me arrumei, achei que a gente estava se 
entendendo e de repente estava com um husky siberiano no meio da 
cama! 
-Ele j est hospedado em um hotel. 
-O fato  que eu nunca vivi um tringulo amoroso com um 
cachorro. 
-Voc est exagerando. 
-Estou? 
-Vai ter cime de um husky? 
-No  bem cime. Ontem fui trocada por um cachorro. 
-Foi uma crise. 
-Ser sempre assim. Voc  doido por esse cachorro. Olhe aqui, eu 
sei muito bem que voc perdeu a pessoa que amava, que mudou 
para c num momento difcil e que o cachorro  seu melhor amigo. 
Entendo. Mas e eu? Onde fico? 
-Voc est sendo irracional, Tati. Irracional. 
-Voc  que  irracional. 
-Parece que o nico racional  o cachorro. 
-Agora voc est perdendo a razo. 


Os dois pratinhos com torta j abandonados. Ela decidiu falar: 


#
-Sou franca. Voc  um cara legal. Temos uma idade parecida, 
gostamos de morar aqui, longe da cidade, a nossa conversa rola, 
quando a gente comea no pra mais, enfim... Nem temos idade 
pra disfarar que estamos comeando alguma coisa. Mas voc vai 
ter que decidir. 
-O qu? 
-Se prefere a mim ou o cachorro. Sem hesitar, 
respondi: 
-Fico com o cachorro. 
Fugi antes que ela me atirasse a torta na cara. 



7 

O que tem que ser, ser, diz a sabedoria popular, que mais uma 
vez se mostrou correta. Na data marcada, retirei Uno do hotelzinho. 
Veio no carro calmamente, at nos aproximarmos de casa. Nesse 
momento, se agitou. Pulou na janela. Ganiu. Mexia o pescoo como 
se quisesse me mostrar alguma coisa. 
-Saudade de casa, Uno? -perguntei ingenuamente. Dirigi bem 
devagar, enquanto tentava segur-lo com 
uma das mos. 
-Quieto, Uno, quieto! 

#
S ento refleti que talvez no fosse exatamente saudade! 
Algum segura um husky enlouquecido de paixo pelo cheiro do 
cio? 
Sim, eu havia sido otimista demais com as datas. O tempo no 
hotelzinho no fora suficiente! Arrastei Uno para o quintal. J era 
noite. Resolvi, apesar do rombo que provocaria no meu oramento: 


-Amanh ele vai voltar pro hotelzinho. 
Fora um longo dia de trabalho. Estava cansado. 
-Esta noite fico de olho! 
Botei a rao. Esquentei o jantar, que a empregada deixava em 
panelas sobre o fogo. Ao me sentar para comer, ouvi um grito 
injuriado na vizinha, seguido por latidos e uivos. 
-Saia daqui, peste, saia! 
-Ih! Sujou! -exclamei. 
Corri para fora e constatei o drama. A vizinha uivava sentada no 
jardim da frente, com a cachorrinha Sonata no colo. O marido 
atirava jatos de gua da mangueira sobre Uno, que resistia no 
jardim. 
-Que aconteceu? 
-Ainda pergunta? -gemeu a vizinha -Esse seu cachorro 
monstruoso atacou a minha queridinha. Foi s um minuto, um 
nico minuto, quando deixei a Sonata na cozinha e fui tomar um 
banho. Ouvi um barulho esquisito, mas no me preocupei. Pensei 
que esse safado ainda estivesse no hotelzinho. 
-Tirei hoje, pensei que o cio tinha acabado. Nem sei como ele pulou 


o alambrado, s ficou sozinho enquanto eu esquentava o jantar. 
-Esse seu cachorro parece um gato! -disse o marido. -Eu vi 
quando ele fugiu da outra vez. Sobe pelo arame como se estivesse 
andando no cho!  o que deve ter feito. Escapou e entrou na nossa 
cozinha, onde estava a pobre Sonata e... 
-Quando eu entrei na cozinha, ela, ele, eles... Ah! 
-Ih... Ser que... 


#
-Foi. -concordou o marido -Eles estavam fazendo o d-r-mi! 
-Eu devia chamar a polcia -choramingou a mulher. 
-No  caso de polcia! No se prende um cachorro por seduo argumentei. 
-Mesmo porque, ao que tudo indica, houve 
consentimento da outra parte. Agora a sua Sonata deve estar 
grvida. 
-Ser? 
-Dizem que basta uma vez. O jeito  a gente se conformar. De certa 
maneira, viramos parentes. 
Sa, arrastando meu cachorro, que,  claro, no pretendia deixar o 
quintal por nada deste mundo. 
-Voc tem que tomar juzo, Uno! 
Dali a pouco tempo a cadela j ostentava a barriguinha. 
-Vou ser vov -anunciou a dona. 
Meses depois, nasceram trs filhotes, bem peludinhos. 
-Voc  papai, Uno! Papai! 
Ele uivou, feliz, como se tivesse acompanhado a companheira na 
maternidade. 
Quase fiquei com um. Machos, porm, costumam brigar entre si.  
uma questo territorial. Alm disso, a vizinha tinha outros planos: 
-Estou louca por eles. At j tm nomes: Beethoven, Mozart e 
Vivaldi. 
-Quem sabe na prxima ninhada venha alguma fmea e voc possa 
homenagear as personagens de pera: Carmem, Tosca... -comentei. 


-No haver prxima ninhada -garantiu a mulher. -Minha Sonata 
no vai cair nas patas de nenhum outro co. 
Observei a cadela dando de mamar aos trs filhotinhos de uma s 
vez, encantada com a maternidade. "Tem dona que  cega!", pensei. 
A vida estava melhor. Fui promovido a diretor de redao de uma 
das revistas da editora. Salrio bom. Nunca mais encontrei Tati. 
Evitei visitar sua irm. Saa com meus amigos jornalistas. Oferecia 
churrascos nos fins de semana. Iniciei uma terapia. 


#
-O tempo passa e eu ainda sinto falta da pessoa que perdi, 
continuo preso nas mesmas emoes, a tudo que aconteceu! 
-Cada pessoa tem seu tempo -explicou Vicente, o terapeuta. Algumas 
so rpidas, outras demoram muito para se desligar de 
uma experincia. No h certo ou errado. 
-Minha nica relao afetiva estvel  com meu cachorro! 
-Dizem que quem no consegue gostar de um animal ser incapaz 
de amar outra pessoa. No seja severo com voc mesmo, viva seu 
prprio ritmo. 
Meditava sobre meus sentimentos. Como se esquecer fosse trair. 
Apesar da dor, da saudade, eu tentava manter a lembrana a mais 
viva possvel. E a cicatriz continuava aberta. Desde criana, ouvia 
dizer que o amor  nico. Que deve ser doado a uma s pessoa. 
Perder algum era o mesmo que encerrar a vida afetiva. Com o 
tempo, porm, comecei a pensar que talvez fosse diferente. A gente 
ama a famlia, os amigos... e pode amar outra pessoa, mais uma vez, 
e outra e outra! O corao no  um loteamento dividido em 
terrenos onde cada um toma posse do seu pedao. E que depois fica 
lotado, com terrenos grandes e pequenos, dependendo do amor que 
se dedica a cada um. No. O corao  um mundo.  enorme, e 
capaz de abrigar muitos amores. Cada pessoa que chega tem o seu 
lugar, porque a capacidade de amar  infinita. S que, naquele 
momento, as portas do meu corao estavam fechadas, e eu no 
tinha a chave para abri-las. 
Precisava de tempo. Do meu tempo. Teria que ter pacincia. Esperar 
que as portas se abrissem e eu pudesse receber um novo 
sentimento. 
Enquanto isso, tinha meu trabalho, meus amigos e meu cachorro. 
Assim, no procurei Ta ti por um bom tempo. Acabamos nos 
encontrando num supermercado meses depois. Ela me viu de longe 
e acenou: 
-Oi! 
-E a, tudo bem? 

#
Ao seu lado, um senhor alto, de cabelos grisalhos e jeito srio. 
-Este  o Jean -apresentou. Estendi a mo. Ele sorriu secamente. 
-A gente vai dar um churrasco sbado -ela disse. -Se quiser 
aparecer... 
As pupilas do homem faiscaram. 
-J tenho um compromisso -disfarcei, -Bem, eu vou indo. 
-A gente tambm j vai. At! 


-Claro. At! 
Em casa, olhei-me no espelho. Comparei. Seria parecido com aquele 
senhor de cabelos brancos? No, tinha poucos fios grisalhos. E o ar 
definitivamente mais bem-humorado. No me senti exatamente 
trocado. Mas era estranho encontrar Tati com aquele homem, 
namorando. "A vida segue", refleti. 
Talvez nunca mais a tivesse visto se no fosse por Uno. Sempre tive 


o hbito de escrever at de madrugada, principalmente nos fins de 
semana. Escolhi a carreira de jornalista por necessidade de 
sobrevivncia, mas ainda sonhava com meu livro. Recentemente 
havia sido convidado a escrever crnicas para uma revista de 
grande circulao nacional. Foi uma oportunidade maravilhosa 
porque, semana sim, semana no, tinha que pensar em novos temas, 
trabalhar o texto. E me tornei mais disciplinado. De noite, botava o 
pijama e sentava para escrever de frente para a varanda. Certo 
sbado, estava no meio de um texto quando ouvi um uivo 
desesperado e, em seguida, uma srie de ganidos cheios de 
sofrimento. 
-Uno? -levantei-me. 
Ele aproximou-se da porta-balco mancando, parou na minha frente 
e ergueu o focinho ganindo por ajuda. Na sombra da varanda 
estava quase irreconhecvel; seus contornos indefinidos pareciam os 
de um monstro. Olhei melhor. Que horror! Focinho, cabea, plos, 
tudo estava coberto por um emaranhado de espinhos. Tantos que, 
no escuro, o faziam parecer um personagem de filme de terror. 
Durante um instante no entendi o que acontecera. 
#
Em seguida pude perceber do que se tratava. J ouvira falar de 
outros casos na vizinhana. 
-Voc atacou um ourio! 
Aproximei-me delicadamente. Coloquei a mo em um espinho para 
tirar. Ele deu um grito quase humano e afastou o focinho. Percebi 
que estava bem preso. Peguei um solto em seu plo para verificar. 
Era impressionante. 
O espinho de um ourio  uma espcie de agulha de osso grossa e 
rgida, muito mais forte do que jamais imaginei. O pior: possui 
pequenas ranhuras que facilitam sua entrada, mas que rasgam a 
pele quando o espinho  puxado, provocando mais feridas. A fora 
do ourio para expeli-los tambm me impressionou: alguns 
atravessavam o focinho, at o interior da boca. A cada instante 
penetravam ainda mais. Espalhavam-se por todo o corpo. O rosto 
concentrava o maior nmero, quase impossvel contar quantos ao 
todo. Era bvio o que sucedera. Um ourio entrara no quintal vindo 
da reserva ao lado do condomnio. Atacado pelo husky, defendera-
se soltando todos os espinhos de uma s vez, numa verdadeira 
exploso. 
Meu husky sofria desesperadamente. 
Eu conhecia um veterinrio em um bairro prximo. O consultrio 
era em sua casa. Rezei para encontr-lo, apesar de serem 11 horas 
da noite. 
-Posso atender, mas tem que traz-lo at aqui, onde tenho tudo que 
 necessrio. 
Peguei a coleira. Aproximei-me. Uno esquivou-se, gemendo. 
Estendi a mo. Uivou alto. Seria difcil colocar a coleira em um co 
cheio de espinhos. Impossvel dirigir o carro at o veterinrio com 
um cachorro agitado, se contorcendo e gemendo. E se pulasse sobre 
a direo? S havia uma opo: liguei para Tati. 
-Preciso de ajuda. 
Por mais irritada que ainda estivesse comigo e Uno, ela amava os 
ces. No hesitou. 

#
-Vou agora mesmo. Conseguimos coloc-lo no banco de trs de 
meu carro. 
Sentei-me a seu lado. Ela dirigiu enquanto eu tentava acalm-lo 
docemente. Mantinha a voz em tom sereno para que no ficasse 
mais assustado. 
-Fique tranqilo, amigo, j vai passar. 
Tentei imaginar o que passava por sua cabea. Certamente ele no 
entendia aquela saraivada de espinhos. Vivia uma experincia 
traumtica, terrvel. Ao mesmo tempo era incrvel como confiava 
em mim. Ao sentir dor, viera me procurar, implorando por ajuda. 
Mesmo agora no carro, ganindo baixinho, seus olhos gritavam que 
eu era sua nica esperana. 
-Ah, meu cachorro, fique tranqilo, j estamos chegando. 
Paramos em frente  clnica. O veterinrio me ajudou a carreg-lo 
at o consultrio. 
-Segurem enquanto amarro as patas. 
Coloquei a mo sobre o alto da sua cabea -o nico local livre de 
espinhos. 
-Calma, Uno, calma. 
Arrasado, ele gania baixinho. O veterinrio aplicou a anestesia. 


-Se no dormir, a dor da retirada dos espinhos ser insuportvel. 
Aos poucos sua respirao se tornou mais leve. O veterinrio pegou 
um alicate. 
-Vai demorar um pouco. Se quiser esperar l fora, ler uma revista... 
Era impossvel. Queria permanecer por perto. Coloquei a mo sobre 
a coxa de Uno. Parecia to frgil sedado! Ao meu lado, Tati 
observava. De alicate na mo, o veterinrio puxou o primeiro 
espinho. Depois o segundo, o terceiro... Alguns haviam penetrado 
bem fundo. Muitos tinham atravessado o plo espesso do dorso e se 
cravado na pele. A boca era o local mais atingido (provavelmente 
Uno tentou morder o ourio). Foi exaustivo. Durante duas horas e 
meia o veterinrio arrancou os espinhos e estancou o sangue. Tati 
permaneceu ao meu lado. 


#
- melhor ele passar um dia internado em observao. 
Concordei. Deixei meu cachorro adormecido, com o corao 
apertado. 
Levei Tati para casa. Era madrugada. 
-Um caf? -convidou. 
-Ah, eu... no quero incomodar. 
-No tenho hora para acordar. Esqueceu que estou desempregada? 
Entrei. 
-S no podemos falar alto porque meu filho est dormindo. Tem 
aula amanh. 
Se era para evitar barulho, foi intil. Os cezinhos, presos, fizeram 
um escarcu quando entramos. Depois de alguns gritos de silncio, 
nos refugiamos na cozinha. Ela ligou a cafeteira eltrica, serviu duas 
xcaras. 
-Obrigado. Nem sei o que faria sem voc, Tati. 
-No foi por voc, foi por seu cachorro. 
-Eu sei. Voc andou bem irritada comigo. 
-Fiquei brava com voc, sim, que botou o husky no meio da cama, 
justo quando... Deixe pra l. Eu adoro cachorro. Acha que teria 
cinco se no gostasse? 
Sorriu, prosseguindo: 
-Voc  um bom sujeito. Quem gosta de cachorro tem uma coisa 
especial. Mas voc  um pouco doido, nunca vi ningum to 
apegado a um amigo peludo. Depois de conhecer voc, entendi 
aquelas histrias de velhos norte-americanos que deixam a herana 
pra um bicho de estimao. 
-Perdi muita coisa na vida, Tati. Sempre fui um sujeito meio 
sozinho, mas de uns tempos pra c estou mais. 
Resumi minha histria em rpidas palavras. Tive uma me ausente. 
Hoje entendo melhor sua distncia: trabalhava fora em uma poca 
em que as mes eram donas de casa. Do ponto de vista de um
menino, no era fcil passar o dia sozinho enquanto os outros
tinham as mes  disposio para fazer bolos, brigadeiros, refrescos.


#
Quando eu j era quase adolescente, nasceu meu irmo. Perdi o
posto de caula. O afeto de minha me concentrou-se no beb, que
passou a merecer toda sua ateno. Quando terminou a licena-
maternidade, deixava meu irmozinho na creche de manh para
peg-lo no fim da tarde e passar a noite enchendo-o de carinhos. 
Tudo na casa girava em torno do beb. At meu av me dizia, em 
tom de brincadeira: 

-Perdeu o trono! 
Sa da casa dos meus pais logo no incio da vida adulta. Queria 
morar sozinho, mas no fundo sentia uma falta imensa da vida 
familiar. Nunca fomos muito bons com datas l em casa. Lembro-
me que quando eu vivia nos Estados Unidos, onde fui tentar a vida, 
mame enviou uma carta dizendo ter sentido saudade no meu 
aniversrio, e que at pensou em fazer um bolo. Mas no primeiro 
aniversrio depois de minha volta ela se esqueceu do dia! No fez 
bolo nenhum para minha triste surpresa. Esse  s um exemplo das 
inmeras pequenas decepes de minha vida familiar. 
Minha grande experincia amorosa terminara de forma trgica. Eu 
no sabia como reestruturar minha vida afetiva. Comear de novo, 
enfim. Ao mesmo tempo, a solido era dolorosa. 
-Tenho me, irmos, mas s nos vemos raramente, em datas 
marcadas. No  como a maioria das famlias, que se freqenta o 
tempo todo. E foi assim que fiquei s eu com meu cachorro conclu. 
Amanhecia. Tati estendeu a mo sobre a minha. Eu a olhei. Foi a 
primeira vez que nos beijamos de verdade. 
Mais tarde eu soube que seu namoro com o homem grisalho durou 
s algumas semanas. Ela queria investir em nossa relao. 
J que no podia lutar com meu husky, Tati uniu-se a ele. Passava 
boa parte do tempo comigo, pois sua casa era territrio 
compartilhado com o filho Guel. s vezes trazia os cezinhos. 
Refeito do trauma do ourio, Uno rosnava para os machos. Tati 

#
impedia confrontos. Seus schnauzers tambm brigavam entre si, a 
ponto de irem fazer curativos no veterinrio com freqncia. 
Sobre o namorado grisalho, s falamos uma vez. 
-Voc estava em desespero de causa -comentei. 
-Ele no  to ruim assim. Mas tentou me dar o golpe nas jias. 
-Ahn? 
Simplificando: Tati ainda tinha algumas jias que havia ganho do 
segundo marido, o rico. J tentara vend-las, no entanto pagavam 
pouqussimo. Jias so assim: caras para comprar, mas no valem 
quase nada na hora de se desfazer delas. Desistiu. 
-Ele estava desempregado e me pediu as jias para pagar uma 
dvida. Brigou porque eu recusei. 
-O qu? Voc est na pior e ainda arruma um endividado? 
-... Quanto mais eu rezo, mais assombrao aparece! 
Sua situao era difcil: no encontrava emprego de jeito nenhum. 
Eu me acostumara com os relatrios cotidianos. 
-Fui entrevistada por uma coreana. Fiquei 45 minutos falando 
sobre minha experincia profissional e s depois ela disse: no 
entendo bem portugus! 
-Era uma fbrica de mveis de alto padro, mas soube que o dono 
 trambiqueiro. 
-Tenho exatamente o perfil que eles querem, mas  pra morar em 
Manaus. No posso por causa do meu filho. 
Pegou roupas para vender: 
-Assim eu tiro algum. 


Visitava as amigas, com a mala na mo. Perguntei do projeto da 
fbrica de velas. 
-Deu errado. No incio todo mundo comprou. Mas s vendi mesmo 
para os amigos. Depois que estavam abastecidos, fiquei sem 
freguesia. 
Sua ansiedade era visvel. Minha vida melhorava. Contudo no o 
suficiente para resolver a dos dois. 
-Penso em vender a casa, comprar uma mais barata. 


#
-E depois, vai fazer o qu, Tati? 
-Quem sabe com a diferena monto um negcio? Suspirou: 
-Sabe, o mundo avana, mas continua sendo difcil ser mulher. 
Profissionalmente, eu digo. Com a minha experincia, um homem j 
teria encontrado emprego. 
-Talvez no. Outro dia peguei um txi e o motorista era um exexecutivo. 
-... Pode ser. 
-O problema  que profissional tornou-se produto descartvel no 
pas. Depois de certa idade fica difcil arrumar emprego. 
Pensava em mim. Boa parte dos jornalistas de minha gerao j 
estavam fora do mercado. Arrumavam empregos mixurucas para 
poderem sobreviver. 
-Tambm sinto medo -comentei -Se eu perder esse emprego, no 
sei o que vai rolar. 
-Voc escreve crnicas, fez peas de teatro... 
Abracei-a. Sabia que dificilmente Tati encontraria emprego, no 
entanto no queria mago-la ainda mais dando uma opinio 
negativa.  horrvel tirar a esperana de uma pessoa. 


-Vai dar tudo certo, Tati. Durante alguns meses batalhou com as 
roupas. Ia a 
confeces. Levava malas s amigas. Lembrava, melanclica: 
-Quando eu era diretora de empresa entrava numa loja e escolhia 
um vestido de cada cor! 
Quando fez aniversrio, ofereceu-me a primeira fatia do bolo. As 
amigas aplaudiram. 
-Vai sair casamento! -comentou Cristiana. Sorrimos. Seu filho me 
encarou: 
-Se ele entrar por uma porta, eu saio pela outra. Levei um susto. 
Houve um silncio constrangedor. Mais 
tarde conversamos: 
-O Guel no gosta de mim? 
-Tem cime. Ainda  muito ligado ao pai. 


#
Eu no me sentia pronto para assumir um compromisso. Tati estava 
em uma situao de urgncia. Sua vida precisava de definies. 
Alguns dias depois entrou na conversa: 
-Eu acho que duas pessoas maduras podem viver juntas por 
carinho, amizade. No precisa ser uma grande paixo. 
-Concordo -respondi -, mas  preciso bater a hora certa. 
-Meu despertador j tocou h muito tempo. 
Mudei de assunto. Tati continuava decidida a definir a vida. Fosse 
com emprego ou casamento. Voltou ao tema inmeras vezes. Eu 
enrolava. Exatamente: enrolava. Tinha comeado um namoro. S. 
Tudo andava depressa demais. Nossas conversas se tornaram mais 
rspidas. 


-No posso ser tratada como uma adolescente. 
-Voc est ansiosa; vamos ver o que acontece. 
-Eu j sei o que acontece: voc fica no seu mundinho, e no tem 
espao pra mim. 
-A gente se v quase todo dia, passa o fim de semana junto. 
-Eu quero dividir a vida. 
Quando sozinho, eu me questionava, em longas conversas com meu 
melhor amigo: 
-Eu no quero dividir a vida, Uno. Ela  legal,  tima, mas ainda 
falta alguma coisa. S que ela me pressiona. Est ficando difcil. 
Ele me encarava seriamente, ouvindo cada palavra. 
-Vida de cachorro  a minha! -lamentei-me. Dias depois, Tati me 
telefonou animada. 
-Arrumei emprego. 
Respirei aliviado. Talvez assim no ficasse to ansiosa. Puro 
engano. 
Cheguei a sua casa com um ramo de flores. 
-Vamos jantar fora para comemorar -props. Notei seu sorriso 
esquisito, como se tivesse alguma 
coisa para dizer. Sou jornalista, percebo quando algum est 
escondendo uma informao. Como diria Uno, so ossos do ofcio. 


#
- bom o cargo? -eu perguntei. 
-No restaurante conto tudo! 
Pegou o casaco. Seu filho sorria feliz. Era estranho. Alguma coisa 
estava para ser dita. Mas o qu? Sentamos. Veio o couvert. O 
cardpio. 
-Voc no vai me falar sobre o emprego? 


-Ah, sim, vou ser diretora administrativa de uma empresa. No  
bem minha rea, mas tudo bem. O salrio  bom. 
-Puxa, pegou a vaga apesar de no ter currculo? 
- no interior do estado. Primeiro golpe. Encarei. 
-Mas voc no queria mudar daqui por causa do garoto. 
-So s algumas horas de viagem. D pra gente se ver sempre. 
Todos os fins de semana ele vai ou eu venho. J falei com minha 
irm, ele fica na casa dela. 
Imaginei: "Vai ser chato a gente ficar longe", pensei. Mas sorri, 
otimista: 
-Assim que voc montar sua casa, tambm posso ir at l. Se estiver 
escrevendo um livro, levo meu laptop... 
Notei sua expresso. Um sapo prestes a saltar de sua boca. 
-Pois . Eu ainda no disse, mas a fbrica  do meu ex-marido. Do 
segundo, o rico. 
-Ahn? 
-Eu estava num mato sem cachorro, j no sabia mais o que fazer. 
Estou vivendo no limite do cheque especial todo ms. Pendurada no 
carto de crdito. Peo ajuda a minha irm, mas me sinto mal por 
isso. 
-E as roupas, no esto dando? 
-Tenho que vender em duas, trs, quatro vezes, seno ningum 
compra. s vezes o cheque volta. No ltimo ms pendurei at o 
veterinrio. Os cachorrinhos gastam uma grana em rao, banho e 
tosa. Veja a decadncia, economizar at no banho dos peludinhos! 


-Por que voc no... 


#
Calei-me. Ela no havia me contado porque eu no me tornara um 
companheiro de verdade. Era apenas um namorado. 
-Voc  timo, a gente ficou um bom tempo junto, mas eu tenho 
que tocar minha vida. Vou mudar. 
-Vai voltar com seu ex? 
-A gente nunca falou sobre isso.  s um emprego. Mas eu acho 
que ele... Ah, sei l... S que fica meio chato voc aparecer. 
-Ento voc vai, e eu fico.  isso. A comida secou 
na minha boca. 
-Acho que sim. 
O garom se aproximou: 
-Aceitam sobremesa? 
-O caf e a conta, por favor. 
Ajudei-a a embalar os mveis. A organizar a mudana. A botar os 
cinco cachorrinhos revoltadssimos em caixas de papelo, nos 
bancos do carro. Minhas mos, repletas de arranhes e 
mordidinhas. Na despedida, Tati me deu um beijinho rpido na 
boca. Coisa de amiga. 
-A gente se v. 
-Claro, a gente se v. 
Voltei para casa com um sentimento de vazio. Uno veio correndo ao 
porto, de rabo erguido para dar as boas-vindas. Sentei-me na 
escada que levava  varanda. Ele se aproximou. Puxei-o para meu 
colo. Fiz carinho algum tempo. 
-Somos s ns dois outra vez, Uno. Ficamos algum 
tempo sozinhos. 


Dois passarinhos voaram na direo da varanda e pousaram em um 
vaso de samambaia. Estranhei. Fui olhar. 
Haviam construdo um ninho dentro do vaso! Dois filhotinhos de 
boca aberta esperavam a comida dos pais. Foi uma das cenas mais 
incrveis que j vi. Corri para fotografar. 


#
-Viu s, Uno? Que lindos! Notei um olhar apetitoso. Pensei que um 
dia os passarinhos iam aprender a voar. Algum poderia cair no 
cho. 
-Eu no estou gostando do seu jeito, safado! 
Meu cachorro comia tudo. Absolutamente tudo o que visse pela 
frente. Rao. Patos. No tentara devorar um ourio? Passei as 
semanas seguintes fiscalizando o crescimento dos passarinhos. Eu 
me sentiria muito mal se algum deles fosse devorado por um husky. 
Algumas semanas depois, vi os filhotinhos voando para fora do 
ninho. E me senti mais feliz. Sorri para ele. 
-A vida  assim, Uno. Tudo vai e vem. Eu vou sentir falta dela. Mas 
espero que tudo d certo em sua nova vida. 
Sentei, pensando: 
-Tambm estou tendo uma vida. No  como eu planejei, mas h 
muita coisa legal.  uma vida. Minha vida. E eu ainda no estou 
pronto. Queria ser diferente, mas em mim os sentimentos so 
profundos, e as feridas no cicatrizam to depressa. Eu ainda no 
sou capaz de amar novamente. 
Contemplando a mim mesmo, senti uma imensa paz. 

#
8 

Acordei de madrugada sentindo uma dor pavorosa que irradiava 
violentamente a partir do estmago. Levantei-me com dificuldade. 
Deitado ao lado da cama, Uno ergueu a cabea um pouco sonolento. 
-Est doendo, Uno. Muito. 
Molhei uma toalha com gua quente, coloquei na regio. Intil. Tive 
certeza. 
-S pode ser srio. 
Apalpei meu estmago. Pressionei com os dedos. Durinho. Mais um 
motivo para preocupao. No sou mdico, porm, ao longo da 
vida, um jornalista rene todo tipo de informao. Em inflamaes 
agudas, o abdome endurece. Respirando fundo, vesti-me 
lentamente. Peguei os documentos e a carteirinha do plano de 
assistncia mdica. Lembrei que tinha direito a um hospital no 
bairro do Mo-rumbi. Mas eu morava em um condomnio rural, nas 
fronteiras da cidade. Seria preciso pegar a estrada. Arrastei-me at a 
cozinha. Ao enfiar a chave na fechadura, tive noo da minha 
loucura. 
-Como vou dirigir pela estrada com tanta dor, a perna repuxando? 
Uno e eu nos entreolhamos. 
-Preciso de ajuda humana. 
Liguei para a portaria do condomnio. Expliquei a situao. 
-Tenho que ir a um pronto-socorro. 
O guarda da noite me pediu que esperasse um minuto. O sndico 
ligou em seguida. 


#
-Vou para a. Em que hospital  o seu convnio? Respondi. Fez 
mais um pedido, que se mostrou providencial. 
-Deixe o porto e a porta abertos. 
No entendi o motivo, mas obedeci. Botei Uno na sala e abri a porta 
da cozinha, perto da garagem. Ele uivava. Com o controle remoto, 
ergui o porto (era um dos pequenos confortos instalados aps o 
episdio do leo). Sentei-me. A dor quase me enlouquecia. De 
repente tudo escureceu. 
Acordei em uma maca de hospital, sendo levado por um corredor. 
O sndico acompanhava um mdico, ambos ao meu lado. 
-Que aconteceu, doutor? 
-Voc tem algum parente que possamos acionar? Dei o telefone de 
minha prima, que morava na cidade. 
-O que ? 
-Apendicite. 
Fui levado s pressas para o centro cirrgico. O anestesista me 
aplicou uma injeo: 


-Fique tranqilo. Vai adormecer, mas est tudo bem. Antes de 
perder a conscincia novamente, lembrei-me 
de que s vezes tinha pontadas do lado direito da barriga. "No 
deve ser srio", pensava. Agora se transformara em caso de 
urgncia. Apndice supurado pode provocar infeco generalizada. 
Morte. Respirei fundo. E mergulhei profundamente. 
Acordei em um centro ps-operatrio com duas enfermeiras 
tentando me animar, alegremente. 
-Tudo bem? Como est se sentindo? 
Tinha vontade de dormir, mas no deixavam. Puxavam conversa, 
exigiam respostas. 
-Agora voc precisa ficar acordado. Depois poder dormir. 
Instalaram-me em um apartamento. Meu convnio, fornecido pela 
empresa, dava direito a acompanhante. Sentia dor, desconforto. 
Minha prima j estava a postos. 
-Voc trouxe alguma coisa? 


#
Eu vestia apenas um avental hospitalar. 
-Tudo aconteceu de repente -respondi, j fechando os olhos. 
Na manh seguinte, ela havia trazido pijamas, escova de dentes, 
perfume. 
-Fui at sua casa. Est tudo bem. 
-E o Uno? 
-A empregada vai cuidar. No se preocupe. Agora tem que se 
recuperar. Voc teve sorte. 
Segundo me contou, o apndice estava prestes a estourar. Se no 
fosse a ajuda do sndico, nem sei. Fora esperto ao me pedir para 
deixar a casa aberta. Ao me visitar, explicou: 
-Sei que voc mora sozinho. Se desmaiasse, com a casa trancada, 
como acudir? 
A frase ficou martelando na minha cabea. Eu vivia em um 
condomnio de terrenos grandes. Quase rural. Qualquer problema 
pequeno podia se tornar gigantesco. Que fazer? 
Fiquei internado alguns dias. Minha prima foi me buscar. Desci do 
carro cautelosamente. Ainda tinha curativos, sentia dificuldade de 
andar. Sentei-me no sof. Uno me observou ressabiado, com os 
plos eriados. Olhar estranho. Aproximou-se. Pulou no sof. Subiu 
nas minhas pernas e enrolou-se inteiro no meu colo, querendo ficar 
bem pertinho. Solidrio. Afetuoso. Como se soubesse tudo que 
passei. 
-Uno, Uno, est tudo bem, amigo! 
Minha recuperao foi rpida. Dez dias depois, voltei a trabalhar. J 
no me sentia seguro em morar to sozinho com meu cachorro e 
no mais que uma empregada durante o dia. Minha prima me 
aconselhou: 
-Agora voc tem que cair em si. Imagine todas as coisas que podem 
acontecer! 
Um colega de trabalho insistiu: 
-E se voc cair e quebrar uma perna? Se no conseguir chegar at o 
telefone? Quem vai ajudar? 


#
Tinham razo. Mas gostava da casa, da vida no campo. Nela superei 
a pior fase da minha vida. J estava l havia anos, agora, e no 
sentia vontade de sair. Adiei qualquer deciso. 

Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Muitas vezes, 
acho que Ele me protege especialmente. Tenho motivos para 
acreditar. No sou muito de ir  igreja, contudo tenho uma 
profunda f na divindade, e vrios fatos da minha vida reforam 
esse sentimento. Certo domingo quebrei minha rotina. Nos fins de 
semana, normalmente eu ficava em casa. No sbado, s vezes 
recebia amigos e colegas de trabalho ou ia a churrascos por perto. 
No domingo descansava, j me preparando para o batente da 
semana. Daquela vez, abri uma exceo. Resolvi assistir a um grupo 
de teatro tcheco: o Teatro Negro de Praga. Comprei dois ingressos 
com antecedncia, imaginando quem levar. Como sempre acontece 
nessas ocasies, todas as perspectivas sexuais deram errado, mesmo 
porque, nesse sentido, minha agenda andava pssima. Acabei 
chamando um jornalista que trabalhava comigo, recm-separado. O 
espetculo comeava no fim da tarde. Fomos almoar e ficamos 
conversando sobre as dificuldades de um processo de divrcio at 
pouco antes do horrio. Mal entrei no teatro, o pessoal da segurana 
do condomnio me ligou: 
-Sua casa foi assaltada. 
Adeus, teatro! Disparei at l. O pessoal da portaria estava surpreso. 
Ningum sabia como o assalto podia ter acontecido. Examinamos a 
casa: a porta dos fundos arrombada. 
-Vi que tinha alguma coisa errada porque o porto estava aberto explicou 
o segurana. 
Provavelmente para sair os ladres haviam usado o controle que 
ficava na cozinha. O sndico fez uma suposio: 

-Talvez tenha sido um drogado, filho de algum morador. 
Reparei que no cho estava jogado um galho de rvore 

#
grande. E Uno? Identifiquei-o atrs de uma moita, visivelmente 
assustado. Peguei o galho. 
-Devem ter usado isso aqui para afastar meu cachorro. Embora ele 
no seja bravo. 
-Pode ser -concordou o sndico. - um cachorro grande, tem 
porte. Mete medo. 
Doeu imaginar algum espancando meu husky. 
Haviam levado pouca coisa: roupas, o computador e, incrivelmente, 
algumas taas. Haviam aberto o armrio  procura de dinheiro e 
atirado minha papelada no cho. Tudo revirado. A casa estava um 
caos. Na verdade eu no tinha nada de valor e, portanto, pouco 
havia desaparecido. 
-Tambm pode ter sido algum ladro comum, que j estava de olho 
e entrou pelos fundos. 
Como saber? 
-Se ao menos voc falasse, Uno! 
Depois de examinar tudo comigo, o sndico concluiu: 
- algum que conhece a casa, sem dvida. Veja como no quebrou 
quase nada. Foi diretamente aonde achou que havia dinheiro. 
Assustado, tomei conscincia de um problema maior. Era bvio: o 
assalto fora planejado por algum que conhecia minha rotina dos 
domingos. Pretendiam me encontrar em casa. "Ainda bem que 
resolvi ir ao teatro, seno me pegavam aqui." 
Sei que  errado, mas nem fiz boletim de ocorrncia. Deveria ter 
feito, sim. Porm nem sempre a prtica corresponde  teoria. Uma 
vez fiquei duas horas na delegacia para concluir o B.O. de um carro 
batido. Dessa vez, contudo, no tinha esperana de que 
descobrissem os culpados. Ou devolvessem meu computador. Em 
meio a tantos crimes violentos, um caso to pequeno s seria 
resolvido por sorte. "Minha queixa vai ficar no fundo de uma gaveta", 
imaginei. 
Mais tarde, sozinho, refleti. E se eu estivesse em casa? 

#
Assaltantes cometem enganos. Fazem suposies. Muitas vezes 
pensam que algum tem mais dinheiro do que realmente possui. 
Era o meu caso. Tinha um bom emprego em uma editora. A casa. 
Graas a meu trabalho, conquistara alguma visibilidade. Algumas 
das minhas peas foram encenadas. Publiquei um livro. Todas essas 
atividades so glamorosas. Mas um executivo do mercado 
financeiro ganha infinitamente mais do que um jornalista. No h 
comparao. No entanto, para quem est de fora parece o contrrio. 
O jornalista sai muito, vai a festas badaladas, assina seu nome nas 
revistas. O escritor tem seu nome nos cartazes, nos programas de 
teatro, nas capas dos livros. O especialista em finanas  um 
desconhecido. A conta bancria de cada um  completamente 
diferente, mas como os ladres saberiam disso? Senti medo pela 
primeira vez desde que havia mudado para a casa. 
Durante semanas, s deitava depois de trancar tudo. Comprei 
cadeado para as janelas. Reclamava: 
-Uno, voc poderia ao menos guardar a casa para pagar a rao que 
come. 


Intil. Meu cachorro abanava o rabo para qualquer um que 
oferecesse um pozinho (era louco por pezinhos)! Que desastre 
como co de guarda! 
Passei a ter medo de voltar para casa. Acordava com qualquer 
rudo, assustado. 
Assim, foram dois medos que me fizeram tomar a deciso: 
-Est na hora de mudar. 
Gastava pouco, guardava boa parte do meu salrio. Afinal, mal saa. 
Meus programas de lazer eram simples: cinema, teatro, pizza, 
churrasco na casa de conhecidos. Meu nico dependente, Uno, 
contentava-se com dois potes dirios de rao e idas espordicas ao 
veterinrio. Vestia-me com simplicidade, sempre com camisa e 
jeans. Tnis, a maior parte do tempo. Possua agora uma boa 
poupana, suficiente para dar entrada em um novo imvel. Seria 
ideal vender a casa, mas gostava tanto dela! 


#
-Quem sabe, quando eu ficar velho, volto. At l, alugo. 
Fui ao banco e me candidatei a um financiamento. Durante alguns 
fins de semana, sa com corretores em busca de um novo endereo. 
-V para um apartamento, que  mais tranqilo! -aconselhou minha 
me ao telefone. 
-Preciso de um lugar para o cachorro! -insisti. 
Procuramos no bairro mais prximo da editora. Encontrei um 
sobrado geminado de um s lado, em uma vila com um porto 
colocado pelos prprios moradores e uma guarita com um guarda. 
J daria alguma segurana. Como eram poucos moradores, os 
guardas conheciam cada um de perto, o que facilitava ainda mais a 
fiscalizao. Trs quartos, sala, e um pequeno quintal. 
-Vai ter que se acostumar com um lugar menor, Uno. 
Quando o caminho de mudana partiu, lamentei deixar minha 
casa, mas no mudei de idia. Hospedei meu cachorro em um hotel 
canino at ajeitar as coisas. Dois dias depois, embora a nova casa 
continuasse na mais perfeita baguna, fui busc-lo. 
Soltei-o na sala. 
-Este  o nosso novo lar, Uno. Sei que  bem menor que o outro. 
Prometo passear com voc sempre que der. 
Ele farejou os mveis, percorreu rapidamente a sala. Em seguida 
ergueu a perna e mijou no sof, na poltrona e no p da mesinha de 
jantar. 
-Uno, Uno, o que voc est fazendo? -gritou minha me, que 
estava comigo por alguns dias para me ajudar. 
-Marcando territrio -respondi. - para dizer que isso aqui  dele. 
-Mas no  dele,  seu!  voc que est pagando o financiamento argumentou 
mame. 
-Tente explicar. 
-Oh, esses cachorros modernos! Voc tem que ter mais autoridade! 
-D um tempo, vou botar a rao. O Uno fica nervoso se demoro 
com a comida. 


#
Uma nova fase da vida comeou. Todos os dias eu passeava com ele 
assim que chegava. Punha a coleira, que Uno odiava e tentava 
retirar com mordidas, depois saa pelas ruas do bairro.  fascinante 
andar com um co. Ele parava o tempo todo, atrado pelos cheiros, 
barulhos. Puxava a coleira e eu o levava at uma pracinha, onde 
farejava o mato, e me levava por caminhos seus, fazendo curvas, 
com idas e vindas, talvez refazendo os passos de algum outro 
animal. Urinava em vrios locais para marcar territrio. Erguia as 
orelhas  aproximao de outros ces ou diante de rudos 
diferentes. 
O encontro com seus iguais era sempre problemtico. Por sorte, as 
pessoas tinham o hbito de passear com os ces na coleira. Ao 
avistar outro macho, Uno erguia as orelhas, eriava os plos. 
Rosnava. O outro fazia o mesmo. Ns, os humanos, puxvamos as 
guias. 
-Pare, venha c! 
-Quieto, quieto! 
S conseguamos afast-los a custo. 
Minha vida pessoal melhorou. Eu estava mais perto de tudo. Podia 
sair do trabalho, passar em casa, tomar um banho e sair para o 
cinema, teatro, fosse o que fosse. Fiz novas amizades. Assim que 
mame voltou para sua casa, um tanto  revelia, tambm passei a 
ter garrafas de vinho abertas nos sbados  noite, em encontros bem 
agradveis. 
-Um brinde. 
-A qu? A ns? 
-Ao futuro, que a Deus pertence. Tintim! 
Ouvia um uivo. 
-Que foi? 
-Meu cachorro. Est l fora.  acostumado a dormir dentro de casa. 
Mas hoje  exceo... Voc vai ficar, no ? 


Sorriso. Uivo! Dava uma desculpa e ia falar com o es-traga-prazeres. 


#
-Queira ou no, Uno, eu tenho certos direitos! Silncio. Olhar de 
crtica. 
-Pode ser que voc no concorde, mas tenho. Ns, humanos, somos 
diferentes de vocs, ces. Com vocs  vapt-vupt. Como voc e 
aquela sua namorada de plos dourados. Bastou um encontro e j se 
acertaram. Ns, humanos, no. Temos que tomar um vinho, botar a 
sala na penumbra. Eu sei que parece besteira. Cada espcie tem seu 
ritual. Para voc, basta botar o focinho no traseiro. Mas se eu botar 
meu focinho no traseiro de algum, levo uns tapas. No mnimo. 
Tambm no ser muito agradvel; ns, humanos, no temos o 
hbito de cheirar traseiros. Veja tambm a questo das lambidas. 
Para voc  simples, Uno, basta esticar a lngua e lamber. Eu no 
posso, mesmo que deseje ardentemente, lamber algum atrs da 
orelha. Tenho que bater papo, criar intimidade. Falar de novelas, 
cinema, livros, culinria. Perguntar o signo, embora no conhea 
quase nada de astrologia. Elogiar. Marcar um encontro. Sair para 
jantar ou no mnimo tomar um drinque. Convencer a vir para casa 
com alguma desculpa esfarrapada na qual ela no acredita -e que 
eu sei que ela no acredita. Todo um ritual, Uno. Um ritual. E s 
vezes s consigo dar uma lambidinha atrs da orelha e olha l! 
Portanto, pare de uivar e compreenda minha situao. Vida de 
cachorro  fcil. A dos humanos  uma complicao! 
Entrava. s vezes ele silenciava. Outras, uivava ainda mais. 


Com o tempo, aprendi a disfarar. 
-Que cachorro  esse que est uivando? 
- do vizinho. Um husky. 
-Tem gente que no sabe cuidar de animal. 
-Nem fale,  um desastre! A vida melhorou. s vezes eu me 
pegava sorrindo sem 
motivo. "Fiz bem em mudar", conclu. 
Para compensar, sempre que podia passava no aougue e trazia um 
osso. 


#
-Agora no tem pato pra voc caar. Mas olhe s! Ele saltava para 
pegar. Depois, refugiava-se em um 
canto roendo. Enquanto o osso durasse, no me dava ateno. 
Muitas noites, porm, continuvamos na velha rotina. Eu via 
televiso, ele se deitava no sof. Adormecia.  muito interessante 
ver um cachorro dormir. Uno se mexia, dava pequenos ganidos. 
Tenho certeza de que sonhava. Talvez se lembrasse da caada aos 
patos. Ou tivesse um pesadelo com o ourio. Quem sabe? Como 
ser o sonho de um cachorro? Mas, tenho certeza, eu estava presente 
em todos eles, porque ficava aconchegado perto de mim. E se 
eu me levantava, bastava dar um nico passo para meu husky 
despertar, me seguir com os olhos, s vezes sem sair do quentinho, 
pois adorava o conforto, mas atento aos meus gestos. Quando eu 
sentava de novo e punha a mo em seus plos, fechava os olhos, 
adormecia e voltava a sonhar. 
Nessa poca, aconteceu o inesperado. Meu cachorro arrumou um 
emprego! E passou a pagar pela rao que comia. 


9 

Aminha carreira como escritor se consolidava. Publiquei livros 
infanto-juvenis e tive mais peas de teatro encenadas. Ensaiei meus 

#
primeiros passos na televiso. Tomei uma grande deciso: larguei o 
emprego, apesar de meu cargo de direo. Queria mais tempo para 
escrever. Pode parecer surpreendente, mas um artista precisa de 
preguia. Dificilmente consigo criar aps um dia repleto de 
atividades. Preciso parar, dar um tempo lendo, pensando na vida.  
como se eu "limpasse" a cabea para surgirem novas idias. 
Trabalhei anos como jornalista e escrevia nas horas vagas. No 
entanto  medida que meus livros foram publicados, e que novas 
oportunidades surgiram, percebi que precisa investir em meu 
tempo. Um dia, de madrugada, terminando a revista semanal que 
eu dirigia, parei um instante e disse para mim mesmo: 
-O que estou fazendo aqui? Se eu dedicar todo esse esforo para 
mim mesmo, vou chegar onde realmente desejo! 

Pedi demisso no dia seguinte. Cumpri o aviso prvio e um ms 
depois estava livre. Tinha uma pequena poupana, suficiente para 
viver algum tempo. Minhas despesas bsicas eram pequenas. Em 
jornalismo, ao contrrio de outras profisses,  possvel sobreviver 
de trabalhos eventuais -o freelance. Uma reportagem aqui, outra ali. 
Meus direitos autorais j rendiam alguma coisa. As crnicas que eu 
assinava para a grande revista me ajudavam bastante. Um amigo 
telefonou: 
-Estou lanando uma revista dedicada a ces. Topa escrever uma 
crnica mensal? 
-E se meu cachorro escrever? -propus. 
O editor adorou a idia. Combinamos o valor do pagamento. Corri 
para fora. 
-Uno, voc virou escritor! 
Na semana seguinte um fotgrafo, Lalson, apareceu na minha casa 
para fazer a foto -colunas costumam ter a imagem de quem assina. 
Foi uma loucura. Meu cachorro sempre mostrou uma extraordinria 
percepo para fugir de situaes complicadas. Assim, quando 
chamei -"Venha, Uno, venha!" -ele disparou na outra direo. 

#
Foi uma correria para captur-lo. Todos o perseguimos: eu, o 
fotgrafo, o rapaz da guarita e a faxineira que havia contratado 
depois da mudana, pois o novo endereo era distante para a 
empregada anterior. Corramos para um lado, ele para o outro. 
Todos se assustavam quando rosnava, menos eu. Eu sabia que s 
queria dizer: 
-Vejam como sou feroz, eu sou bravo, bravo! Morder, no mordia. 
Agarrei-o e o ergui no colo. Ele se 
contorceu, eu o segurei. 


-Pare, Uno, pare! 
E o levei at meu computador. Queria uma foto de Uno digitando. 
A informtica no estava em seus planos. Rebelou-se. Quis fugir. Eu 
segurava suas pernas. O segurana tentava brincar. O fotgrafo 
cucava sem parar enquanto ele saltava sobre o teclado. Quis que 
pusesse culos, mas eles voaram para longe vrias vezes. Eu 
gritava. Uno rosnava, resmungava, uivava. 
No final, conseguimos vrias fotos, uma melhor que a outra! 
Faltava o texto. De noite, encarei Uno e perguntei. 
-Como voc pensa? Quantas histrias tem a nos miolos? 
De repente, eu me senti dentro de sua cabea, vendo o mundo com 
seu olhar. Para comeo de conversa, quem era dono de quem? 
-Eu  que sou seu dono,  claro! Voc  meu humano! -disse Uno, 
seguro de si. 
Juro, eu sabia tudo que ele pensava.  incrvel como os ces tm a 
capacidade de adivinhar o que estamos pensando. Na hora, 
descobri que tambm sou capaz de compartilhar os pensamentos de 
um cachorro. 
Uno escreveu algumas crnicas para a revista canina. 
Se no decorrer de algumas delas as informaes forem repetitivas 
em relao ao que j escrevi, me perdoem. Este  o texto original de 
Uno, meu co escritor! 


Pozinho e caviar1 

#
Permita que eu me apresente: meu nome  Uno. De nico. Nasci no Canil 
Karras, fui o nico de minha ninhada. O casal de humanos havia gasto um 
dinheiro para comprar meus pais, huskies siberianos de gloriosa 
linhagem. Esperavam lucrar com o nascimento de uns cinco ou seis 
cezinhos.  o normal -s os humanos costumam ter somente um filhote 
por ninhada. Coitados! Nenhuma fmea humana pode imaginar a alegria 
de amamentar meia dzia ao mesmo tempo! Quando viram que eu era um 
s, quase morderam minha me. Tentaram me vender durante meses. 
Encalhei. Acabei sendo entregue a um barrigudo metido a escritor. 
Dura  a vida de um cachorro. Humanos so bichos muito complicados. 
Acreditam que so nossos donos! Donos somos ns, cachorros! Eu me dou 
bem com o homem que me pertence.  preciso saber despertar a 
generosidade de um humano. Meu truque  fazer um profundo olhar de 
sofrimento. Funciona at para ganhar pezinhos, que adoro. Aprendi com 
minha me, ainda filhote. 
-Quando um humano rosnar furioso, no responda -aconselhou. Umedea 
o focinho e olhe para ele como se voc fosse o cachorro mais infeliz 
deste mundo. 
Sempre tinha dado certo. At a histria do caviar. Um dia, meu humano 
entrou na cozinha com a lngua de fora, como se fosse um cachorro das 
ruas! Pegou um potinho preto da geladeira. Abriu. Senti um delicioso 
cheiro de peixe! 


-Caviar -ele murmurou. 
Dei apenas um ganido e me mantive de rabo em p,  espera. O egosta nem 
me olhou. Cobriu duas fatias de po preto com todo o contedo do potinho. 
Nesse instante, tocou o telefone. Foi para a sala atender. Que 
oportunidade! 
Um cachorro sabe ser cauteloso em momentos decisivos. Aproximei-me, 
pata por pata. Fiquei em p e cravei os dentes nas duas fatias. Ergui o 
focinho e sai da cozinha, deixando o prato intacto. Corri para fora. Dali a 


1.publicado na extinta revista focinhos, em outubro de 1999. 

#
pouco, ouvi quando ele procurava. 
-Onde foi que eu pus? 
Abaixei as orelhas, aliviado. O prato estava to limpo que talvez ele... 
-Uno! 
Voou para o quintal. Devorei a primeira fatia. Fugi com a outra, enquanto 
ele me perseguia com a vassoura. Para qu? Pensava que eu ia devolver? 
Aproximou-se enquanto eu engolia a segunda. Ergui a cabea e lancei meu 
olhar de sofrimento husky siberiano na L 
-No finja! Ningum  infeliz por comer caviar, safado! -rosnou meu 
humano. 
Saltei. A vassoura ainda atingiu uns pelinhos do meu rabo. Fugi para um 
canto. De longe, gani. Quis ser generoso. Ofereci meu saco de rao. 
-Pegue quanto quiser! -uivei. 
Ele nem quis saber da rao. Bateu a porta. Fiquei pensando no tal caviar. 
Para um cachorro da neve como eu, o sabor vai muito bem. Talvez 
pudessem criar uma rao  base dessas ovi-nhas pretas. Pozinho e caviar 
seriam, de fato, a dieta ideal para um cachorro de classe como eu. Uma 
coisa aprendi com essa histria: quando o assunto  comida, nem o olhar de 
sofrimento funciona. Os humanos so, de fato, muito gulosos. 

O primeiro texto fez muito sucesso. A revista recebeu cartas 
entusiasmadas. Fiquei to contente que deixei pra l a histria do 
caviar, rigorosamente verdadeira. Eu comprara o potinho em um 
momento de extrema extravagncia. Era uma recompensa por 
minhas escolhas, por meu esforo em me profissionalizar como 
escritor. E o safado comera todo o caviar disposto generosamente 
nas duas fatias. Todo! Mas, agora que Uno estava iniciando uma 
vida profissional, ele merecia um voto de confiana. Quando recebi 

o primeiro pagamento, comprei tudo em rao, biscoitos sabor 
carne e uns ossinhos de couro para mascar. Uma espcie de chiclete 
para ces. Nas mandbulas de meu husky cada um durava no 
mximo meia hora. 
-Finalmente, Uno, voc est pagando a rao que come! 
#
Ele saltou e pegou um ossinho. Refugiou-se em um canto enquanto 
eu ainda o elogiava. 
-Tem talento! Pode ter uma carreira, Uno! Terminou o ossinho e 
pediu um biscoito, declarando: 
-Se estou pagando, tenho direito de ser guloso! O segundo texto fez 
mais sucesso ainda: 


Co de guarda2 

Os humanos sempre querem receber alguma coisa em troca do que 
oferecem. No so como eu, um cachorro que ama sem interesse. 0 
barrigudinho resolveu que eu devia guardar a casa. As visitas chegavam, 
ele avisava: 
-No se aproxime muito. Ele pode morder. 
Fiz o que sei fazer. Ou seja, nada. Ele resolveu me treinar. Agarrava uma 
varinha, agitava, ficava pulando na minha frente e gritava: 
-Pega, Uno! Pega! 
Certamente, ele no precisava de um co para espantar invasores. Bastava 
ficar pulando com a varinha. Ningum teria coragem de entrar na casa de 
um doido. s vezes eu uivava para content-lo. Ele reclamava: 
-Voc no sabe latir? 
Que ignorncia! Um husky siberiano no late. Apenas emite uivos, em 
vrios tons. Uivos de lua cheia, uivos de carinho e uivos de fome, o que  
mais comum. Foi o que meu humano, o barrigudinho, acabou descobrindo: 
-Voc  uma decepo. Pensei que seria de alguma utilidade. 
Interesseiro! Comeou a contar para todo mundo que queria um co de 
guarda.  uma estratgia dos humanos. Ficam falando que querem alguma 
coisa at que algum se decide e d de presente. Os humanos inventaram o 
dinheiro, mas passam o tempo todo tentando no gastar um centavo. Se 
no era para usar, para que inventar? O barrigudinho acabou ganhando 
uma [cadela] policial capa preta, de ar feroz. Chama-se Violante e tem sido 
uma agradvel companheira. Pobre Violante! Apesar dos dentes,  gentil 

2. publicado na extinta revista Focinhos , em novembro de 1999. 
#
como se fosse um husky/ Adora lamber as patas de todos os humanos que 
vm em casa! O barrigudinho ficou furioso. Certo dia, avisou: 
-Voc tem que latir e defender a casa. Pague a rao que come! 
Minha amiga foi enviada para uma escola de ces. Passou meses 
aprendendo a rolar, a fingir de morta -no sei por que os humanos adoram 
ver cachorros se fingindo de mortos! E, claro, a latir diante de estranhos. 
Voltou feliz. Apesar de suas loucuras, ns dois queremos agradar o 
barrigudinho. Um cachorro deve tratar bem o humano que lhe pertence! 
Passou a latir o dia todo, ao menor sinal de um humano. O barrigudinho 
saa no quintal, satisfeito. Elogiava. A tonta abanava o rabo. Eu refletia: 
-Vai dar rolo! 
Inevitvel. A vizinha  uma velha brava. Ontem bateu na porta do meu 
humano, aos gritos: 
-Essa cachorra est me enlouquecendo! Cada vez que saio no quintal, ela 
late! Vou ficar louca, louca! 
O barrigudinho e a velha uivaram mais que dois huskies, latiram mais que 
dois rottweillers. Ele ps Violante de castigo. Sim, ela! Foi mandada  
escola para aprender a latir. Agora, est proibida. Ela late, ele grita: 
-Fica quieta! 
A tonta no entende bem a linguagem dos humanos. E late mais forte. 0 
barrigudinho bota a coitada de castigo no fundo do quintal. Agora h 
pouco, Violante ganiu, angustiada. Expliquei: 


-Latir ou no latir, eis a questo! 
Ela est tentando entender o que houve. Ainda acredita que os humanos 
so animais inteligentes, que se comportam com lgica. Quanta 
ingenuidade! 


O que Uno contou  verdade, mas alm da experincia pessoal, 
usou tambm a imaginao. Violante foi minha fmea de pastor 
alemo capa preta. Durante algum tempo tive esperanas de v-la 
guardando a casa. Apesar de pertencer  linhagem de bravos ces, 
tinha o olhar cheio de mel. Assustava-se com qualquer grito. Botava 

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o rabo entre as pernas com a maior facilidade. Passou trs meses 
numa escolinha de um policial militar para aprender as diversas 
habilidades de um cachorro segurana. Quando chegou, s sabia... 
-Morta, Violante, morta! 
Ela deitava com as patinhas para o ar, fingindo. Uma graa. 
Uma amiga comentou: 
-Quando o ladro chegar, ela vai se fingir de morta! 
-Oh, cus! 
Mas Violante j partira havia muito tempo. Uno conhecia suas 
histrias muito bem, mas no foi gentil em usar a mim e a Violante 
como personagens. Era realmente um escritor: misturava fatos, 
realidade e fico, mudava datas, personagens. Mantive o texto 
como saiu. Um autor tem direito  liberdade de expresso, mesmo 
que seja um cachorro fofoqueiro. 
De patas para o ar3 

0 barrigudinho anda muito triste. Brigou com uma fmea humana que 
andava vindo aqui em casa. Uma fmea muito brava, pois s vezes latia e 
uivava contra o barrigudinho. Acho que deve ter sido treinada para 
guardar alguma casa. Certa noite, rosnou mais do que das outras vezes e 
partiu. 0 barrigudinho se lamenta desde ento. s vezes senta aqui fora e 
passa a mo no meu plo. Deito de barriga para cima.  delicioso sentir as 
patas de um humano acariciando minha barriga. Ou coando meu plo. 
Meu humano me acaricia e diz: 
-S voc gosta de mim, Uno. 
Coitado! Hoje peguei a coleira, uivei e abanei o rabo, convidando o 
barrigudinho para passear. Ele entendeu. Deixei que pegasse a ponta da 
corrente, porque estava muito deprimido. Samos. O barrigudinho pensa 
que est escolhendo um caminho. Mas eu o puxo para onde quero e ele me 
segue. Fui para uma praa onde, vrias vezes, tinha visto uma humana 
solitria, comendo um sanduche na hora do almoo. Ela estava l. 

3. Publicado na extinta revista Focinhos, em dezembro de 1999. 
#
Bem ajeitada, essa humana. Magra, alta. Plos pretos na cabea. A boca 
muito vermelha. Os dentes no eram to fortes como os de uma boa 
cachorra, mas os humanos no fazem questo de bons caninos. Deitei aos 
ps dela. Ela sorriu. 
-Que bonito! No morde? 
Pergunta tonta. Se eu mordesse, j teria arrancado seus dedos. 
-No.  muito manso. 
Estiquei as patas. Ela acariciou meu plo. Sou lindo mesmo. Reconheo. 
Huskies so maravilhosos, os outros ces que me perdoem. Dali a pouco 
ela e o barrigudinho estavam conversando. Falavam de livros, de filmes e de 
mim. Eu fiquei l, estirado. Quem sabe aquela fmea poderia morar l em 
casa e dar alegria ao barrigudinho? O tempo passou. Eu percebi que o 
barrigudinho queria entrar no assunto, mas no sabia como. Uivei 
gentilmente. Ele respirou fundo e tomou coragem. Aproximou-se e tentou 
encostar o focinho nela. Tambm aproximou a boca. Os humanos tm a 
mania de encostarem a boca, embora no costumem se lamber em pblico. 
Quando sentiu a boca do barrigudinho perto da dela, a fmea soltou um 
uivo. Levantou-se imediatamente. Uma dobermann seria mais gentil. 
Rosnou e saiu correndo. O barrigudinho ficou arrasado. Estaria com o rabo 
entre as pernas, se tivesse um. Mas no tem, coitado. Voltamos para casa 
em silncio. O pior  que eu sei que ela bem que gostaria de deitar de patas 
pro ar e receber carinhos. Sempre to solitria, aquela fmea! Eu no 
entendo. Humanos vivem falando de amor. Mas, quando tm a chance, s 
sabem rosnar entre si. 
A vida dos humanos poderia ser bem melhor. Bastava serem como ns, 
cachorros. Saber deitar de barriga para cima e patas erguidas quando 
quisessem um pouco de carinho. Seria mais simples, e haveria mais amor. 

Realmente, meu cachorro no tinha o direito de expor minha vida 
ntima como fez.  obvio que um co e um humano compartilham 
as mais variadas experincias. Eu mesmo observava Uno cheirar os 
traseiros de cadelas na rua, em bvias tentativas de seduo, mas 
nunca comentei, por ser discreto. J que ele tocou no assunto, conto 

#
o resto. Muita coisa estava acontecendo comigo. Depois de viver 
sozinho tanto tempo -j haviam se passado alguns anos desde 
minha perda -um sujeito fica chato. Andava cheio de manias, 
hbitos de solitrio. Fazia questo de ler na cama antes de dormir. 
De ficar sozinho, sem ver ningum, e agora que no tinha trabalho 
fixo, mais ainda. Fugia de compromissos. E me sentia incapaz de 
uma relao estvel. Um namoro terminou em uivos, segundo a 
descrio malvada de Uno. Nem sabia mais como conquistar 
algum. Em algumas situaes, fui to devagar que perdi a chance. 
Em outras, to rpido que botei tudo a perder. A seduo pede um 
ritual, pequenos gestos, olhares, e um ritmo que depende dos dois. 
Eu estava destreinado! E, no fundo, no tinha sentimento para 
oferecer. 
Como conversei com Uno certa vez: seria mesmo to bom se 
pudesse deitar de barriga para cima, erguer as patas e dizer: 
-Deleite-se! 
No sei se haveria mais amor, mas a vida seria muito mais 
divertida. 
Uma coisa  certa: ces so mais francos. Se querem amor, pedem. 
No tm vergonha de ganir por um carinho. De se oferecer. 
Por que no consigo me abrir, me oferecer? Ou aceitar gestos de 
amor que para outras pessoas so to simples? Observava meu 
cachorro e dizia: 
-Tenho muito que aprender com voc! Quem sabe um dia descubro 
o jeito de esticar minhas patas e pedir carinho! 
Os humanos so traidores4 
Acabo de ter uma decepo to grande com os humanos que minha vontade 
canina  sair pelas ruas e correr, at que esteja longe desses seres ingratos. 
Descobri tudo que eles pensam sobre ns, cachorros.  chocante. Certa 
noite o barrigudinho trouxe um casal para passar algum tempo comendo 
na sala. Os humanos tm esse estranho hbito de dividir a rao. Embora 

#
no comam rao, mas comida de sabores diferentes. Parece que nunca se 
satisfazem com um sabor, pois vivem procurando novos. Coitados! So 
eternamente insatisfeitos. O barrigudinho e seus amigos comiam carne com 
molho usando garfos. No sei como no espetam aqueles dentes metlicos 
na boca! Eu teria lambido os pratos, e seria bem mais gostoso! De repente o 
casal comeou a rosnar entre si. Em breve, latiam. A certa altura, ele latiu 
mais alto. 
-Sua cachorra! 
Estranhei. Por que latir to alto, para fazer um elogio? Humanos e ces no 
so bons amigos? Certas cachorras no do a vida para proteger a 
propriedade dos humanos? A fmea humana, furiosa, atirou o prato nele. 
-Cachorra, no! Cachorro  voc! 
O barrigudinho gritava, tentando apartar. 
-No xinguem! Acalmem-se! 
Fiquei com o rabo entre as pernas. Ento cachorro no era elogio. Gani, 
magoado. O barrigudinho me olhou, bravo. 
-Fica quieto, Uno. Estamos conversando! 
Conversa? Nem uma matilha latiria daquele jeito! Desde 
aquela noite, passei a observar. Quando os humanos querem arrasar 
com algum, chamam de cachorro. Cadela, ento, nem se fala. Soube 
de um humano que tentou matar outro que chamou sua mulher de cadela. 
No existem cadelas lindas? Quantas humanas no andam para cima e 
para baixo com suas poodles peludinhas? Um rapaz que trabalha com o 
barrigudinho falou: 
-Minha sogra  o co. 
Ouvindo a conversa entendi que nada poderia ser pior do que aquela sogra. 
Que ingratido, falar dessa maneira! Quantos humanos no vivem com 
dois ou trs bons cachorros por perto para cuidarem dele e oferecer o amor 
que no conseguem de outros humanos? Outro dia ouvi a vizinha 
xingando o namorado da filha: 
-Ele no passa de um vira-lata! 

4. Publicado na extinta revista Focinhos, em janeiro de 2000. 
#
0 que os vira-latas tm de mau? Podem no possuir um belo pedigree 
como o meu, com ancestrais campees. E da? Qual  o humano que tem 

pedigree? 

Mas o golpe final aconteceu faz pouco tempo. 0 barrigudinho estava 
falando de uma jovem fmea com um amigo. A certa altura, comentou: 
- uma gata. 
Que horror! Descobri que gata  elogio. Gato tambm. Se um macho 
humano  chamado de gato, ergue o focinho para o ar, feliz da vida. Ah, que 
vontade de partir e nunca mais ver um humano pela frente! Eles dependem 
de ns. Vivem  espera de nossos olhares ternos! Contam com nossos 
dentes afiados para sua proteo. Por que no chamam os gatos para 
guardar suas casas? Ingratos! No h dvida. 0 corao de um humano  
to duro quanto um osso rodo! 

Cartas e e-mails entusiasmados desembarcavam na redao da 
revista. A carreira de Uno andava mais depressa que a minha. At 
que, certo dia, o editor da revista, Felix, me ligou animado. 
-Sabe quem vai trabalhar com a gente? A Lu! 
-Ahn? 
-Ser a redatora-chefe. 
Eu tivera uma grande decepo com essa moa. Quando dirigi a 
outra revista, eu a chamei para trabalhar comigo, e ela comeou com 
todo o gs. Era eficiente. Nosso relacionamento ia bem. No entendi 
por que, poucos meses depois, ela pediu demisso. Lamentei sua 
sada. Segundo explicou, uma oportunidade melhor lhe fora 
oferecida, mais perto de sua casa, e com mais tempo para se dedicar 
 famlia. 
Algum tempo depois, ouvi fofocas: ela pedira demisso porque no 
me suportava. Surpreendi-me. De despedida, dera-me um livro 
muito especial de presente, de um autor uruguaio que no se 
encontra normalmente nas livrarias, retirado de sua prpria estante. 
Depois de tanta gentileza, falava mal de mim? 
Um ms depois de minha sada, ela voltou  revista. Esse gesto 
consolidou a fofoca de que s sara por no me suportar. Magoei


#
me. Mas como no tnhamos uma relao de amizade prxima, 
resolvi esquecer. Tive uma sensao desagradvel quando ela 
entrou na revista canina. 
Sou um tanto desorganizado, e o dia de entrega do texto de Uno 
variava de acordo com o fechamento da revista. Aps duas semanas 
da chegada de Lu, recebi um recado da secretria dizendo que eu 
devia entregar o texto no dia seguinte. At ento eu era avisado com 
uma semana de antecedncia. Um dia era pouco para conversar 
com meu cachorro, entender tudo que ele queria dizer, esperar que 
criasse uma nova coluna. 
Ericei meus plos, digo, os cabelos. As boas maneiras exigem que 
algum, quando assume um posto em uma revista, telefone para 
seus colaboradores para dizer que est chegando. Se Lu tivesse 
agido dessa maneira, eu teria me comportado de maneira gentil, 
desejado boa sorte no novo emprego e tudo mais. Eu j passava dos 
40 anos. A maturidade traz sabedoria. Ou pelo menos eu fugia de 
situaes desagradveis. Mas tambm no me senti bem. Minha 
intuio dizia: "Ela est agindo assim de propsito, para demonstrar 
que no gosta de mim e que quer o mnimo contato possvel". 
Agi como se no tivesse recebido o recado. No enviei o texto. No 
dia seguinte, nova mensagem, tambm da secretria, em tom mais 
duro, rspido. 
-O seu prazo acabou. Vai entregar o texto ou no vai? O valor de 
cada texto no era nenhuma fortuna. S o 
suficiente para comprar a rao. Um trabalho semelhante seria mais 
bem pago em qualquer outro veculo de comunicao. Os donos da 
revista eram meus amigos, e eu fizera um preo camarada porque 
ainda estavam investindo. Penso, porm, que a camaradagem deve 
ser uma via de mo dupla. Telefonei para o diretor que me 
convidara e expliquei: 
-A Lu no gosta de mim. No vamos conseguir trabalhar juntos. Eu 
no costumo ser cobrado desse jeito e o Uno s no enviou o texto 
porque ficou de mau humor. 

#
-H algum engano, vou falar com ela! 
Sa. Quando voltei para casa havia uma ligao da prpria Lu. Um 
horrendo pedido de desculpas. 
-Estou telefonando para resolver a situao sem mordidas. S com 
lambidas. 
"No podia ser pior", pensei. 
Eu no queria as tais lambidas. Nossa relao deixara de ser 
profissional, j estava impregnada de mal-entendidos, o que gerava 
um certo mal-estar. No valia a pena ir adiante. O teatro me 
ensinara que  preciso prestar ateno aos detalhes. Se logo no 
comeo dos ensaios uma atriz atrasa, vem com desculpa, reclama 
que o cafezinho est frio e de outras coisas, melhor troc-la, e bem 
depressa.  Cafezinho frio? Parece um motivo absurdo. Quem faz teatro 
sabe: mais tarde, quando a pea estiver em cartaz, as 
reclamaes vo crescer, atingir um nvel extraordinrio. Algumas 
peas de sucesso podem at emperrar carreiras, pois o elenco entra 
em p de guerra nos bastidores. Assim, dou ateno aos detalhes. Se 
vou trabalhar com algum e a relao se inicia com problemas,  
melhor parar antes de chegar  loucura. At porque reconheo meus 
defeitos. Tenho um temperamento explosivo -ainda bem que s de 
vez em quando. Fujo de situaes nas quais a tenso possa fazer o 
pior de mim vir  tona. Avisei que no haveria mais texto. Naquela 
noite, dei a notcia: 
-Uno, voc est desempregado. 
Ele deitou ao meu lado e prendeu minha mo com as duas patas. 
Quando ces "pegam" algum com as patas esto querendo dizer: 


-Voc  meu! Meu! Eu gosto de voc! Assim, respondi: 
-Voc tambm me pertence, Uno! No se preocupe, onde h rao 
para um, h para dois! 


#
10 

Pouco tempo depois, iniciei realmente minha carreira na televiso. 
Foi um perodo muito criativo, em que me dediquei a fazer aquilo 
de que mais gostava: escrever. O trabalho de roteirista  exaustivo, 
exige muito. So horas e horas no computador, mais telefonemas, 
reunies. Minha vida pessoal, que j no andava na melhor das 
fases, foi por gua abaixo. Deixei de ver amigos. A vida  estranha. 
s vezes gosto de uma pessoa, passo o tempo todo perto dela, 
tenho muitas afinidades. Subitamente os horrios no combinam 
mais, a gente se v menos, se afasta, cada um vai para uma direo. 
Descobri tambm que, para um escritor,  mais difcil conhecer 
pessoas. 
Quando tinha um emprego ao qual comparecia todos os dias, as 
relaes ocorriam automaticamente.  Havia uma vida social que 
girava em torno do trabalho, feita de almoos, encontros no final do 
expediente, festas nas casas dos companheiros de redao. Uma 
grande rede de amigos que se forma em torno de um emprego, 
embora freqentemente essas pessoas se afastem quando algum 
muda de trabalho. Ao me retirar para viver como escritor, perdi o 
cotidiano dos relacionamentos. Claro, tinha conhecidos e amigos, 
alguns de muito tempo, mas havia anos andava afastado. Era 
preciso ligar, marcar, estabelecer compromissos. Na televiso, 
conhece-se muita gente. Quem convive entre si so os atores e os 
diretores, que vo todos os dias ao estdio, gravam juntos e, no 
final da tarde ou  noite, saem para beber alguma coisa. O autor, 

#
no. Fica sozinho em casa. Se eu tinha um trabalho urgente, fugia de 
compromissos com os amigos. Pior: desmarcava encontros, jantares 
e passeios na ltima hora. Quando tinha tempo livre, todos j 
estavam de agenda cheia. A maior parte dos autores vive com algum, 
e as relaes costumam ser duradouras. Talvez porque 
depois que um sujeito se torna roteirista de televiso, no tem mais 
tempo para namorar, quanto mais casar! 
No digo que minha vida fosse inteiramente solitria. Encontros 
legais aconteceram. No entanto eu investia toda minha energia na 
carreira, talvez porque meu corao ainda continuasse fechado para 
relacionamentos mais profundos. 
Trabalhar em casa possibilita uma vida relaxada. Eu passava o dia 
com calas leves de ginstica, camiseta, andava descalo e coberto 
de plos. Sim, esta  uma caracterstica dos huskies siberianos. 
Perdem plos duas vezes por ano: de janeiro a julho e de julho a 
janeiro! 
Eu me admirava com a sade de Uno. Segundo meus clculos, j 
era um cachorro prximo da velhice, pois para os ces o tempo 
passa mais depressa que para os humanos. Bem tratado, vivo, 
animado, parecia muito longe de qualquer enfermidade. Nossa 
relao era muito prxima, um sabia o que o outro estava pensando. 
Se eu estava triste, ele ficava quieto, afetivo, deitava-se ao meu lado. 
Conversvamos. 
-Ah, Uno, as coisas no so fceis! Ele me observava compreensivo. 
-Sei que voc no est legal, mas fique bem; estou aqui! comentava 
com o olhar. 
Se eu estava legal, ele tambm se alegrava, erguia o rabo, corria e 
me chamava para brincar. No jardim, disparava para um lado e 
para o outro. Eu o perseguia. No final, o agarrava, acariciava seus 
plos, fazia cafun no alto da cabea. Ele lambia minhas orelhas, 
mordia as pontas, como nos primeiros tempos. 
Contudo, certo dia, notei que seu corpo estava arqueado, numa 
postura exagerada, que no era comum. Tentava evacuar. Estranhei. 

#
Mas no levei em conta. Nos dias seguintes, percebi que a 
dificuldade continuava. Durante algum tempo ainda o levava ao 
veterinrio prximo  minha antiga casa, o mesmo que retirou os 
espinhos do ourio. Desta vez procurei um mais prximo. Ele o 
amarrou. Fiquei ao lado, observando seus olhos tristes, a expresso 
subjugada. 
-Pobre Uno! -exclamei. 
O veterinrio o examinou cuidadosamente. Diagnosticou: 
-Ele est com uma verruga prxima ao nus. Vamos ter que tirar. 
- srio? 
-No,  s tirar, no se preocupe. 


Passou um dia em recuperao. Voltou para casa animado. 
Comentei com minha amiga Vera: 
-Ele ficou timo! 
-Tomara que a verruga no volte -disse ela. 
-Como assim? 
-s vezes surge outra. 
- perigoso? 
-Depende. 
Eis uma palavra de que no gosto: depende. Obviamente havia um 
risco. Nos dias seguintes, conversando com alguns amigos 
cachorreiros, descobri que em alguns casos as verrugas voltam a 
nascer internamente, alojadas no intestino. Problemas no intestino 
so complicados:  um local onde as inflamaes so freqentes por 
causa da dificuldade de assepsia. Mas nas semanas seguintes Uno 
parecia to animado quanto antes, correndo com a mesma alegria, e 
meu otimismo voltou. 
-Voc saiu dessa, amigo! 
Porm o sintoma voltou: ele se arqueava novamente. Retornamos ao 
veterinrio. 
-Como se pode resolver? 
-Eu vou cauterizar as verrugas. 
-A anestesia no  perigosa? 


#
-Sempre h um risco, mas... 
Olhei para meu cachorro deitado na maca. Meu corao murchou, 
apreensivo. Fiz um carinho e o deixei para nova interveno. 
Voltei alguns dias depois e, desta vez, garantiu o veterinrio, o 
problema j estava acabado. Entretanto, por causa da idade, Uno 
tinha que tomar um remdio para o corao. 
-Mas o que ele tem? 
-No se preocupe,  s para regular. 
Passei a administrar as plulas duas vezes por dia. Ele fugia quando 
me via chegar. Eu o chamava furioso. Abria sua boca e enfiava o 
remdio l dentro. E segurava seu focinho para obrig-lo a engolir. 
"Se pelo menos ele ficar bem, no importa o trabalho que me d!" 
Mas as verrugas voltaram. Novamente, o veterinrio as cauterizou. 
- normal com a idade -explicou Vera. -Tambm no  to srio 
assim. Seu cachorro est muito bonito, vai viver muito tempo. 
Olhei para Uno, que estava deitado no jardim, calmamente. Senti 
uma dor no peito. Minha relao mais estvel nos ltimos anos era 
com meu cachorro. 
No tenho vergonha nenhuma de confessar uma coisa dessas. Ces 
e seres humanos parecem se comunicar telepticamente. A 
fidelidade de um co costuma ser maior que a de uma pessoa, 
mesmo quando o animal  submetido a situaes extremas. Soube 
do caso de um mendigo cujo cachorro, sarnento, maltratado, ficava 
a seu lado, protegendo-o enquanto dormia na rua. Li uma 
reportagem na internet sobre uma pesquisa da fundao Pine Street, 
da Califrnia, nos Estados Unidos, segundo a qual ces conseguem 
detectar cncer em organismos humanos mesmo quando no h 
vestgios da doena. A fundao realizou um teste com 55 pessoas 
com cncer no pulmo e 31 com cncer de mama. Os acertos 
caninos foram entre 88% e 97%. Sobreviventes de um terremoto na 
China declararam que muitas mortes poderiam ter sido evitadas se 
as pessoas tivessem prestado ateno aos cachorros. Os ces 
ladraram selvagemente durante horas antes do abalo ssmico. Eu 

#
mesmo j tive essa experincia. H muitos anos, quando vivi nos 
Estados Unidos, passei uma temporada no Mxico. Houve um 
grande terremoto seguido pela exploso de um vulco. Lembro-me 
da noite seguinte  tragdia em que boa parte da cidade foi 
derrubada. No se ouvia um latido sequer nas ruas, como se os ces 
estivessem de luto, fazendo silncio por ns. Ces so especiais. 
Minha ligao com Uno estava alm de qualquer explicao, como 
costuma ser a de algum com seu cachorro. Durante milnios os 
ces vivem ao lado dos humanos. Tornaram-se parentes prximos, 
com relacionamentos carregados de afeto e comunicao. 
Mas eu tambm era capaz de olhar para ele e saber e estava tudo 
bem. E desta vez minha intuio dizia: no estava. Quando Uno 
piorou novamente, senti um n no estmago. Fiquei com ele muito 
tempo, conversando em voz baixa, falando de nossa vida. 
Lembrando os momentos engraados, como os de revolta, quando 
eu ainda lhe dava banho em casa. Dos patos. Das coisas boas que 
tnhamos enfrentado. 
-Meu Uno! Meu Uno! Voltei ao veterinrio. 
-No adianta cauterizar as feridas porque elas vo voltar. E o pior  
que o reto formou uma bolsa, logo no final, que dificulta a 
evacuao -concluiu o veterinrio. -O melhor  operar. 


Seria simples, segundo explicou. Cortaria o final do reto, justamente 
a regio afetada. Coisa pouca. 
-Assim ele fica livre do problema. Ficou mais tempo internado. 
-Aqui ns podemos controlar a alimentao e a higiene do local. 
Era verdade. Foram alguns dias de angstia. Fui visit-lo vrias 
vezes. Dentro de um cercadinho, parecia bem. Quando me via, 
corria agitado, pedindo: 
-Quero voltar pra casa! 
S me despedia com dificuldade. Mas a recuperao foi boa. Dali a 
pouco tempo ele voltou. 
-Seja bem-vindo de volta, Uno! 


#
No demorou muito, surgiu uma incontinncia. Uno, um co 
sempre to educado, um gentleman, agora sujava todos os cantos. O 
veterinrio explicou: 
-Devido  idade, com essa operao alguns ces perdem a 
flexibilidade do nus. 
Tive que contratar a faxineira mais um dia por semana para limpar 

o jardim, onde agora o deixava boa parte do tempo. Percebi, porm, 
que Uno sofria visivelmente. Procurei um novo veterinrio. 
-O meu colega agiu corretamente -explicou ele. -Mas, agora, Uno 
precisa fazer limpezas internas com alguma regularidade. 
Um novo item foi acrescentado a nossa agenda. Semanalmente eu o 
levava para a limpeza intestinal, que parecia muito desconfortvel. 
Voltava um dia depois. 
-Tudo bem? 
Ele mal me cumprimentava. 
- assim que voc trata um senhor de idade? De modo to indigno? 
-declarava Uno, revoltado, erguendo o focinho. 
Com o tempo, a necessidade de limpeza ficou mais freqente. Por 
sorte, eu j ganhava bem. Tinha um contrato fixo como roteirista de 
uma grande rede de televiso. No precisava pechinchar com o 
veterinrio. Mas seria bom insistir no tratamento? 
-Tome cuidado com tantas limpezas -aconselhou Vera, que sempre 
entendeu muito de cachorro. -No seu lugar, parava com elas. 
 o tipo de deciso difcil, porque nunca se sabe. Resolvi buscar 
uma segunda opinio. Mais uma vez, troquei de clnica. 
-Surgiu uma nova bolsa -explicou o veterinrio. -Tambm creio 
que as verrugas voltaram. 
-O que me aconselha? 
Uma receita de laxantes foi o primeiro passo. Seria preciso observlo 
nos dias seguintes. Perguntei, atormentado: 
-Doutor, ele sente dor? 
-Alguma. Mas no insuportvel.  mais um desconforto. 


#
O comportamento de Uno mudara bastante. Andava arredio, 
melanclico. Quando se aproximava, punha a cabea embaixo da 
minha mo e pedia carinho atrs das orelhas, dizendo: 
-Ajude-me! 
Uma coisa eu sabia: no queria que ele sofresse. Querer que um ser 
amado permanea perto da gente  um ato de egosmo. Ns 
humanos temos leis e travamos discusses infinitas no campo da 
tica e da religio. Contudo, penso que o amor deve falar mais alto 
nessas situaes. Quando se trata de seres humanos com interesses, 
dinheiro, heranas envolvidas, nem sempre  o corao que 
responde. J com os animais, h a iseno, a certeza de que a escolha 
 feita tendo por base o afeto. Disse interiormente: "No vou deixar 
voc sofrer terrivelmente, Uno. Confie em mim!". 
Nesse tipo de situao, existe uma linha tnue, e  perigoso se 
precipitar. Meu irmo vivera uma experincia diferente com a 
prpria me de Uno, Luna. A cachorra ficara bastante mal, doente, 
durante semanas. J pensavam quanto tempo mais lhe restava. Por 
coincidncia, naquela semana minha cunhada ganhou uma 
filhotinha de outra raa. Ao ver a cadelinha, a doente animou-se. 
Assumiu todos os cuidados maternais. Curou-se. Reviveu. Ganhou 
novo nimo e agilidade, e nos dois anos seguintes se comportou 
como uma jovem mame animada e feliz, cheia de afeto para a 
filhinha adotiva. S depois, j com mais de 15 anos, voltou a 
adoecer, desta vez definitivamente. 
No poderia acontecer o mesmo com Uno? Uma recuperao 
mgica? A doena talvez no fosse to grave. Eu botava a mo no 
seu focinho e me sentia aliviado: nunca estava quente, febril. Mudei 

o tipo de rao, segundo pediu o veterinrio, para uma dieta mais 
pastosa. Dava os remdios nas horas certas. Se precisava viajar a 
trabalho, a faxineira vinha mais vezes por semana para tratar dele. 
Semanalmente ia tomar banho no veterinrio, que sempre o 
examinava, otimista. 
-Parece estar muito bem. 
#
Em um intervalo mais curto que das outras vezes, Uno voltou a 
piorar. Sua condio tornou-se mais acentuada. Antes to animado, 
passava os dias deitado, em geral na sala, perto da televiso, que eu 
deixava ligada. No sei se entendia nossas tramas humanas, filmes, 
novelas, beijos e traies. Mas certamente gostava do som, da 
msica, do barulho que lhe fazia companhia quando eu estava fora. 
Deitava perto de mim sempre que podia. Naqueles dias calmos, 
cultivei a esperana de que Uno tivesse uma velhice calma, 
tranqila, perto de mim. 
Certa noite, fui jantar com um amigo recm-operado do corao. Na 
conversa, ele me contou tudo que o mdico lhe dissera, suas 
esperanas. Atravs de suas palavras, entendi a verdade. O mdico, 
da forma mais atenuada, dera ms notcias. Sua sade no estava 
bem. Era tomar decises, preparar-se. Ele no entendera assim. Mas 
eu pude discernir a verdade atrs do vu das palavras. No carro, 
voltando para casa, outra verdade foi se evidenciando. Tudo que o 
veterinrio dissera era semelhante ao discurso do mdico. Falara em 
cautela, em problemas, em observar. Eu  que me enganava. 
Comecei a chorar no carro. Ao chegar em casa, corri at Uno. Estava 
deitado no acolchoado, perto da televiso. Quando me viu, quis se 
levantar. S ento percebi como suas pernas estavam fracas. A 
dificuldade para se movimentar. Uno envelhecera muito nos 
ltimos meses, no entanto eu no quisera enxergar. Agachei-me. 
Abracei-o. Chorei. 
Ainda tinha que escrever uma crnica para a revista. Fui at o 
computador e deixei meu corao falar. 

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11 

Sou o tipo de sujeito que sempre escreve com a corda no pescoo. 
Quer me ver trabalhar? Pois me d um prazo. Enrolo at o ltimo 
momento. Depois corro para o computador e boto tudo na telinha. 
Nunca atrasei uma crnica, um roteiro, nunca! Mas estou sempre 
apavorado com a entrega. Uma das minhas vantagens  que escrevo 
depressa. s vezes, porm, d branco. No vem idia nenhuma. Foi 

o que ocorreu naquela noite. Eu tinha uma crnica para enviar. Era 
o ltimo dia. A revista devia ser mandada para a grfica. A minha 
cabea parecia um pastel. Mergulhado em angstia, s pensava no 
meu cachorro doente. Sentei no computador e olhei a tela vazia. 
Nada na minha cabea. Queria escrever uma crnica divertida, 
bem-humorada. Impossvel. Respirei fundo e comecei a digitar, 
movido apenas pela intuio. Vou reproduzir a crnica. Peo 
desculpas por repetir algumas informaes, mas este texto foi o 
embrio deste livro. 
Meu cachorro5 

Meu cachorro est doente.  um husky e tem 14 anos. Dizem os 
conhecedores da raa que 12  o tempo normal de vida. Mas sempre tive 
esperanas de que fosse muito alm. Sua me viveu at os 17. Seu nome  
Uno. No  muito comum, mas tem um motivo. Meu irmo e minha 
cunhada, h muitos anos, resolveram montar um canil em Campinas. S de 

5. Originalmente publicado na revista Veja So Paulo. Edio 1982, de 15/11/2006. 
#
huskies. Compraram macho e fmea de uma linhagem gloriosa. 0 av, 
importado do Canad, foi at capa de revista especializada. Registraram o 
canil. Alimentaram o casal, deram vacinas e prepararam-se para fazer 
fortuna. Logo uma ninhada estava a caminho. Meu irmo fez as contas. Na 
poca o husky era muito valorizado. Com um certo nmero de cezinhos, 
teria um bom lucro! 
-Sero dez, onze? -sonhava minha cunhada Bia. 
Nasceu um. Sim, um somente! Ganhou o nome de Uno, e me foi dado de 
presente. A grana ficou na imaginao. 
cheio! Um terror, o meu cachorro! Bravamente, capturou um ourio. 
Dezenas de espinhos penetraram seu plo. Entraram em sua boca. Eu 
nunca vira um espinho de ourio.  duro, pontudo! Impressionante. Fiquei 
a seu lado enquanto o veterinrio arrancava um por um. 


Mudei para a cidade. Meu cachorro envelheceu, e passa longas horas 
deitado a meu lado vendo televiso. Deve achar um absurdo tantos tiros, 
beijos, lgrimas e juras de amor. Gosta de, simplesmente, ficar do meu lado. 
Ao olh-lo eu tenho uma sensao de conforto. s vezes se levanta, bota a 
cabea nas minhas pernas e coo suas orelhas. Sua boca se estica. Tenho a 
impresso que  um sorriso. 


H algum tempo comeou a ficar doente. Ainda parece saudvel. Seu plo 
castanho brilha. Mas surge uma coisa aqui, outra ali. Toma remdio para o 
corao. Laxantes. s vezes uiva baixinho -huskies no latem. 
 a terceira vez que o envio ao veterinrio em duas semanas. Agora, nem 
conseguia ficar em p, de to frgil. Sinto angstia s de pensar em sua 
imensa solido, longe do tapete onde costuma dormir, sendo picado, mal 
comendo e, principalmente, sem algum que lhe acaricie o plo. A doena 
deve ser um mistrio para ele mesmo. 
O amor de um co  incondicional. Vejo mendigos na rua acompanhados de 
cachorros esqulidos que no os abandonam e at os protegem nas noites 
escuras. Vejo crianas a quem o co ajuda a conhecer o afeto. Eu sei que 
meu co est partindo. Se no for agora, ser daqui a semanas ou meses, 


#
pois uma coisa vira outra, e outra. Ou ele no conseguir resistir, ou 
chegar a um ponto em que terei que dar um n no corao e abreviar seu 
sofrimento. Eu tenho que resistir e fazer o melhor. Coar sua barriga e falar 
palavras docemente. E, se puder, quando chegar a hora, coloc-lo em meu 
colo e dizer o quanto o amo. 
Quando sentei diante do computador, queria escrever linhas engraadas, 
repletas de bom humor. Foi impossvel. Meu sentimento falou mais alto. 
Quem j amou um co entende minha dor. 


At fiquei envergonhado, quando enviei a crnica, por ser muito 
pessoal. Como j disse, costumo escrever humor. Tenho dificuldade 
para expressar minhas emoes. Um homem  educado para no 
chorar.  coisa do passado, mas certos ensinamentos ficaram 
entranhados dentro de mim. Meus pais nunca foram de abraar, de 
beijar. Aprendi a ser contido. De repente, revelei minha dor em 
pblico. Fiquei constrangido, por pouco no pedi que me deixassem 
trocar a crnica. 
Tive uma grande surpresa. Centenas de cartas, e-mails, telefonemas 
despencaram na redao da revista. Eram pessoas se solidarizando 
comigo, falando de seus prprios bichos de estimao, cachorros e 
at gatos muito amados. Mesmo algumas que no possuam 
animais escreveram para dizer que entendiam meu sentimento. 
Foram ondas emocionantes de afeto. At hoje, ao reler cartas e emails, 
as lgrimas escorrem dos meus olhos. 
Gostaria de publicar todos, mas precisei selecionar. Mantive frases, 
pensamentos, porm evitei nomes, para no expor os remetentes. 
So lindos depoimentos, vindos de pessoas que sabem expressar a 
emoo. 

"... sou um homem de 66 anos de uma vida dura, de muitas lutas, muitas 
vitrias e tambm derrotas. Uma coisa que sempre foi difcil na minha vida 
quase impossvel foi chorar, seja por alegria, seja por tristeza. Mas hoje, ao 
ler a sua crnica a respeito do seu Uno, eu chorei lgrimas de verdade, pois 

#
eu lembrei do meu Barry, um cocker maravilhoso, meu maior amigo, que 
morreu com 14 anos aps longa enfermidade. Tudo que voc falou do Uno, 
eu repito do Barry. Obrigado por me fazer chorar. "6 

"Entendo sua dor. Faz pouco tempo que perdemos nosso cachorrinho, o 
Tico. Foi um dia terrvel. Achei que todos ns enlouqueceramos aqui em 
casa.  difcil de descrever, mas foi uma dor muito grande. Ns o 
amvamos muito. Tanto que quebramos o cho para que ele fosse enterrado 
aqui mesmo, perto de ns e em sua casa." 

"... Sou vegetariana e apaixonada por animais. J passei pelo momento pelo 
qual voc est passando por mais de uma vez. No deu para segurar as 
lgrimas, senti seu corao gritar de sentimentos nas linhas de seu texto, 
coisa rara hoje em dia, em que a compaixo parece ter desaparecido." 

"... Traga-o para o seu lado e fique com ele o tempo que puder, pois tenho 
certeza de que, por mais que precise de tratamentos mdicos, o que puder 
fazer em sua casa ser o melhor. O animal precisa de seu dono, acho que  
s isso que o faz estar seguro e feliz, por mais doente que esteja." 

"... Eu no sabia que eu a queria to bem. Hoje a casa est vazia. Por ela ser 
to amorosa, seu afeto preenchia a casa. Estou moda. Quebrada por dentro. 
Em cacos. Quando chegamos na veterinria para a mandarmos para o sono 
eterno, creio que ela sabia o que iria acontecer. A impresso que tive  que 
ela no queria 'partir'. Quando a mdica foi aplicar o anestsico, ela gritou 
na aplicao. Eu no estava na sala. Fui covarde. Minha irm esteve ao 
lado dela o tempo inteiro. Eu me escondi no banheiro logo ao lado, mas eu 
ouvi o grito. Nesse momento eu fui para a sala onde [ela] estava, e quando 
foi se desligando, olhei para ela e tinha uma lgrima escorrida de seu olho 

6. Este e os outros e-mails e cartas foram enviados aos meus cuidados  redao da revista 
Veja So Paulo. 
#
esquerdo. Esta cena est marcada em minha memria. Triste cena." 
"Sabe, tenho uma labradora de 9 anos, resgatada da rua h dois. E me 
apeguei de tal forma a ela que no me vejo sem a sua presena perto de 
mim, pedindo carinho, encostando a cabea na minha perna e chegando a 
ressonar quando dorme... E depois que li... fiquei pensando... e corri para 
dar um abrao nela, e lhe beijar o focinho. Todas as noites quando esfria eu 
a cubro com o cobertor... Eu a amo muito!" 

"... cheguei a chorar lembrando da minha Rebeca to velhinha, mas que 
esteve firme e forte nos nossos momentos de dor e tristeza quando perdemos 
meu pai... Diga ao seu Uno que o ama, esteja ao seu lado e seja grato por 
ter sido abenoado com a presena de um anjo em forma de cachorro em sua 
casa! " 

"H quatro e dois anos tive que dar o tal n no corao, e trocar o 
sofrimento deles pelo meu. H trs meses, meu ltimo bichinho, uma 
tartaruga que estava na famlia havia 73 anos, e comigo h 45, tambm se 
foi. Ela no agentou a saudade dos cachorros, foi brincar no cu com eles e 
meu pai. Minha casa ficou to grande! No tenho conforto pra te oferecer. 
Mas tenho dois ombros." 

"Temos uma dachshund de 14 anos. O nome dela  Polly. Ela  linda. 
Preta com a fua e as patinhas marrons. E tem uma manchinha branca no 
pescoo. Quando era filhote eu e meu irmo brincvamos muito com ela. 
Ela corria por toda a casa com uma energia inesgotvel. Adorava brincar 
com uma bolinha de tnis. A fazamos de joo-bobo. O meu irmo at a 
colocava dentro do capacete dele. Ela ficava muito brava. A ganhei de meus 
pais quando tinha 10 anos. Hoje tenho 25. Posso dizer que crescemos 
juntas. Agora ela est doente. At a cor do plo no  a mesma. Tem um 
problema grave no corao que afeta seu pulmo. Ela sofre muito. No a 
castramos quando teve filhotes, ficamos com d. Hoje, ela j tirou trs 
tumores nas mamas. E no podemos castr-la mais, pois seu corao no 

#
suportaria uma cirurgia to invasiva. O que posso dizer  que aproveito 
todos os dias com ela como se fosse o ltimo. Apesar de passar o dia inteiro 
fora trabalhando, quando volto, sempre a pego no colo e fico coando a sua 
cabecinha. O veterinrio diz que  um milagre que esteja viva at hoje com 
os problemas que tem, mas acho que o amor que ela tem por ns, 
principalmente pela minha me, a mantm viva." 

"Ela foi abandonada filhotinha na rodoviria de minha cidade, onde 
trabalho. Estava magrela e vermelhinha de sarna que cobria quase 100% de 
sua pelagem. Fui cuidando dela com outras pessoas at que assumi 
totalmente a cachorra. Levo-a  veterinria sempre que precisa. Ela fica na 
minha sala -na rodoviria 

-durante a semana, tem cama, cobertor, travesseiro, roupinhas, vasilha 
para gua e rao, tudo muito limpinho. Nos finais de semana fica na 
minha casa. Meu marido gosta de atletismo e ela corre com ele, j 
participou de umas quinze maratonas de 10 km, virou at atleta, a 
cachorra!" 

" quase meia-noite e acabei de aplicar uma injeo de antibitico na 
minha cadela (uma akita,), que est com uma infeco urinria crnica h 
quase um ano! Alm de um problema de coluna que a deixa quase sem 
movimentos nas patas posteriores. Fiz at uma sacolinha para ajud-la a se 
levantar e andar. Esqueci-me de falar que ela est com 13 anos e 3 meses, e 
se voc no conhece a raa,  bom saber que ela  prxima do husky, 
tambm vem de lugar frio, com muita neve. Durante uma fase fiquei muito 
encucada comigo mesma, pensando se eu no a forava a permanecer 
comigo mais tempo. Choro muito tambm porque agora ela vive de fraldas e 
fica olhando para mim confiante. Enfim, estou na mesma situao, 
esperando, curtindo cada dia que ela fica comigo, um passo que ela 
consegue dar, uma comidinha a mais que ela resolve aceitar!" 

"H duas semanas o cachorro da famlia morreu, sem dor e 
silenciosamente, um husky como o seu. Chamava-se Iago. Tenho sua foto 

#
no lbum de famlia. Era mimado como uma criana, dormia em um sof 
exclusivamente seu, todas as tardes comia seu pozinho, devidamente 
reservado na padaria prxima de casa, desfilava pela casa ostentando sua 
beleza e nos olhando com ternos olhos azuis. Era conhecido da vizinhana. 
Todos que passavam pelo porto brincavam com ele, embora de longe, pois 
era de poucos amigos e havia mordido alguns cachorros distrados, perseguido 
uma ou outra pomba e at mesmo um ou outro vizinho.  certo que 
todos os ces tm personalidade, e ele com certeza tinha a sua. Ele se foi, 
depois de onze anos deixou saudade e uma casa vazia..." 

"Seis meses atrs, falava palavras carinhosas misturadas com um choro 
silencioso ao ouvido do meu labrador Rex, de 10 anos, enquanto a 
veterinria aplicava-lhe uma injeo letal (indolor). Dias antes, algum me 
disse que ele estaria sempre vivo no meu corao. Ajudou muito." 

"... no s me solidarizo com sua dor como tambm entendo muito bem o 
que est passando. J passei por isso. A diferena  que foi com um gato. 
Tudo bem, sei que geralmente quem gosta de ces no gosta de gatos e viceversa. 
Mas no  meu caso, gosto -e muito! -dos dois. Tambm tenho um 
co. Mas, independentemente de qualquer preferncia, a dor da perda  a 
mesma. E  difcil de explicar para quem no tem ou teve um querido 
animal de estimao. Certa vez um conhecido me desafiou, criticando meu 
amor aos (meus) animais dizendo: "Oras,  apenas um gato! O que voc 
ganha com isso?". Irritada, respondi de pronto: "Se voc no entende nada 
sobre amor incondicional, no sou eu que vou perder meu tempo 
explicando ". Ele baixou os olhos e nunca mais fez nenhuma provocao a 
respeito. Tratava-se de um sujeito engravatado, ainda jovem, mas aspirante 
a grande executivo, para quem s a lgica dos nmeros e do dinheiro fazia 
algum sentido na vida. Deve ter calado fundo nele. Ainda bem! Mas 
voltando ao gato, ele realmente era muito especial. Tambm foi o primeiro 
filhote da minha gata, que ainda est conosco, e o nico da gestao. Por 
isso, seu nome era Jnior. Nasceu, literalmente, na minha mo. E era eu 

#
quem o amamentava e limpava, pois como era a primeira cria, ela no se 
sentiu muito maternal. Em outra leva, provou ser uma mezona. Mas, 
daquela vez, a me fui eu. Ele faleceu ainda jovem, com uns 9 anos, vtima 
de complicaes renais. Fizemos tudo ao nosso alcance para salv-lo: at 
uma cirurgia com sonda na bexiga eu e a veterinria dele inventamos! Mas 
acho que em um determinado momento ele simplesmente desistiu de lutar e 
se foi. O que doeu mais  que, como moro em um apartamento pequeno em 
So Paulo, optamos por evitar separ-los (ao todo eram quatro gatos) e os 
deixamos todos juntos com minha me, que mora em uma casa no interior 
de Minas. Eu tive a chance de v-lo, j recuperado da cirurgia. Estava 
abatido e enfraquecido, mas bem. Dormiu comigo todos os dias em que 
estive l, fiz questo! Dormia com sua cabea repousando na palma da 
minha mo... Mas poucos dias depois de eu ter voltado para So Paulo, por 
compromissos profissionais, ele faleceu. Dormindo, segundo meu pai. 
Quero acreditar que ele resistiu para que eu tivesse a chance de me 
despedir. A dor foi enorme! Como se tivesse perdido um membro da 
famlia. E como explicar tanta dor por um animal quando h tanta gente 
sofrendo por outros seres humanos? A gente se sente meio tolo, mas isso 
no diminui a dor da perda, no ?" 

"Tenho uma cadelinha (La Luna  seu nome) e sou apaixonada por ela. Ns 
que temos essas "pessoinhas" em casa sabemos como so companheiros, 
fiis, amigos, verdadeiros... " 

"Embora goste de bichos e os admire, nunca tive um animal de estimao 
realmente meu! Na verdade, via de regra, com os bichos de algumas casas 
em que eu morei, nunca me dei muito bem... 

sempre tive uma relao distanciada. No entanto, no pude deixar de me 
emocionar. Pode ter certeza de que aquele rictus no focinho do Uno  um 
sorriso sim, e que ele o ama tanto como voc a ele!" 

#
"Sei que nessas horas no adianta falarmos nada, s quem tem um co 
entende. " 

"Parabns porque voc tem um animal de estimao. Entendo que o 
contato dirio entre um bicho e o ser humano torna o homem mais emotivo, 
mais ligado ao meio ambiente, mais ligado a Deus. Que Deus o abenoe 
neste momento. A natureza  assim: nasce, cresce e vai". 

"O nosso Erick, um poodle de 17 anos, estava fraquinho, esqulido, mas 
no perdia o apetite, comia mais que os outros. Andava meio cambaleante, 
brigava pelo seu espao com o pequenino Jimmy e com o grando Ozzy (j 
deu para perceber que meu filho e minha mulher so fs de rock). Subia na 
mesa para roubar restos de comida, comia a sua rao e, se no vigissemos, 
a de seus 'irmos'. Comeamos a ir aos veterinrios e alguns exames 
apontavam um pequeno problema cardaco, mas nada de outro mal maior. 
Fomos levando at que um pouco antes do Natal, l pelas 3 horas da 
madrugada, comeou a respirar mal, um pouco de vmito, gemeu, e eu e 
meu filho o levamos para um veterinrio de planto. No havia mais nada 
que fazer, ele 'foi embora ' no colo do meu filho, no parece que morreu, 
parece que 'fugiu '. " 

"Tenho 9 anos e tambm tenho uma cachorrinha e o nome dela  Mel. Se o 
seu cachorro morrer ele vai morrer com Jesus e ser bem cuidado, porque 
ele estar no cu." 

"Se existe algo que observo nas ruas so os ces dos mendigos. Cus! Como 
aqueles bichos so fiis e orgulhosos de seus donos! Voc acredita que todas 
as tardes, aqui no meu bairro, chega uma gente estranha numas carroas 
catando lixo das lixeiras das ruas? Outro dia vi um homem com uma 
carroa enorme com pneus de carros e toda cercada com varais suspensos. 
O que me surpreendeu foram os trs cachorros esqulidos, mas imponentes, 
orgulhosos, com aquele jeito de cachorros de madame quando vo desfilar. 
Nem se mexiam diante das buzinas dos carros e apesar de estarem sobre 

#
pilhas de papelo e garrafas que no davam sustentao para se 
equilibrarem. O amor de um co  algo indescritvel. Burra, no acredito 
em reencarnao. Ser possvel ns humanos voltarmos um dia a esta vida 
no plo de um cachorro, porque de fato eles tm sentimentos melhores que 
os humanos? Sabe, eu levo uma vida de cachorro, e sei bem o que o Uno 
deve estar passando. Mande notcias, t?" 

"... Tenho 24 anos e perdi meu melhor amigo, meu gato Viterbo. O nome  
engraado e estranho. s vezes o chamava de Vituxo, Vitinho ou de Vtor. 
A histria dele  muito engraada, pois a me estava mudando os gatinhos 
de lugar e os punha na boca para transport-los. O Viterbo ela deixou cair, 
e [ele] ficou para trs. Minha irm ficou com d e pegou o gatinho. No 
tinha nem um ms e estava com os olhos fechados. Cuidamos, compramos 
mamadeira! Foi uma festa! Vivemos muitas coisas juntos: ele sempre 
estava ali comigo quando passei no vestibular, quando fiquei 
desempregada, quando brigava com meu namorado. Sempre ele estava ali 
para me consolar! Eu o perdi h quatro dias. Ontem completei 24 anos e 
at parece que ele estava l quando soprei as velinhas!  doloroso pensar 
que na segunda-feira ele no vai estar na hora que eu chegar do trabalho  
noite, me esperando na porta e se esfregando nas minhas pernas!" 

"H dois anos meu cachorro (sem raa definida... rs) foi atropelado em 
frente a minha casa e fraturou a coluna. Sua veterinria, desacreditada, nos 
disse que seria necessrio sacrific-lo, pois ele jamais voltaria a andar e 
seria melhor para todos no prolongar o sofrimento do pobrezinho. Mas 
Deus  to grande que no dia seguinte ela nos disse que talvez com uma 
cirurgia ele tivesse uma chance. Fomos a um consultrio gratuito da 
universidade, que se recusou a operar. Mas uma veterinria de l 
improvisou uma tala com chapas antigas e esparadrapo pra colocar em sua 
coluninha. Foi um ms sem dormir para poder cuidar do cozinho Nero, 
que contava com apenas 1 aninho. Qual no foi nossa surpresa quando, 
ainda com a tala, ele se arrastou de madrugada at a cozinha e, poucas 

#
semanas depois, assim que ela foi retirada, ele voltou a andar 
normalmente... Claro que ele tem a coluninha torta, mas  normal como 
qualquer cachorrinho. Outro dia o levamos  praia e ele correu loucamente, 
na mais pura felicidade. Na poca, ns chorvamos e pensvamos se o que 
estvamos fazendo era certo com ele, se sacrific-lo no seria melhor para 
ele, o pobrezinho estava sofrendo demais... Mas ns resolvemos dar a ele 
uma chance e deixar que a natureza fizesse seu trabalho. Ele se recuperou 
totalmente!" 

"O meu Tiko est bastante velhinho (16 anos), e nesta ltima semana tem 
estado bem 'caidinho'. Tambm morro de medo de olhar para o colcho dele 
e ver um lugar vazio." 

"Convivo desde criana com um querido irmo peludo, que acabou de 
completar 13 anos. Ele tem um olhar que me decifra, sabe quando estou 
bem, preocupada, triste;  um amigo incondicional. Desde que sa da casa 
dos pais para estudar est comigo. Aquela presena, mesmo silenciosa, 
aquece e conforta, e seu olhar eloqente  um bom conselheiro. Ele me fez 
perceber que muitas vezes  isso que basta,  isso que ns procuramos, esse 
'estar com' simples, sincero, sem barulho, sem exageros. Em regra, as 
pessoas falam demais, tm receita para tudo, respostas prontas e previsveis. 
Minha me faleceu h dois meses e meio, e o senhor pode imaginar: 
quer seja no trabalho, ou no prdio onde moro, em nome das convenes 
sociais, venho escutando as mesmas solues e receitas, que no estou 
sequer pedindo ou procurando. Outro dia, aps uma noite em claro, 
sentindo a dor da saudade, cheguei ao trabalho com olheiras e uma colega 
perguntou: O que aconteceu? Expliquei que no consegui dormir etc. Ela 
olhou-me com o cenho franzido e respondeu: 'Mas voc ainda no 
superou?' Estava to cansada que nem respondi. Apenas um colega de 
trabalho falou uma coisa que fez algum sentido: ' um mistrio, o mais 
previsvel e o mais complicado de entender e de conviver. Realmente no sei 

o que dizer; se precisar estou por aqui'. " 
#
"O meu cachorro chama-se Tutty, e est conosco h aproximadamente 
dezesseis anos. Chegou para minha filha Mariana em seu dcimo 
aniversrio, na hora do bolo, bem no assoprar das velinhas. Foi trazido pelo 
tio e padrinho, meu cunhado, que observava atentamente a reao do irmo 
e a minha, pois ramos totalmente contra um cachorro morando em 
apartamento. Mariana tinha perdido o av querido um pouco antes e meu 
marido e eu acabamos 'engolindo' o poodle preto que aos poucos foi nos 
conquistando. Trs crianas, um marido, um cachorro, uma escola para 
cuidar... era tudo o que eu no queria. Mas hoje eu me sinto feliz, sou a 
me da casa e o cachorro  uma grande companhia!" 

"Era um corre-corre danado. Sair cedo, comprar o po e passear com o 
cachorro antes de acordar e arrumar as crianas para um dia de escola... 
trabalho... e assim foi. Um dia, bem cedinho, na pressa, no hall de elevador 
de servio, virei-me para colocar a chave na porta e ele entrou novamente 
no elevador. Como eu carregava um pacote de pes, a coleira flexvel de 
'elstico' estava presa em meu pulso. Quando finalmente abri a porta de 
casa, senti meu pulso sendo puxado. Algum apertara o boto do elevador e 
com ele ia o meu cachorro dentro. Imagine a aflio, o elstico esticando, 
esticando e o fio ia estendido... parte no meu hall, preso agora no vo do 
elevador, e a outra parte na coleira no pescoo do cachorro. Achei que o 
tinha enforcado. Entrei em casa aos prantos, acordei aos gritos o meu 
marido, que com razo disse que um dia eu o mataria do corao e fomos 
at o elevador. Abri a porta e nada de cachorro. J imaginei o cozinho 
prensado, enforcado. Minutos depois o elevador retornou como uma 
senhora que dizia que havia um co em seu hall e no havia meios de 
entrar no elevador. Fomos ento carinhosamente convencer o nosso 
mascote a voltar. No pescoo dele havia uma marca, mas ainda bem que o 
elstico havia estourado. Depois desse episdio meu cozinho acabou indo 
para a casa de campo em Atibaia, onde o visitvamos s vezes, e eu voltava 
com os olhos marejados pela separao. Depois de cinco anos a casa de 
Atibaia foi alugada e o inquilino tinha um enorme pastor alemo. Uma 
tarde vejo meu marido trazendo de volta um 'pano de cho' cor de terra em 

#
vez de preto. Era o meu cachorro de volta para o apartamento. Foi uma 
nova adaptao, mas ele estava mais calmo. Durante muitos anos acordava 
s 5h30 da manh para dar o primeiro passeio com ele e amos ns 
alegremente pela rua, antes de comear o dia. Aos finais de semana amos 
todos para Guaec, uma praia gostosa onde no gramado ele sempre adorava 
dar galopes. Sempre me esperava com aquela alegria. Agora est bem 
velhinho. Sempre o levo ao veterinrio, que me d remdios e mais 
remdios. Tem aquela tosse de 'cachorro' e hoje dorme no corredor, na 
porta do meu quarto. Cada vez que me v se agita, me faz a festa que 
consegue e logo em seguida sofre uma nova crise de tosse. No caminha 
com tanta energia, mas adora passear, agora mais vagarosamente. Hoje seu 
passeio mudou para as 6 da manh... (Seu passo  mais vagaroso, lento.) 
Sempre o agasalho, porque faz frio nesse horrio, to cedo. Acho que  uma 
relao de cumplicidade e muito amor essa que desenvolvemos com os ces. 
 difcil se 'preparar' para uma separao que a qualquer hora vai 
acontecer.  um exerccio para outras separaes que temos de enfrentar em 
outras situaes de vida, com os nossos idosos queridos." 

"Adotei um co h sete meses. Ele era menino de rua, ou melhor, cachorro 
de rua. s vezes eu penso que ele  gente! Chama-se Bris, mas deveria se 
chamar Dino. Quando a gente chega em casa ele simplesmente derruba 
tudo! Pula, morde e fica FELIZ! Realmente o amor de um cachorro pelo seu 
dono  incondicional!" 

"O Jnior tinha um tumor no rim, que em trs dias triplicou, chegando a 
ficar do tamanho de uma manga. No havia cura e a dor era terrvel. 
Minha irm, que  veterinria, disse que a melhor coisa a se fazer era a 
eutansia. S que ela queria esperar meu cunhado, tambm veterinrio, 
chegar, pois no tinha coragem de aplicar a injeo. No sei de onde tirei 
essa fora, mas pedi que acabasse logo com o sofrimento do Jnior. Pois ele 
no conseguia se sentar de tanta dor e estava de p desde o dia anterior. Foi 
horrvel, mas fizemos o que com certeza foi a melhor soluo. O que quero 

#
dizer com isso  que se a eutansia for necessria um dia, agente firme ao 
lado do seu amigo, por mais dolorido que seja para voc. Agente, pois at 
hoje me lembro da cara do meu cachorro extremamente confiante de que 
tomei a deciso com todo o meu amor. Para sempre ele ser amado e jamais 

o esquecerei. Jnior era meu filho. No podia deix-lo s na hora mais 
difcil de sua vida. Tomamos a melhor deciso e temos certeza de que vamos 
nos encontrar um dia." 
"Fao terapia com duas psiclogas, e uma delas  especializada no assunto 
'luto'. ... viver uma perda  uma coisa muito difcil, e hoje eu enfrento a 
minha terceira. Minha famlia  muito pequena, sou filha nica, no sou 
casada, no tenho filhos, e nesses meus 48 anos eu sempre vivi com os meus 
pais. A minha linda, amada me faleceu faz seis anos, e o meu pai querido 
faleceu faz um ano e meio, e tem sido muito difcil, doloroso suportar. H 
cinco meses eu perdi o Marvin Astor, meu amado cachorro. Ele era uma 
mistura de vira-lata com fox terrier, j nasceu com cara de velho, desde 
filhote sempre teve uma barba branca. Foi muito especial na minha vida, foi 
especial para minha me, para o meu pai; enfim, ele esteve presente em 
todos os meus momentos felizes e nos momentos mais tristes. Quando a 
minha me e o meu pai faleceram, ele ficou comigo o tempo todo, me 
fazendo companhia e me dando carinho. Sobramos s eu e o Marvin, e em 
maio ele tambm morreu. Tinha um monte de problemas, osteoartrite, que  
degenerativa, problema de ouvido, rins, labirintite e o mais complicado: um 
grave problema no corao. Sei que foram muitas idas ao veterinrio, 
muitos remdios, muitos exames, algumas internaes... enfim, tentei tudo 
para tornar menos doloroso para ele, mas o bichinho tinha tanta sede de 
viver que lutava bravamente todos os dias. Ele no queria ir, acredito que 
no queria me deixar aqui sozinha. Bom, vou resumir, porque do contrrio 
eu teria muitas, muitas histrias dele para contar. No ltimo dia de vida, 
um sbado, fiquei ao lado dele, acariciando sua cabea, agradecendo pelo 
seu amor, pelos momentos felizes que ele me deu, ficamos assim das 18h30 
s 3 horas da manh, que foi o seu horrio de bito. Sinto muita saudade, 
mas sei que ele est num cantinho especial, que Deus reserva para todos os 

#
bichinhos. Eu o sepultei aqui no quintal, pois tenho um jardim lindo e 
grande, e ele est no meio das flores." 

"Minha sobrinha tem um cozinho de estimao. Outro dia sofreu um 
acidente de carro de pequenas propores fsicas, mas com grande perda 
material, j que seu carro deu perda total. Na hora do acidente ela estava 
com seu cozinho de estimao no colo e com o impacto da batida ele voou 
pela janela e ficou preso pela guia pendurado na porta. Ela ficou to 
desorientada na hora que desceu do carro gritando para o motorista 
causador do acidente: Cad meu filho? O que voc fez com ele? Onde ele 
est? Voc  um louco! Se meu filho morrer eu te mato! O motorista e as 
pessoas que ali estavam comearam a procurar o filho acidentado, mas para 
a surpresa de todos era um co que se encontrava pendurado na porta, 
quase morto. Minha sobrinha pegou o coitadinho no colo, beijava-o, 
abraava-o. Olhava para o motorista e xingava, xingava muito. Nem deu 
importncia ao estrago do carro, s se preocupava em beijar o co e 
perguntar se ele estava sentindo alguma coisa. O cozinho foi medicado e 
est bem. Mas quando a gente ama um cachorro  assim mesmo:  um 
amigo, um filho peludo!" 

"J criei um malamute e dois huskies. Eu vivi exatamente as mesmas 
enrascadas que voc descreve de maneira to brilhante. Corri quilmetros 
atrs deles, chorei, implorei para que algum l na frente parasse o bicho 
que corria feito um louco, desvairado. Fiquei sem dormir porque um deles 
fugiu e no voltou. J paguei, na conta de um hotel, um pato. Sim, um pato 
do laguinho do hotel. [J] acordei  noite com o barulho surdo de um pobre 
gatinho acuado embaixo do carro. Tive de pagar tambm um galinha morta 
do vizinho de uma casa onde passvamos frias em Uba-tuba. O mais 
trgico  que eles escolhem para matar justo as galinhas e os patos mais 
queridos da famlia! [Certa vez] salvei uma galinha extica da boca do meu 
husky. Ele soltou a bichinha e ela ficou cambaleando. Mas hoje o meu 
ltimo husky, o Kau,  igualzinho ao seu Uno. Um velhinho. Ele nasceu 

#
em maio de 1992 e est com 14 anos e 7 meses. Surdo, cego de uma vista, 
cheio de manias, coisa de velho mesmo, faz xixi pela casa toda.  o membro 
mais querido de nossa famlia. Ele est bem. Come bem, corre, brinca um 
pouco. Mas, como o Uno, passa muito tempo dormindo. Ele  o primeiro a 
acordar, cedinho. E vem me chamar para passear. O dia que ele no faz 
isso, voc no imagina como meu corao fica apertado at chegar  
caminha dele e ver o porqu de ele no ter acordado. S quem  louco por 
cachorro entende e partilha nossos sentimentos." 

"Por mais que vivamos, por mais que soframos, jamais vamos nos esquecer, 
muito pelo contrrio: estaremos sempre lembrando com ternura do 
acontecimento que vou narrar. No Carnaval ficamos incumbidos de cuidar 
da cachorrinha Lassie, cuja dona iria viajar para uma cidade no interior do 
estado. Pegamos o animal no bairro do Brs, em So Paulo, e o 
conduzimos, a noite, de carro,  casa onde ele iria ficar hospedado, no bairro 
de Vila Rica, para onde [ele] nunca tinha ido at ento. Na tarde de tera-
feira, um temporal muito forte inundou nossa casa e, preocupados em 
estancar tanta gua, nos descuidamos de Lassie, que fugiu. Desespero 
total! Como falar para a dona que sua querida cadelinha havia 
desaparecido? Ento, comeamos a procurar. Vasculhamos, em vo, todas 
as imediaes. Quando a dona, na sexta-feira, regressou, chorou 
desconsolada, mas acreditava que poderia encontr-la. E continuamos as 
buscas. Eu, particularmente, a procurava apenas para mostrar 
solidariedade, pois, no fundo, no acreditava que ela estivesse mais viva. 
Nove dias se passaram e, na manh do dia primeiro de maro, veio a 
incrvel notcia: Lassie estava na porta do salo de beleza de propriedade de 
sua dona, na rua do Hipdromo, no Brs, de onde ela saiu, repito, de carro, 
na noite de sbado de Carnaval. A emoo foi tanta que a dona da 
cachorrinha a apertava e a beijava ao mesmo tempo em que chorava 
copiosamente. Lassie nunca havia sado do Brs. Considerando que da casa 
de onde ela fugiu at a rua do Hipdromo so exatos 13 quilmetros, por 
um itinerrio racional, l vai a pergunta que no quer calar: como ela 
conseguiu? E outra: como ela sobreviveu nove noites e oito dias, sob sol, 
chuva e sabe-se l o que mais? Mais uma: Lassie teve que atravessar vrias 

#
avenidas, das quais trs so super movimentadas e perigosssimas. Quem a 
ajudou a atravessar? Com certeza no foi algum humano, porquanto 
Lassie  vira-lata, feia e velha (mais de 15 anos, com certeza). Ningum 
olha para um cozinho com tantos defeitos. Mas, apesar desses defeitos, ela 
deu a todos ns, que vivenciamos o fato, uma importante e inesquecvel 
lio de coragem, determinao, perseverana e amor. Ela ainda est 
assustada, magrinha, as unhas desgastadas por mais de 13 quilmetros de 
asfalto. S tem uma coisa: Lassie agora  mais especial para todos ns, pois 
l no fundo do nosso corao ns sabemos quem foi que a ajudou em sua 
trajetria: foi Deus! Somente Deus com sua irrefutvel bondade pde 
conduzir as patinhas de uma cachorrinha vira-lata, feia e velha, de volta 
para os braos de sua dona, que a ama tanto!" 

"Amo os cachorros deforma incondicional. So meus melhores amigos. Sou 
protetora e cuido de alguns deles nas ruas e tambm tenho oito em casa. 
Agora mesmo acabei de vir da rua com um saco de rao e o galo de gua 
que j anda comigo no carro. So seres maravilhosos e puros que no nos 
deixam em nenhum momento. s vezes, quando fico triste e choro, vou 
para o quintal e eles lambem minhas lgrimas, deitam e rolam no cho e 
minha tristeza se vai... No conseguirei jamais viver sem um co por perto. 
Acho que em vidas passadas j fui de quatro patas!" 

"Diz a lenda que, quando os animais de estimao morrem, atravessam a 
Rainbow's Bridge (Ponte do Arco-ris) e chegam a um lugar maravilhoso 
onde brincam eternamente. L os animais correm livres e felizes e at os 
ces idosos e doentes, como seu querido Uno e a minha Zizi, recuperam a 
sade e a energia. No meio da brincadeira, um dos animais pra, cheira o ar 
e corre, para cruzar de volta a Rainbow's Bridge. Mas o que foi fazer este 
animal? Este animal, sempre to fiel, foi receber seu dono, que tambm 
cruzou a ponte. Finalmente o dono e seu fiel companheiro voltam a ficar 
juntos, desta vez para sempre." 

#
"O co  um verdadeiro anjo que tem um curto tempo de convivncia 
conosco, talvez apenas o suficiente para nos ensinar algumas coisas, se 
quisermos mesmo aprender." 


12 

Maranho, o diretor da revista, telefonou: -Os leitores querem 
conhecer o Uno. Veio o fotgrafo. Botei um lenol no sof, chamei 
meu husky. Abracei-o. Que diferena de anos atrs, quando era 
deliciosamente indisciplinado! Ficou calmo, ao meu lado, durante 
os cliques.  a nossa ltima imagem. Foi publicada na semana 
seguinte, e tambm apareceu no site da editora. Havia uma grande 
torcida pelo meu cachorro, como mostraram as cartas e os e-mails. 
-Ficou famoso, Uno, famoso! -eu brincava. 
Segundo o veterinrio, o intestino tinha tumores internos. Uno 
sofria dores terrveis para evacuar. Apesar do problema do corao, 

o melhor seria oper-lo. Eu hesitei. 
-Mas e a idade? 
-A condio fsica dele  muito boa, de um cachorro muito mais 
jovem. 
Eu sabia dos riscos. Tambm tinha conscincia de que ele no 
poderia continuar vivendo assim. Perguntei detalhes. 
#
-Retiramos um pedao do intestino e costuramos as duas partes. O 
ideal  uma internao prolongada, para ele s voltar para casa 
totalmente recuperado. 
Aceitei. Pedi alguns dias. Na noite anterior, trabalhei at tarde, 
como costumo fazer. Era mais de meia-noite quando desci. Uno 
dormia em um tapete prximo  escada. Seu corpo estava 
quentinho. Sentei-me no cho, ao seu lado, coloquei sua cabea em 
meu colo. Ele me ouviu atentamente, com expresso sria, enquanto 
falei com lgrimas nos olhos: 
-Uno, querido, amanh voc vai fazer uma operao, e as 
perspectivas so boas. Mas no sabemos o que pode acontecer. Se 
voc partir, quero que saiba que eu nunca vou esquecer voc. Voc 
foi um bom cachorro. Um amigo. Muitas vezes, Uno, voc me 
entendeu, compartilhou sentimentos e torceu por mim. Nas horas 
de tristeza, voc estava perto, e eu me sinto feliz por ter voc por 
aqui. Agora a situao  complicada e pode ser que voc v embora. 
Eu espero que no seja uma despedida, que voc volte bem, um 
cachorro forte, feliz, de rabo erguido, cheio de amor pra me dar. 
Mas se no for assim, Uno, se partir, vou sentir muita falta de voc. 
Muita mesmo. Eu no sei como certos mistrios funcionam. H 
quem diga que a alma comea na pedra, vira planta, vira bicho, vira 
gente e um dia um ser divino. Outros acreditam que alma humana 
j surgiu humana. Mas s vezes eu olho pra voc e acho que est 
pronto para nascer como gente, que j tem uma personalidade, e 
que vai ser um cara legal. Quem sabe isso acontea e a gente se 
conhea l no futuro, em outra vida, se eu tambm tiver essa 
oportunidade. Ou quem sabe 

#
exista um lugar para onde eu v tambm um dia, onde ns dois 
vamos correr, brincar, e onde haja um lago cheio de patos deliciosos 
pra voc caar! Eu no sei, Uno, eu no sei. Mas quero que saiba que 
tivemos uma boa vida. Ah, uma vida boa, e eu fico to emocionado 
em pensar que voc vai embora que di, di tanto, que eu s sei 
ficar abraado e dizer: Meu cachorro, ah, meu cachorro! Meu 
querido co! 
No dia seguinte, foi levado pelo veterinrio. Passou a noite em 
jejum. Foi operado de manh. Recebi o telefonema: 
-Tudo correu muito bem. Ele ainda est anestesiado, mas resistiu. 
-Quando posso ir a? 
Ouvi um silncio. Cheio de dedos, o veterinrio explicou: 
-Eu acho melhor esperar um pouco. Ele precisa de repouso. Se voc 
aparecer, vai pular, fazer agrado, e  perigoso arrebentar os pontos. 
Eu me conformei. Tudo para o bem de Uno! Recebia informaes 
todos os dias. Uno acordou. Estava andando. Reagia muito bem. 
-Parece um menino! Logo ter alta. 
Mesmo assim, eu me sentia apreensivo. S ficaria feliz quando ele 
voltasse e eu pudesse ficar ao seu lado vendo televiso. Nada seria 
como antes,  claro. J estava velho. Mas quem sabe eu o teria por 
mais uns dois, trs anos? 
-No pode acontecer agora! 
Um domingo acordei mais tarde. Havia um recado urgente no meu 
telefone. 


-Ligue depressa para a clnica. 
A veterinria de planto informou: 
-O Uno no est passando bem. 
-Mas o que houve? At ontem estava timo! 
-Os pontos da operao arrebentaram. Ele comeou a uivar de dor, 
de madrugada. Est sendo medicado, mas est com infeco 
generalizada. 


#
Minha garganta se apertou. Mesmo em hospitais de primeira linha  
dificlimo resolver uma septicemia em seres humanos. Que dir em 
um cachorro, em um veterinrio com muito menos recursos! 
Perguntei: 
-Ele est sofrendo? 
-A dor  muito grande. 
Havia chegado o momento. Teria de tomar a deciso. Porm no se 
resolve uma coisa dessas pelo telefone. 
-Vou pra a agora mesmo. 
Ainda estava de pijama. Botei uma roupa, tnis, sa com o carro. 
Acabei me perdendo um pouco no caminho, de puro nervosismo. 
Uma senhora me indicou a rua certa. Estacionei. Toquei a 
campainha. O segurana abriu. 
-A doutora j vem. 
Uma garota loira, bonita, de roupa branca, veio de dentro. 
-Entre, por favor. Sinto muito, as notcias no so boas. 
-Eu sei, eu sei... Onde ele est? 
Ela me indicou o centro cirrgico. Apressei-me, a jovem logo atrs. 
Entrei. 
Uno estava morto, deitado na maca. 
Seus olhos abertos, mas apagados, sem brilho! 


Costumam dizer que a vida  uma chama, e eu concordo. O brilho 
da vida cintila atravs das pupilas. A vida  uma sensao, uma luz, 
um gs que nos anima. Ar imantado. Mas a falta de vida produz 
uma outra sensao, arrepiante. A morte traz um vazio.  o que eu 
sentia agora naquele lugar. Havia apenas um vazio. Uno me 
deixara. 
-Meu cachorro! Meu cachorro! 
Eu me atirei em lgrimas sobre seu corpo ainda quente. Faleceu 
minutos antes de eu chegar, salvando-me de tomar a deciso 
dolorosa de sed-lo. Beijei vrias vezes sua cabea, suas orelhas, 
sem vergonha de chorar, de transbordar, meus culos molhados, 
baos, minha dor sozinha. 


#
-Ah, eu te amo, eu te amo. 
Quando me ergui no conseguia enxergar direito. A veterinria 
trouxe um copo de gua. 
-Eu pensei que ele ainda estava vivo! 
-Mas eu disse que sentia muito... 
-Achei que era por causa da condio fsica... mas que ele estaria 
aqui, que poderia v-lo mais uma vez. 
Sentei-me, e fiquei olhando o corpo longamente. Murmurei: 
-Adeus, querido. Adeus! 
Muitas pessoas que me escreveram jogaram as cinzas de seu 
animalzinho por perto ou enterraram o corpo no jardim. Mas eu 
acredito que existe uma alma, e que quando ela parte resta s o 
invlucro. Um corpo  apenas o traje de uma essncia de luz. Pedi 
que o incinerassem. A moa concordou. 
-A gente toma conta de tudo. 


Mais uma vez eu o abracei. Fitei seus olhos sem vida. Mais uma vez 
me despedi. No entanto a alma no estava mais l. Alma de 
cachorro? Para mim todo ser vivo possui uma centelha divina. O 
meu cachorro partira, mas eu no queria aceitar, como se ficar ali, 
ao lado dele, fosse suficiente para traz-lo de volta. 
Ento percebi que era preciso virar as costas e caminhar at a sada, 
que no poderia prolongar aquele momento eternamente. Fui at a 
porta e ergui os ombros, empinei o queixo, sorri para a moa e 
agradeci. 
-Obrigado. Fico grato por tudo que fez por meu cachorro. 
-Infelizmente no consegui... 
-S quero saber se ele sofreu muito. 
-No, sofrer no sofreu, eu dei remdio para controlar a dor. Ele 
viveu at pouco antes de voc chegar, mas no resistiu. 
-Sabe o motivo? 
-Provavelmente a idade. Os pontos arrebentaram porque j era 
velhinho, j no tinha a mesma resistncia. Se quiser uma autopsia 
para ter certeza... 


#
-No, no  preciso. Eu acredito que vocs fizeram o mximo. Diga 
ao diretor que depois eu acerto tudo. 
Olhei para o corpo de novo. Sorri de leve entre as lgrimas. Era 
impossvel partir ainda. Voltei. Pus a mo sobre seu focinho, 
lembrando de todos os nossos momentos bons, e disse, agora 
realmente pela ltima vez. 
-Obrigado por ter estado comigo e me feito companhia. Por ter sido 
meu amigo. Voc foi um bom, um excelente cachorro. No houve 
melhor neste mundo. Adeus, Uno; adeus, meu cachorro! 
Sem hesitar, porque de outra maneira no poderia mais ir embora, 
dei um leve sinal de adeus para a veterinria e parti. 
Nem sei como consegui dirigir para casa. Entrei, e tudo estava 
tremendamente solitrio. Atirei-me sobre minha cama e chorei, 
chorei sem parar como estou chorando agora ao escrever estas 
linhas, porque a dor nunca acaba, s fica amortecida e toda vez que 
penso no meu cachorro sinto uma imensa saudade. 



13 

Decidi nunca mais ter cachorro. "No quero mais amar e perder", 
comentava comigo mesmo. Vrias pessoas, incluindo leitores da 

#
revista, ofereceram filhotinhos. No pretendia pensar nessa 
possibilidade. Dediquei-me  vida profissional. Novos desafios 
surgiam. Minha carreira como roteirista s melhorava. Gosto muito 
de ler. Lembrava-me de personagens de romances que vivem 
sozinhos, em locais ermos, contentes com sua vida interior. Eu no 
queria mais ter sentimentos. 
-A solido  uma forma de felicidade! -murmurava diante do 
espelho para me convencer. 
Joguei fora o acolchoado onde ele dormia. No tive coragem de me 
desfazer do pote de rao. s vezes ainda o via no quintal. Depois a 
faxineira o guardou em algum lugar. Quando ligava a televiso e 
via um filme com lobos, meu corao saltava, pois os huskies so 
incrivelmente semelhantes a eles. Se cruzava com algum deles na 
rua, tambm sentia uma incrvel emoo. 

Os meses se passaram. 
No final do ano, fui para uma praia no Rio de Janeiro com dois 
amigos, Saulo e Robson. Ficamos em uma casa em um condomnio 
sem muros, com rvores frondosas.  meia-noite fizemos tudo de 
acordo com o ritual. Vestidos de branco, fomos para a praia, 
abrimos champanhe e pulamos sete ondinhas. Na volta, comemos 
uma ceia com lentilhas, pernil, uvas e rom. Depois, os trs ficamos 
na varanda, eles em redes e eu deitado em um sof. Falvamos 
sobre a vida em geral. Os dois fazem teatro, eu escrevo peas, livros, 
novelas de televiso. Havia muito que conversar. De repente 
ouvimos um rudo. Seria algum? 
Um enorme cachorro preto entrou na varanda. Vinha da rua. Sujo 
de areia, aspecto feroz. Aproximou-se de Robson, que se d muito 
bem com ces. 
-Oi, cachorro! -ele disse. 
O co nos observou, srio. Se nos atacasse, seria bem perigoso. Mas 
eu no sentia medo. Ao contrrio. Tive uma intuio. Chamei: 
-Vem c, Exu. 

#
O cachorro veio at mim, curvou a cabea e recebeu meus carinhos. 
Afaguei suas orelhas. Seu pescoo estava sujo, mas que importava? 
Eu o abracei. 
Robson foi para dentro, voltou com um pedao de pernil. 
-Toma! 
O cachorro pegou o pernil na boca e depositou na minha frente. 
Saulo levou um susto: 
-Parece que esse cachorro  seu! 
Eu chamava Exu, e ele vinha. Deitava do meu lado. 


Permaneci na varanda o mximo que pude, porque no queria me 
separar. No havia nem corda para prend-lo, nem porto para 
fechar. Finalmente, fui dormir. Acordei decidido: 
-Eu quero o Exu! Vou levar para mim! 
Fui at a portaria do condomnio. Falei com o caseiro. 
-Eu vi um cachorro como o senhor est falando -respondeu ele. Dormiu 
aqui, na frente do condomnio, e s foi embora hoje de 
manh. 
Ento tinha me esperado! 
Devia ser um cachorro de praia, abandonado. Sa  sua procura. 
-Voc est completamente maluco -disse Robson. -O cachorro  
muito grande para sua casa. 
-Mas eu quero! 
-Ele est acostumado a viver livre, aqui na praia, voc vai levar? 
Vai prender? 
-Mas aqui ele vai morrer cedo, ningum vai cuidar quando ficar 
doente. 
-Vai morrer feliz. Quem voc acha que , que onipotncia  essa 
para achar que pode decidir o que  a felicidade de algum, mesmo 
de um cachorro? 
Fui at o caseiro e propus: 
-Dou uma bela recompensa se voc achar o co. 
-Pode deixar comigo. 
Convenci Robson e Saulo a sarem procurando. 


#
-Eu o vi de longe, com uma matilha -explicou Robson mais tarde -, 
e fiquei sabendo,  de um pescador. 
-Vou dar dinheiro para o pescador e levar. 
-No vai, no. 


-Vou. 
Sa de dia, de noite, bati a praia toda vrias vezes. Perguntava. 
Ningum sabia identificar o co. 
-L perto da igreja tem um bando de cachorros de rua. Vivem 
num terreno. 
Fui at o local, no encontrei nenhum. Continuei  procura pelos 
dias seguintes. No o vi mais. 
H quem diga que o nome Exu  mau sinal. Uma amiga a quem 
contei o fato comentou: 
-Ainda bem que ele no ficou por l! Imagine, ter um Exu dentro de 
casa. 
No conheo profundamente as religies afro-brasileiras, mas pelo 
que sei o Exu no pode ser identificado com o diabo. Pelo contrrio. 
O Exu atua como um mensageiro.  quem leva os pedidos, energias, 
vibraes. Como um carteiro, no analisa se o contedo de uma 
mensagem  bom ou ruim. Uma carta pode trazer notcias 
excelentes ou ms. Exu est muito mais prximo do deus Mercrio 
dos gregos -aquele com asinhas nos ps -, um mensageiro divino. 
Mercrio  o patrono de jornalistas, escritores, de todos que 
trabalham com comunicao. Quando no o encontrei mais, senti 
uma dorzinha, porque tinha sido meu, nem que fosse por algumas 
horas. Mas entendi. 
-Foi um sinal, em uma noite de rveillon, para dizer que o ano ser 
bom, que devo ter esperanas! 
Quando me despedi, ainda deixei mais um recado com o caseiro: 
-Se encontrar aquele cachorro, avise. Eu pago bem. 


Ainda liguei vrias vezes. Sempre a mesma resposta. 
-Nunca mais apareceu. 


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Conclu: " para eu nunca mais ter cachorro". De novo, resolvi ficar 
mergulhado na solido. Um dia estava no Rio de Janeiro a trabalho 
quando meu celular tocou. Atendi. Era Robson. 
-Olhe, estou aqui na praia. Voc ainda quer aquele cachorro, o Exu? 
-Quero! Voc achou? 
-Ainda no sei. Depois explico. Telefonou um 
dia depois. 
-Voc volta quando? 
-Amanh! Por qu? Achou o Exu? 
-No, no, mas estou vendo. 
Eu tinha quase certeza de que j encontrara o co. Disse o horrio 
do avio. Quando cheguei, a faxineira avisou: 
-Seu amigo veio aqui, quer falar com o senhor. 
-Cad o cachorro? 
- melhor falar com o Robson. 
Corri para o quintal, onde colocara algumas cadeiras e uma 
mesinha. Robson sorriu. 
-Achou o Exu? -perguntei. 
Ele foi at o banheirinho de fora e voltou com uma cachorrinha 
preta, plo curto, filhote ainda, de pernas longas, corpo magricela e 
olhos extremamente doces. Uma vira-lata simptica que me 
derreteu. 
- uma prima do Exu. 


Eu e a filhotinha ficamos nos olhando um longo tempo. Ela botou a 
linguinha pra fora e lambeu o beio, tentando sorrir. Estendi meus 
braos e a pus no colo. 
Ento fui tomado por uma onda de sentimentos. Abracei a 
cadelinha. Chorei, chorei sem parar durante um longo tempo, 
deixando sair toda minha emoo represada. 
- sis. Seu nome vai ser sis. 
-Vai botar nome de gente? E se encontrar alguma sis surpreendeu-
se ele. 


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-Ser uma honra para ela ter um nome de cachorra. Robson me 
contou a histria. Estava hospedado na 
mesma casa do rveillon. Fora para a praia com sua me. De 
tardezinha, a cachorra os seguira at o condomnio. No tiveram 
dvidas. Colocaram a filhotinha na varanda, presa por uma 
cordinha. No dia seguinte, havia sumido. 
-Eu acho que foi o caseiro que soltou, porque eu disse que seria 
para voc. E ele ainda pensa que pode ganhar a recompensa pelo 
outro. 
Mas, de tarde, quando foram ao mercado, a cachorrinha aparecera 
novamente. Robson a levara para a casa, dera banho. E tirara a 
coleirinha de barbante que ela possua. 
-Ento tinha dono? 
-Parece que vivia numa casa com vrios cachorros. Mas estava 
cheia de carrapatos, doente. Eu a levei  veterinria da regio, que 
ficou emocionada. Ela disse: "Mais um cachorro salvo!". 
Segundo Robson, a cadelinha teria pouco tempo de vida, pois era 
muito magra e maltratada. Um dia se esconderia em um canto, bem 
triste, e no acordaria mais. 


-Mas eu soube que  prima do Exu. Ou parece! Concluiu: 
-Ficou na casa de minha tia esses dias. Se voc no quiser, minha 
tia quer. Est doida por ela. Mas eu lembrei de voc, do seu 
cachorro, e resolvi traz-la. 
- claro que eu quero.  minha agora e nem que voc queira tira 
daqui! 
Eu e sis trocamos um longo e enternecido olhar. Ela pulou para o 
meu colo. Acariciei seu pescoo. Ela esticou os lbios, sorrindo do 
jeito que sabem fazer os cachorros. 
Passamos o resto da noite trocando carinhos e lambidas. 
Ela deitou na minha cama. De manh, me acordou com o focinho 
gelado na orelha para sair. Mais tarde comprei coleira, rao, um 
novo potinho para as refeies. 
E descobri que meu corao no estava mais devastado. 


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Jamais esquecerei meu cachorro, meu husky, meu Uno. Mas aqui 
dentro tem lugar para minha sis, e os sentimentos no se 
confundem, perdas e amores fazem parte de uma mesma vida. 
Alguma coisa mudara dentro de mim. Comecei a olhar as pessoas 
de maneira completamente nova. Recuperei a vontade de conheclas, 
de me ligar, de criar laos. A imagem do homem solitrio, do 
eremita, desapareceu, e no seu lugar surgiu um sol radiante. Eu 
queria aquecer e ser aquecido. 
Meu longo luto terminara. Fora um aprendizado longo e difcil, mas 
meu sentimento deixara de ser um campo estril onde vida 
nenhuma brotaria. Pelo contrrio. Meu cachorro cultivara meu 
corao ao longo daqueles anos, e agora eu era capaz de gostar 
daquela cachorrinha simplesmente porque estava pronto. Queria 
correr riscos. S chora quem realmente amou, e sem amor a vida  
apenas uma passagem desolada. 
Meu cachorro, meu Uno, me acompanhou durante o tempo mais 
difcil da minha vida. Sua presena impediu que o deserto tomasse 
conta de mim, que me tornasse um ser estril. Seus uivos, suas 
lambidas, suas corridas, caadas, ternuras, tudo que desfrutamos 
juntos me manteve vivo. 
E agora, nesta casa outra vez animada por latidos, eu sinto a vida 
respirar. Um vento suave se aproxima, com risadas, msica, 
palavras de afeto de quem no conheo ainda. Mas j estou de 
braos abertos. Eu sei que uma coisa boa vai acontecer, 
simplesmente porque estou pronto. 
A vida se renova, os sentimentos desabrocham. 
Meu cachorro me ensinou a amar. 
Estou pronto para me apaixonar novamente. 

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